segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A criança em conflito familiar

A criança mais sensível tem uma falta maior de atenção e cuidados. E assim ela se torna mais carente e quando os pais, por razões diversas, não podem lhe dar o que necessita isso produz em seu ser uma sensação de abandono, que produz a mágoa. A mágoa continuada gera o ódio e a revolta. Por sentir-se “abandonada” a criança cresce achando-se sem “dono”, sem norte definido, sem um porto seguro que possa lhe prender a uma “terra” firme para construir o seu projeto de vida. A bandeira que ela carrega está sem cor definida, sem símbolo significativo a lhe prender a um sentido salutar e perene. Não há valores importantes, sagrados a serem seguidos. Tudo o que vier será válido, então.

Quando chega à adolescência, a pessoa atingida por essas experiências fica a mercê de quem lhe dá atenção e carinho, seja quem for e sejam quais forem as suas intenções (mesmo as piores para a pessoa “desprezada” pelos seus entes queridos). A “valorização” de si por pessoas estranhas ao seu grupo familiar faz aumentar a distância entre o adolescente insatisfeito e seus pais, faz piorar a impressão negativa do adolescente para com as pessoas do seu círculo familiar e o faz supervalorizar “o gostar sem impor condições” de outras pessoas, fazendo esse adolescente “apagar” todos os defeitos da índole dessas pessoas, a ignorar a má qualidade de suas naturezas. O adolescente em questão passa a personificar (a assimilar o que) as qualidades negativas dessas pessoas a fim de cada vez mais receber a sua aprovação e “amor”. O adolescente desajustado emocionalmente acha-se “insuficiente” para ser aceito e amado pelos pais e consequentemente por seus familiares. Então passa a aceitar e aprovar os desaprovados para que possa facilmente ser aceito e querido.

Ele passa então a formar uma identidade, um perfil a partir do modelo das pessoas que lhe “acolheram” tão encarecidamente, após o seu conflito familiar, que gerou o conflito interior de existência e de identidade. O adolescente que se sente infeliz e que põe a culpa nos pais sempre procura amizade com pessoas “resolvidas” nessa questão para se abrigar e a superar. Para tanto se ampara em pessoas que desprezam as regras estabelecidas pelos pais, que transgridem padrões impostos por aqueles que os fazem “sofrer”. Assim sente que anulou o conflito, contornando o sistema educacional “opressor” tomando partido contrário aos seus “inquisidores”, não deixando mais a sombra inquietante da dúvida lhes incomodar. Decide-se definitivamente pelo profano, ou melhor: pelo moderno, já que o sagrado lhe é desconhecido. Nada mais é especial. Torna-se ativo combatente prático do modelo tradicional que atualmente combate o sistema inimigo apenas na teoria, o sistema da desagregação familiar e social.

O adolescente em conflito interior procura os outros “rebeldes” porque os vê como pessoas fortes, decididas, resolvidas que estabelecem um novo modelo de relação familiar e interpessoal: o da transgressão ao que lhe incomoda e “diminui”, o do enfrentamento àqueles que o “desprezam”, que não foram capazes, pelo caminho do amor padrão, de lhes fazer felizes. O adolescente desgarrado de suas origens envereda pelo caminho do livre querer, do bel prazer e do não compromisso com o modelo que lhe “feriu”. Esse “descaminho” se torna o seu caminho para crescer, embora esse seja o caminho da dor. Não mais o da dor emocional, transitória, mas o da dor real, permanente porque evolui para o psicológico e espiritual.


Após esse adolescente trilhar uma longa jornada no caminho da transgressão, da rebeldia, do abandono de si mesmo (quando pensava tomar as rédeas do seu destino), continuará culpando os pais por todo o seu fracasso social e pessoal.

Alberto Magalhães

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