domingo, 28 de fevereiro de 2010

*Clóvis Barbosa: cachaça e política se assemelham

A bagaceira

Clóvis Barbosa (*)

Somos nordestinos. Dentro da liturgia cultural destas bandas, temos o acanalhado vezo de conferir a qualquer bebida etílica o esculhambado e vulgar epíteto “cachaça”. José bebe vinho? A coisa se amesquinha. Ele toma é cachaça. O aperitivo de João é um whiskyzinho? Lá vai o infame pra vala comum. Cachaceiro. E o pior, se Antônio estiver na curtição da verdadeira cachacinha, aí é que o achincalhe ganha tônus. “Antônio? Está é cheio da cana”. Ninguém poupa o plantel dos cachaceiros. Nem eles mesmos. É uma tribo antropofágica. O cabra, com uma cerveja na mão, quando pensa em tirar o escalpo do desafeto, logo entoa: “Quem? Aquele pulha? Cachaceiro!” Macaco não repara o rabo. E cachaceiro não espia o copo. A cachaça só enxergou duas passagens em que a absolveram: as Bodas de Caná, onde Cristo transformou água em vinho, e a Última Ceia, onde o vinho simbolizou seu sangue.

Nas próprias escrituras, porém, exemplos de avacalhação e vinho pululam. No gênesis, há dois que inspirariam o papa a redigir uma encíclica sobre os desalentos da cachaça. O primeiro está ali onde Noé, após cultivar uvas e produzir vinho, se embriagou (nordestinamente: se encheu do “pau”). Bêbado, ficou completamente nu (isso, na altura dos seus seiscentos anos). Espetáculo digno da pequena loja dos horrores. Um velho, muxibento e cachaceiro, exibindo a trouxa desavergonhadamente. O filho caçula flagrou o atentado e clamou pelos irmãos mais velhos, que socorreram o patriarca. Aqueles, de costas, certamente para não se assombrarem, foram na direção do ancião com um lençol, a fim de cobri-lo e conduzi-lo à tenda, onde curou a cachaça. Mas, como nada de bêbado tem dono (nem o juízo), Noé esconjurou o filho mais novo, porque este o viu despido. O moço merecia era uma brutal terapia psiquiátrica.

O segundo e voluptuoso episódio se dá quando as filhas de Ló, sob a desculpa de que não deixariam o velhinho sem descendência, propuseram arrepiante ardil. O cenário é a pós-destruição de Gomorra. Foragidos, Ló e filhas homiziaram-se numa caverna, na região montanhosa de Jerusalém, onde hoje se encontra o Mar Morto. À noite, embebedaram o pai e, no âmago de sua suposta inconsciência, praticaram ménage-à-trois, da qual saíram embuchadas. Garantiram prole a Ló, num contexto de chocar a menos carola das beatas. O que intriga nisso é que cachaça e política se assemelham. Ambas, quando não recebem bênção divina (exemplos da Santa Ceia e das Bodas de Caná), ou desnudam e expõem o camarada ao ridículo (que ainda amaldiçoará alguém), ou outorgam prazer num quadro de promiscuidade (fossem só esses os esculachos). O povo (sempre ele), todavia, é quem sai gozado no final. (**)

(*) Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe.

(**) Publicado no Jornal da Cidade, Aju-SE, dom (28/02) e seg (1º/03), 2010, B19.

Comentário do autor do blog*:
Amei os textos “Ecce homo” e “A banalidade do mal” republicados neste blog, ambas as obras do punho de Clóvis Barbosa de Melo a quem eu devoto um sentimento de respeito pela sua trajetória pessoal e saber jurídico. No entanto esse texto que postei acima me desgostou sobremaneira. Primeiro porque eu acho temerário que para se tratar de assuntos mundanos se use a Bíblia (coleção das Escrituras Sagradas) como referência. Não que de certa forma não sirva, apenas penso que nos tempos em que vivemos de perda de credibilidade da família, das instituições, da autoridade, dos valores fundamentais as Escrituras Sagradas devem permanecer separadas do comum, do profano, do mundano numa sociedade Cristã (caso do Brasil) pelas pessoas de bom senso, para que ela possa servir de parâmetro para a boa consciência e princípios espirituais. Fonte de inspiração até para a Carta Magna de países civilizados e prósperos que nos antecederam como nação. A não ser quando o assunto bíblico tratado for bem dissecado para não deixar uma interpretação distorcida da realidade apresentada.

