domingo, 21 de fevereiro de 2016

Fanatismo, materialismo e fé


Eu não posso falar sobre gestação humana, eu nunca estive grávido. Não posso falar sobre o frio porque eu nunca estive no inverno europeu ou similar. E isso vale para muitas outras coisas. Como, por exemplo, falar com tanta propriedade sobre pessoas que mal conhecemos, às vezes, simplesmente seguindo comentários de pessoas maliciosas ou invejosas. Assim acontece com assuntos pertinentes a religião (do latim religare, religar, em português). Muitos exercem ferrenha e persistente crítica à Bíblia, sem terem o mínimo conhecimento do que trata essa coletânea de textos sagrados (o termo sagrado, do latim sacratu, refere-se a algo que merece veneração ou respeito religioso – Wikipédia). Os descrentes materialistas estão se viciando em zombar da divindade.

Para que possamos emitir opinião contestadora a respeito de alguma coisa devemos conhecer aquilo sobre o qual tratamos. Estudando, pesquisando, vivenciando – se possível – o que nos interessa abordar. Quem não conhece as Escrituras Bíblicas não tem autoridade para questionar o seu conteúdo, a sua mensagem, a sua finalidade. Os Gideões Internacionais preceituam que ela é como “o mapa do viajante, o cajado do peregrino, a bússola do piloto e a espada do soldado.” É o guia do fiel. Ela revela a mente de Deus, foi nos entregue para conhecimento e prática e será reaberta para o julgamento. Ela é a Constituição do mundo. Primeira e superior a todas as outras.

As instituições religiosas criadas são nascidas de interpretações de adeptos – ou grupos deles – dos preceitos contidos nos seus livros (a saber, 39 no Velho Testamento e 27 no Novo Testamento). Há adeptos que geram religiões. Há religiões que geram fanáticos. Há fanáticos que geram tragédias. A palavra bem interpretada gera fiéis, seguidores, amantes do bem, praticantes do amor Ágape e do Philos - o amor solidário, elevado, universal. Ridicularizar um símbolo que é considerado sagrado para outrem (como fizeram os integrantes do francês Charlie Hebdo) foi baixo, deselegante, ignóbil, no entanto, punir alguém com a morte por haver esnobado, tripudiado um símbolo sagrado da fé é reduzir a onipotência de Deus, no seu poder de julgar e agir.

O Deus islâmico, o Eterno, o Altíssimo, que é o meu também, disse ao Rei Saul que obedecer é melhor que sacrificar. A quem Ele deu ordem para matar os jornalistas franceses? Deus não precisa de homem bomba para conseguir alcançar seus intentos, para realizar seus irrevogáveis desígnios. E isso foi permitido no período de regência da Lei de Moisés. Depois Deus só concordou numa morte: naquela que é o sacrifício perfeito para aqueles que ouvem a Sua voz e abrem o coração: a do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, o Cristo prometido. Quem tem fé e é vingador peça ao SENHOR que caia fogo dos céus e consuma os ímpios blasfemadores, como fez o profeta Elias contra os 450 profetas de Baal. Afinal ele é o Senhor dos Exércitos e o Juiz Supremo. Os fanáticos fundamentalistas dilaceram a mensagem do amor divino tanto quanto os sacerdotes desonestos e os irreverentes opositores da fé.


Alberto Magalhães

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A letra dói (ou a letra que faz doer)


Não vou mais escrever. Pelo menos por algum tempo, que espero seja longo. Até o dia em que eu ficar cheio de novo do instintivo, carnal, comum, dos vícios mundanos, da mediocridade minha e dos meus semelhantes que me mostra o quanto, às vezes, somos pequenos e ridículos.

Alguém me disse hoje: você nos manda e-mails demais, incomoda, escreve muitas bobagens, devia “dar um tempo” de letras... Na hora eu ri de tão engraçado que eu achei. Não, na verdade a pessoa que é minha amiga e colega de trabalho – a sinceridade é uma grande aliada e nos é mais útil que o fingimento ou a mentira – não disse nada disso. Falou-me em tom de brincadeira, ameno, mas para bom entendedor meia palavra basta, um pingo é uma letra.

Então logo que dobrei a primeira esquina me veio esse desejo de não ter o desejo de me expressar para os outros, dividindo algumas coisas que passei a ver como essenciais para nós que já estamos do meio para o fim, mais perto do ocaso que da gênese da vida. Não mais andarei catando tolices, juntando frases vãs, não mais comentarei da frivolidade das coisas que permeiam a nossa vida ou das virtudes e sentimentos que deveriam nos motivar, nem dos pensamentos para nos moldar.

