segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A letra dói (ou a letra que faz doer)


Não vou mais escrever. Pelo menos por algum tempo, que espero seja longo. Até o dia em que eu ficar cheio de novo do instintivo, carnal, comum, dos vícios mundanos, da mediocridade minha e dos meus semelhantes que me mostra o quanto, às vezes, somos pequenos e ridículos.

Alguém me disse hoje: você nos manda e-mails demais, incomoda, escreve muitas bobagens, devia “dar um tempo” de letras... Na hora eu ri de tão engraçado que eu achei. Não, na verdade a pessoa que é minha amiga e colega de trabalho – a sinceridade é uma grande aliada e nos é mais útil que o fingimento ou a mentira – não disse nada disso. Falou-me em tom de brincadeira, ameno, mas para bom entendedor meia palavra basta, um pingo é uma letra.

Então logo que dobrei a primeira esquina me veio esse desejo de não ter o desejo de me expressar para os outros, dividindo algumas coisas que passei a ver como essenciais para nós que já estamos do meio para o fim, mais perto do ocaso que da gênese da vida. Não mais andarei catando tolices, juntando frases vãs, não mais comentarei da frivolidade das coisas que permeiam a nossa vida ou das virtudes e sentimentos que deveriam nos motivar, nem dos pensamentos para nos moldar.

Pronto! Lá vou eu com essa maldita mania adquirida de falar do que as pessoas não querem ouvir: da frivolidade do que nos move, nos incita e nos domina diariamente. Quando fiquei cheio de mim passei a encher o saco dos outros. Já nos bastam o pão e o circo, para quê então as abstrações e reminiscências de filósofos doidos, de escritores desocupados, de pensadores sedentários, de pregadores alienados do moderno contexto social-político-capitalista-vanguardista-exotérico-sincretista, etc. etc.

O bom mesmo é dinheiro. Com ele a gente pode tudo. Com ele a gente compra garrafas de bebidas pra “encher a cara” até ficar grogue e adoecer o indolente fígado, compra cocaína pra cheirar até sangrar o nariz, paga enfermeiros pra fazer aborto nas nossas filhas adolescentes, paga a um detetive pra espionar a nossa mulher (ou marido) suspeita (o), paga ao contador para que soneguemos o imposto devido, corrompe os interessados em nos livrar das contravenções e infrações, compra testemunhas falsas, paga o carro, combustível, motel e o cachê de garotas e garotos de "programas" viçosos e vistosos, leva pra casa filmes pornográficos que as crianças assistem quando damos as costas, faz festas pra regalar os “amigos” de plantão... Que maravilha o dinheiro, vou me importar só com isso agora. Com ele o mundo fica mais sedutor.

Para quê os textos que nos fazem pensar, questionar, incomodar o nosso interior e comprometer o nosso status? Não vou escrever, eu prometo! Não mais escreverei. Até o vazio voltar a ser o meu companheiro insuportável. 

Alberto Magalhães

A criança em conflito familiar


A criança mais sensível tem uma falta maior de atenção e cuidados. E assim ela se torna mais carente e quando os pais, por razões diversas, não podem lhe dar o que necessita isso produz em seu ser uma sensação de abandono, que produz a mágoa. A mágoa continuada gera o ódio e a revolta. Por sentir-se “abandonada” a criança cresce achando-se sem “dono”, sem norte definido, sem um porto seguro que possa lhe prender a uma “terra” firme para construir o seu projeto de vida. A bandeira que ela carrega está sem cor definida, sem símbolo significativo a lhe prender a um sentido salutar e perene. Não há valores importantes, sagrados a serem seguidos. Tudo o que vier será válido, então.

Quando chega à adolescência, a pessoa atingida por essas experiências fica a mercê de quem lhe dá atenção e carinho, seja quem for e sejam quais forem as suas intenções (mesmo as piores para a pessoa “desprezada” pelos seus entes queridos). A “valorização” de si por pessoas estranhas ao seu grupo familiar faz aumentar a distância entre o adolescente insatisfeito e seus pais, faz piorar a impressão negativa do adolescente para com as pessoas do seu círculo familiar e o faz supervalorizar “o gostar sem impor condições” de outras pessoas, fazendo esse adolescente “apagar” todos os defeitos da índole dessas pessoas, a ignorar a má qualidade de suas naturezas. O adolescente em questão passa a personificar (a assimilar o que) as qualidades negativas dessas pessoas a fim de cada vez mais receber a sua aprovação e “amor”. O adolescente desajustado emocionalmente acha-se “insuficiente” para ser aceito e amado pelos pais e consequentemente por seus familiares. Então passa a aceitar e aprovar os desaprovados para que possa facilmente ser aceito e querido.

Ele passa então a formar uma identidade, um perfil a partir do modelo das pessoas que lhe “acolheram” tão encarecidamente, após o seu conflito familiar, que gerou o conflito interior de existência e de identidade. O adolescente que se sente infeliz e que põe a culpa nos pais sempre procura amizade com pessoas “resolvidas” nessa questão para se abrigar e a superar. Para tanto se ampara em pessoas que desprezam as regras estabelecidas pelos pais, que transgridem padrões impostos por aqueles que os fazem “sofrer”. Assim sente que anulou o conflito, contornando o sistema educacional “opressor” tomando partido contrário aos seus “inquisidores”, não deixando mais a sombra inquietante da dúvida lhes incomodar. Decide-se definitivamente pelo profano, ou melhor: pelo moderno, já que o sagrado lhe é desconhecido. Nada mais é especial. Torna-se ativo combatente prático do modelo tradicional que atualmente combate o sistema inimigo apenas na teoria, o sistema da desagregação familiar e social.

O adolescente em conflito interior procura os outros “rebeldes” porque os vê como pessoas fortes, decididas, resolvidas que estabelecem um novo modelo de relação familiar e interpessoal: o da transgressão ao que lhe incomoda e “diminui”, o do enfrentamento àqueles que o “desprezam”, que não foram capazes, pelo caminho do amor padrão, de lhes fazer felizes. O adolescente desgarrado de suas origens envereda pelo caminho do livre querer, do bel prazer e do não compromisso com o modelo que lhe “feriu”. Esse “descaminho” se torna o seu caminho para crescer, embora esse seja o caminho da dor. Não mais o da dor emocional, transitória, mas o da dor real, permanente porque evolui para o psicológico e espiritual.


Após esse adolescente trilhar uma longa jornada no caminho da transgressão, da rebeldia, do abandono de si mesmo (quando pensava tomar as rédeas do seu destino), continuará culpando os pais por todo o seu fracasso social e pessoal.

Alberto Magalhães