Em todas as culturas (não só na nordestina) se referem aos bêbados e aos alcoólatras de maneira galhofeira e até depreciativa usando termos próprios.

Na qualidade de alguém que leu os 66 livros que compõem a Bíblia (de Gênesis a Apocalipse) posso tecer alguns comentários à respeito do tema:

Jesus transformou água em vinho – O vinho tinha o significado de alegria, confraternização, congraçamento. Era essencial para se comemorar os eventos importantes: as boas colheitas, os casamentos, as solenidades, etc. O melhor vinho era servido no começo da festa e depois que o paladar já estava saturado do seu sabor era servido o de qualidade inferior, que geralmente passava despercebido. Quando o vinho acabou sem que a festa das bodas houvesse chegado ao fim Jesus pediu os potes com água (Maria disse: “fazei o que Ele pede.” Não funciona ao contrário como alguns religiosos pregam) e miraculosamente produziu vinho. E o melhor vinho que poderia ser feito. Era tamanha a sua qualidade que os festeiros conseguiram perceber a diferença e estranharam o fato de haverem deixado o melhor vinho para o final da festa. Por que Jesus fez isso? Porque Ele queria mostrar que poderia trazer maior alegria às pessoas que a que eles tinham com qualquer coisa já existente, independente da ocasião, dos limites humanos. Na última ceia Ele disse que “aquele” vinho da alegria, do congraçamento (não da farra) deveria ser bebido simbolizando o seu sangue que seria dado, ofertado para resgatar a amizade íntima (comunhão espiritual) dos crentes na sua expiação (em lugar dos homens comuns) para comemorar o evento mais importante que todos os outros: a redenção da humanidade, a colheita de seguidores. Os não seguidores são o joio da plantação, serão descartados.

A nudez de Noé - No evento de Noé os termos pejorativos me chocaram em virtude da pessoa esclarecida que escreveu. Noé já velho e sem a mesma resistência de outrora, bebeu do vinho de sua plantação, se embriagou e ficou despido dentro da sua tenda. O seu filho mais novo de forma desrespeitosa para a época se deu o direito de contemplar o seu pai desnudo, o que não era permitido. As qualidades físicas do idoso que pela primeira vez se embriagara de vinho não trazem nenhuma importância à interpretação da passagem. (Gênesis 9:20)

Ló e suas duas filhas – Sodoma foi destruída. A mulher de Ló na fuga determinada pelo Anjo foi transformada em pedra porque fora proibida de olhar para trás e não obedeceu. Ló e suas filhas habitaram uma caverna nas montanhas. Pela tradição daquele povo quem morresse sem deixar descendente era desgraçado. As moças não tinham com quem deixar-lhe descendência e resolveram embebedar o pai e conceber dele próprio. Mas não num ménage-à-trois. A mais velha o embebedou numa noite e praticou o incesto e a mais nova na noite seguinte repetiu o feito (Gênesis 19:29). É bom frisar que os povos que descenderam desses dois filhos gerados por Ló com suas filhas (Moabe – os Moabitas, e Bem-Ami – os Amonitas) não se relacionaram com Deus que antes havia abençoado Ló, que lhe era fiel. Os israelitas descendem de Israel (Jacó) e eram desafetos desses povos. Os israelitas foram separados para servir de vitrine ao mundo de como Deus quer que as comunidades em tudo procedam. Depois do advento de Jesus Cristo o povo escolhido e separado para servir de modelo é encontrado em todo o mundo. São chamados Cristãos. (ver http://www.aculturadeista.blogspot.com/ )