Pronto! Lá vou eu com essa maldita mania adquirida de falar do que as pessoas não querem ouvir: da frivolidade do que nos move, nos incita e nos domina diariamente. Quando fiquei cheio de mim passei a encher o saco dos outros. Já nos bastam o pão e o circo, para quê então as abstrações e reminiscências de filósofos doidos, de escritores desocupados, de pensadores sedentários, de pregadores alienados do moderno contexto social-político-capitalista-vanguardista-exotérico-sincretista, etc. etc.

O bom mesmo é dinheiro. Com ele a gente pode tudo. Com ele a gente compra garrafas de bebidas pra “encher a cara” até ficar grogue e adoecer o indolente fígado, compra cocaína pra cheirar até sangrar o nariz, paga enfermeiros pra fazer aborto nas nossas filhas adolescentes, paga a um detetive pra espionar a nossa mulher (ou marido) suspeita (o), paga ao contador para que soneguemos o imposto devido, corrompe os interessados em nos livrar das contravenções e infrações, compra testemunhas falsas, paga o carro, combustível, motel e o cachê de garotas e garotos de "programas" viçosos e vistosos, leva pra casa filmes pornográficos que as crianças assistem quando damos as costas, faz festas pra regalar os “amigos” de plantão... Que maravilha o dinheiro, vou me importar só com isso agora. Com ele o mundo fica mais sedutor.

Para quê os textos que nos fazem pensar, questionar, incomodar o nosso interior e comprometer o nosso status? Não vou escrever, eu prometo! Não mais escreverei. Até o vazio voltar a ser o meu companheiro insuportável. 

Alberto Magalhães

A criança em conflito familiar


A criança mais sensível tem uma falta maior de atenção e cuidados. E assim ela se torna mais carente e quando os pais, por razões diversas, não podem lhe dar o que necessita isso produz em seu ser uma sensação de abandono, que produz a mágoa. A mágoa continuada gera o ódio e a revolta. Por sentir-se “abandonada” a criança cresce achando-se sem “dono”, sem norte definido, sem um porto seguro que possa lhe prender a uma “terra” firme para construir o seu projeto de vida. A bandeira que ela carrega está sem cor definida, sem símbolo significativo a lhe prender a um sentido salutar e perene. Não há valores importantes, sagrados a serem seguidos. Tudo o que vier será válido, então.

Quando chega à adolescência, a pessoa atingida por essas experiências fica a mercê de quem lhe dá atenção e carinho, seja quem for e sejam quais forem as suas intenções (mesmo as piores para a pessoa “desprezada” pelos seus entes queridos). A “valorização” de si por pessoas estranhas ao seu grupo familiar faz aumentar a distância entre o adolescente insatisfeito e seus pais, faz piorar a impressão negativa do adolescente para com as pessoas do seu círculo familiar e o faz supervalorizar “o gostar sem impor condições” de outras pessoas, fazendo esse adolescente “apagar” todos os defeitos da índole dessas pessoas, a ignorar a má qualidade de suas naturezas. O adolescente em questão passa a personificar (a assimilar o que) as qualidades negativas dessas pessoas a fim de cada vez mais receber a sua aprovação e “amor”. O adolescente desajustado emocionalmente acha-se “insuficiente” para ser aceito e amado pelos pais e consequentemente por seus familiares. Então passa a aceitar e aprovar os desaprovados para que possa facilmente ser aceito e querido.

Ele passa então a formar uma identidade, um perfil a partir do modelo das pessoas que lhe “acolheram” tão encarecidamente, após o seu conflito familiar, que gerou o conflito interior de existência e de identidade. O adolescente que se sente infeliz e que põe a culpa nos pais sempre procura amizade com pessoas “resolvidas” nessa questão para se abrigar e a superar. Para tanto se ampara em pessoas que desprezam as regras estabelecidas pelos pais, que transgridem padrões impostos por aqueles que os fazem “sofrer”. Assim sente que anulou o conflito, contornando o sistema educacional “opressor” tomando partido contrário aos seus “inquisidores”, não deixando mais a sombra inquietante da dúvida lhes incomodar. Decide-se definitivamente pelo profano, ou melhor: pelo moderno, já que o sagrado lhe é desconhecido. Nada mais é especial. Torna-se ativo combatente prático do modelo tradicional que atualmente combate o sistema inimigo apenas na teoria, o sistema da desagregação familiar e social.