*Alberto Magalhães

Comentário enviado por Marcos Vinicius Gomes* via e-mail:
Clóvis Barbosa no artigo 'A bagaceira' (publicado no Jornal da Cidade de Aracaju e reproduzido por Alberto Magalhães em seu blog Textos-livres) traz um estilo bem adequado ao tema. É brejeiro, irreverente e até insolente, rodeado de trechos barroquizantes vai ao encontro da temática escolhida - o álcool e seu contexto social e histórico tanto no Brasil quanto no mundo. Porém, se Clóvis (que é Conselheiro do Tribunal de Contas de Sergipe e advogado) acerta na forma, erra no conteúdo, eximindo-se de suas responsabilidades em uma leitura parcial, pecando por estereotipizar costumes, povos, pessoas.

O álcool como bem disse Barbosa está ligado à política. Ou melhor diretamente ligado ao político, chefe de Estado. Seu uso por estas pessoas públicas pode criar efeitos devastadores. Entretanto alguns conseguem suplantar a falta de credibilidade que o uso de destilados ou fermentados pode trazer. Temos bons exemplos históricos.

Winston Churchill (1875-1965), primeiro-ministro britânico que o diga. Era tido como bêbado, por apreciar uísque. Foi um dos grandes estadistas do século passado, tendo tido em seu rol de façanhas liderado a resistência contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Ele (assim como a grande maioria das pessoas que consomem o álcool de modo consciente) era centrado, focado em seus objetivos. O uísque era apenas um passatempo. Churchill também era conhecido por seu senso de humor. Um dia, uma mulher desafeta sua lhe disse:"Sr Churchill, se eu fosse sua mulher, colocaria veneno no seu chá!". Ele, muito educado replicou:"E se eu fosse seu marido eu beberia o chá." Apesar do apreço pelo 'etílico regozijante' e do bom humor de Churchill, não há quem o desabone no papel de grande líder.

Há também exemplos mais recentes, tirados de terras brasileiras. Jânio Quadros (1917-1992), político paulista tido como excêntrico e demagogo, teve sua trajetória política marcada pelo estereótipo de 'alcoólatra'. É conhecida a frase atribuída a ele:"Eu bebo porque é líquido, porque se fosse sólido, comê-lo-ia" (referidndo-se à bebida). Jânio com todos seus erros e acertos em sua trajetória como governador, 'presidente-relâmpago' e prefeito ficou marcado mesmo por sua passagem pela cidade de S. Paulo como prefeito, já no fim da carreira política.

O caso mais notável, tanto pelo apreço por destilados, carregado pelo secular preconceito de classe de uma nação atrasada, estratificada e com uma elite arrogante, temos no Presidente Lula. Saído de um berço nada esplêndido, pobre, nordestino sem nome,ex-metalúrgico e dirigente sindical que ousou despontar como líder político e chefe de estado de seu país, Lula possuía (talvez ainda possua) todos os atributos que o desqualificariam para o cargo que exerce pela segunda vez. Seus adversários políticos, como parte da imprensa,sempre ressaltaram o apreço do presidente pelos destilados, especialmente a 'cachaça'. É célebre o episódio onde um jornalista americano escreveu sobre a possível doença do presidente (o alcoolismo) somente pelo fato do presidente beber em momentos de lazer. Alguns setores da imprensa abraçaram este argumento. De ex-retirante e primeiro presidente brasileiro advindo das classes populares, Lula foi transfigurado num 'Boris Yeltsin latino americano'. Boris (1931-2007), ex-presidente russo, ficou conhecido por apreciar a vodca e por vezes aparecer alterado em compromissos públicos. Porém esqueceram-se estes que criticam Lula (ou fingem esquecer) do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apreciador também de destilados, do tipo uísque. Aqui o que diferencia Lula de FHC, além da origem, é o 'prestigio social ' agregado à bebidas de suas preferências. Esta constatação reforça a tese do 'teor político' além do 'teor social que o álcool pode trazer consigo, dependendo do prestígio e do preço da bebida em questão.

Barbosa, neste seu texto, erra ao associar de maneira equivocada o consumo do álcool à cultura nordestina. Ficou latente em seus discurso o estereótipo do 'nordestino cachaceiro' que em situações adversas patrocinadas por injustiças históricas, tem no álcool um paliativo para suas agruras. A falta de vigor na análise histórico-social do uso do álcool nas sociedades - em especial na brasileira nordestina - é desabonador. É sabido que o nordeste foi durante séculos grande produtor de cana-de-açúcar para exportação e, por conseguinte, grande produtor de destilados. Grandes fortunas foram erguidas no ciclo da cana-de-açúcar, juntamente com um sistema político-social opressor, clientelista, pautado em conchavos obscuros que ainda são refletidos não só na parte setentrional do país.

O ilustre homem de leis se esquivou da responsabilidade de analisar o consumo não recreativo do álcool associado, geralmente às classes populares -trabalhadores do comércio, operários, autônomos, funcionários públicos semi-qualificados. Esqueceu-se de exercitar o senso crítico olhando além fronteiras. Se o consumo compulsivo do álcool é uma válvula de escape em situações de vulnerabilidade social-econômica, não o é apenas no nordeste ou no Brasil. Pode ser mais notado no nordeste por ser esta região um laboratório histórico de equívocos político-sociais e econômicos, que trazem à população em geral atraso humanístico mais expressivo do que em outras regiões do país. Entretanto isso não é regra. O consumo do álcool de modo compulsivo (alcoolismo) tem seus reflexos em áreas mais desenvolvidas, em várias classes sociais de diferentes culturas e faixas etárias. Por exemplo, temos o crescimento do consumo de álcool por jovens da classe média paulistana e também entre mulheres - estas historicamente pouco dadas ao álcool, devido à questões sociais como o tabu familiar, o preconceito, entre outros paradigmas que deixam de ser seguidos nesta época pós-feminista. O consumo excessivo do álcool, assim como o consumo de drogas ilícitas é um fenômeno social abrangente, não se restringindo a esta ou a aquela região específica.

Esta condescendência do autor associada a uma cultura que, se não exclusiva do nordeste, tem fortes raízes na região e que se espalharam por todo o país, pode ser em certos casos preocupante. Qual juízo crítico poderemos ter em casos onde o álcool, ligado à desagregação familiar, ao desemprego à penúria econômica, à falta de perspectivas a curto prazo para o cidadão desassistido pelo Estado, cause danos irreparáveis a um núcleo familiar? Quantas mulheres, não apenas no nordeste estão neste exato momento sofrendo, sendo espancadas por maridos alcoólatras que viram na bebida um paliativo para seus problemas? Quantas tragédias consumadas pelo consumo irresponsável do álcool no trânsito, em discussões banais? E pelas drogas ilícitas? Deveríamos ser condescendentes para com aqueles que desafiam a lei disponibilizando bebidas alcoólicas a menores de 18 anos? Será que o ilustre advogado se esconderia por detrás de sofismas etílicos, evocando a cultura do álcool fortemente arraigada (segundo sua opinião) em terras nordestino-brasileiras em situações onde devesse ser feita a reparação à sociedade pelo consumo irresponsável ou compulsivo do álcool? Qual seria seu parecer? Somente Clóvis Barbosa pode responder.

*Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa em São Paulo e é autor de http://www.notasdemidia.blogspot.com/ e http://www.brazilianperspective.blogspot.com/

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

*A Corrupção No Brasil

O nosso país caminha por passos vagos. Apesar de arrecadar bilhões por ano, a renda é muito mal distribuída; apesar de ser um país avançado, que tenta superar a condição de emergente em relação aos Estados Unidos e países europeus, perde, e muito, para a corrupção.

Segundo vi através das minhas pesquisas, o ano de 2008 fechou com 300 mil operações fraudulentas ou irregulares, um aumento de 112% em relação ao ano anterior, e ainda o Brasil perde anualmente com a corrupção política e empresarial cerca de R$ 160 bilhões, o que representa 6% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.

Não podemos deixar de criticar os atos que ficam impunes em nosso governo. A roubalheira chega a surpreender, pois muitos jornais, sejam eles impressos ou televisivos, denunciam atos corruptos, mas parece que as autoridades apóiam, se locupletam com os embusteiros.

Não há como deixar de indignar-se diante da tamanha corrupção que assola as nossas administrações. E é essa a principal causa da indignação do brasileiro, pois os corruptos tiram de nós não apenas o pão que nos alimenta, mas a dignidade.

Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Brasil perde US$ 3,5 bilhões por ano com prejuízo à produtividade provocada por fraudes públicas. Perdemos com isso um grande investimento em educação, saúde e segurança por exemplo.

Enquanto noticiam as fraudes do governo e das empresas, a saúde sofre com a falta de medicamentos, de leitos, de médicos e os governos dizem estar fazendo o necessário para melhorar o atendimento ao doente no SUS.

É deprimente o estado do nosso país. Ele está jogado às traças, ou melhor, à corrupção.

Ronyvaldo Barros dos Santos/www.ronyvaldo.wordpress.com

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

*Conflitos ético-morais e nossa liberdade de escolha

Por Paulo Márcio*

Tornou-se cada vez mais comum, nos dias que correm, assistirmos à execração pública de pessoas até então tidas como moralmente idôneas, honradas, acima de qualquer suspeita. Assim, de uma hora para outra, o indivíduo antes ungido com o óleo da moralidade passa a ser pichado com a graxa da indecência, da infâmia, da desonestidade. Imediatamente estampa-se-lhe na testa, sem apelo, o selo da imoralidade. Seus amigos logo se afastam; sua família, humilhada, esconde-se, e ele, centro de todas as atenções, debate-se como animal assustado, que intui a morte aproximar-se nos corredores sombrios do matadouro. Há pouco que fazer nessas horas, na medida em que o primeiro julgamento é sempre moral e, por isso mesmo, sumário, daí a celeridade do rito e a certeza da condenação. Ademais, temerosos da ira da opinião pública – este ente tão perverso e por vezes injusto -, nessa fase poucos se arriscam a defendê-lo, e, quando o fazem, quase sempre agem movidos por interesses inconfessáveis, embora ouçam, na câmara secreta de sua consciência, uma voz que lhes alerta sobre o erro e a insensatez de abraçar uma causa que vai de encontro aos altaneiros valores da sociedade.

No âmbito de todos os poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) e nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal) vem ganhando força um movimento que pugna pela moralidade administrativa. Tal movimento assemelha-se a uma onda, mais do que isso, a um tsunami que percorre silencioso os bastidores do poder e, subitaneamente, invade as praias atrativas, tranquilas e paradisíacas da corrupção, do crime organizado e da impunidade, provocando alvoroço, medo, paralisia e muita indignação naqueles que, acostumados ao prazer e ao deleite proporcionados pelo dinheiro público desviado, ignoram que a principal característica da realidade é a própria impermanência... E como nada há de durar para sempre, é no bojo das constantes e efervescentes transformações sociais que novos valores surgem e afirmam-se, destronando pouco a pouco antigas e nefandas práticas ainda encontradiças em nosso meio social.

A moral não é monopólio de nenhum povo, de nenhum partido político, de nenhum grupo religioso, de nenhuma categoria profissional, mas uma conquista, um valor, um ideal que pode e deve ser perseguido e alcançado por todo e qualquer indivíduo participante da vida gregária, na medida em que é um produto cultural relativizado no tempo e no espaço, cuja validade só se pode observar e aferir nos relacionamentos interpessoais, no trato com a coisa pública e na capacidade de servir e ser útil ao grupo social no qual o indivíduo está inserido.

Assim, não basta ao indivíduo inflar os pulmões e bradar aos quatro cantos que é honesto, moral, decente, para que seja reconhecido como tal, sobretudo quando os fatos e as circunstâncias dizem exatamente o contrário. Esse tipo de comportamento, aliás, quase sempre seguido de ataques furiosos e veementes a outros indivíduos, além de soar arrogante e inadequada, geralmente revela um conflito psicológico do qual o sujeito é portador. Não raro, trata-se de uma clara projeção psicológica, mecanismo mediante o qual o indivíduo projeta no outro aquelas características que rejeita em si próprio, características essas trancafiadas nos porões do seu inconsciente e transferidas amiúde para este ou aquele alvo, contra quem lança toda sorte de impropérios e acusações levianas sem perceber que na verdade é ele próprio quem, inconscientemente, coloca-se na alça de mira de sua própria fúria e indignação. Daí H.G. Wells ter afirmado que “indignação moral é inveja com auréola”.

Convém, portanto, pôr as barbas de molho diante daqueles que se arvoram na condição de “seres morais”. Primeiro, porque a moralidade não se resume a uma questão de retórica; antes constitui uma postura em face dos desafios impostos pela vida, sobremaneira quando o indivíduo é colocado diante de facilidades que lhe despertam interesses egoístas e pouco nobres. Segundo, porquanto ela não é característica inata, mas um apanágio do indivíduo que logrou alcançar um nível consciencial que lhe permite discernir o certo e o errado, o bem e o mal – abstraído qualquer maniqueísmo -, e fazer sua escolha livremente, sempre de forma ética, construtiva e edificante.

Mas, como diferenciar o “ser moral” do “indivíduo imoral”? Seria isso possível? Bem, é óbvio que não existe fórmula ou método infalível para esse mister. Jesus Cristo, no entanto, vaticinou que podemos reconhecer a árvore pelos frutos. Assim, se a árvore for boa, dará bons frutos; sendo má, dará maus frutos. Portanto, para o Mestre Nazareno, desde que não possamos sondar os aspectos subjetivos do indivíduo, cabe-nos recorrer ao exame de suas obras, ações e tantas outras realizações externas, de maneira que logremos, a partir do estudo dos aspectos exteriores, aferir, ainda que parcialmente, as qualidades morais daqueles que nos circundam e com quem interagimos.

O místico indiano Bhagwa Shree Rajneesh, mais conhecido como Osho, parte de uma premissa bem diferente, qual seja, a de que a moralidade, sendo tão-somente um substituto pobre da religião dos buda – fundada no desapego e na compaixão -, possui um caráter puramente utilitário, permitindo apenas que as pessoas convivam umas com as outras sem se autodestruírem. Nega, por conseguinte, a existência do homem moral, afirmando que “os moralistas não são realmente morais – eles estão vivendo uma vida dupla: na superfície, morais, mas, na realidade, tão imorais quanto qualquer outra pessoa ou até mesmo mais. Talvez a moralidade deles esteja presente para esconder suas atividades ilegais. E todos parecem estar no mesmo barco. Do mais baixo trabalhador ao homem que detém o posto mais alto, o primeiro-ministro ou o presidente do país, parece que todos estão no mesmo barco.”

Osho é ainda mais radical ao asseverar: “Parece que um homem só é moral até ser capturado. Assim, a diferença entre o moral e o imoral é somente esta: de ser ou não capturado”. E para não ser capturado – complementamos -, o homem não deve jamais contar com a sorte ou com a impunidade, mas abster-se da prática do ato infame quando a tentação bater-lhe à porta, recorrendo a Deus e à Consciência a fim de que se mantenha sempre ético, honrado, digno e moral.

*Paulo Márcio é delegado de Polícia Civil, graduado em Direito (UFS), especialista em Gestão Estratégica em Segurança Pública (UFS), especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal (Fa-Se) e colunista do Universo Politico.com/Contato: paulomarcioramos@oi.com.br