O adolescente em conflito interior procura os outros “rebeldes” porque os vê como pessoas fortes, decididas, resolvidas que estabelecem um novo modelo de relação familiar e interpessoal: o da transgressão ao que lhe incomoda e “diminui”, o do enfrentamento àqueles que o “desprezam”, que não foram capazes, pelo caminho do amor padrão, de lhes fazer felizes. O adolescente desgarrado de suas origens envereda pelo caminho do livre querer, do bel prazer e do não compromisso com o modelo que lhe “feriu”. Esse “descaminho” se torna o seu caminho para crescer, embora esse seja o caminho da dor. Não mais o da dor emocional, transitória, mas o da dor real, permanente porque evolui para o psicológico e espiritual.


Após esse adolescente trilhar uma longa jornada no caminho da transgressão, da rebeldia, do abandono de si mesmo (quando pensava tomar as rédeas do seu destino), continuará culpando os pais por todo o seu fracasso social e pessoal.

Alberto Magalhães

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A mentira - ou o transtorno da personalidade perversa


É dito, com muita propriedade, que a verdade liberta. Já a mentira aprisiona o próprio autor dela e, por vezes, a sua vítima para sempre. Também como já foi dito, a verdade quando dói, dói só uma vez e a mentira é dolorosa sempre que é revivida. Há pessoas que mentem reiteradamente porque sofrem de uma patologia chamada de personalidade perversa, caracterizada pela ausência de efetivo sentimento social e por extrema insensibilidade moral. A inteligência é usada para mascarar a sua debilidade para relações interpessoais saudáveis. O mentiroso crônico é um antropofágico social, que não come a carne humana, mas devora a reputação do outro ainda com maior prazer.

No entanto pior que o mentiroso doentio é o mentiroso estrategista, que mente pela simples, covarde e medonha intenção de atingir o outro no que ele tem de mais importante: a sua honra. O primeiro é perverso porque é doente, o segundo por opção. Este é canalha, indecente, indigno. O primeiro precisa de uma camisa de força e um internamento para ser tratado, o segundo merece a prisão perpétua. “A maledicência sem fundamento é mentira perversa” sentenciou Públio Siro. Maledicência é inverdade, calúnia, difamação. A maledicência se espalha – pela boca dos seus simpatizantes – como a peste bubônica que assolou a Europa e a Ásia no século VI.

Muitas das vezes “A verdade dói, a mentira mata e a dúvida tortura”, como falou Bob Marley. Mesmo a “boa” mentira é algo ruim, pois é um logro, um embuste, uma ilusão. O Mestre Jesus disse que “O Diabo jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é o pai da mentira.” Consta no livro Provérbios, de Salomão: “Há seis coisas que o Senhor detesta e a sétima ele abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina projetos iníquos, pés que correm para o mal, testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.”

Alberto Magalhães

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A desilusão na sociedade moderna

Já foi falado na perda da inocência da sociedade moderna. Infelizmente isso é verdade. E isso traz um resultado terrível para as pessoas. Muitas máscaras caíram, é verdade, mas também é verdade que a felicidade pessoal está mais longe de ser alcançada, que o ideal social torna-se uma utopia. E a busca da felicidade, movia os corações. Um encontro com alguém decente e um final feliz no relacionamento era o que importava. O conteúdo importava. Agora o que mais se visa é a forma. A boa índole perdeu o primeiro lugar para o desenho do corpo. A mulher, em geral, com a emancipação coletiva, esvaziou-se da autovalorização antes pleiteada e se enquadrou completamente no papel – desejado pelos homens – desenhando-se como mero objeto sensual para deleite dos machos, qual árvore de natal que se adquire como bem de consumo. A vulgaridade, o mau gosto e a artificialidade estão entronizados nas preferências e as pessoas se arrastam atrás dos superficiais. O objetivo da profissão - com a busca de identificação pessoal, perdeu lugar para a autoprojeção e valores puramente monetários. A ostentação material conquistou a todos. O 'paraiso' se faz pelo status e poder financeiro. Busca-se a realização pessoal apenas pela supremacia econômica e social.

Os princípios formadores de valores como a verdade, a honestidade, a honra, o respeito foram distorcidos. Passou-se a existir uma ciranda de troca de atitudes repreensíveis, deletérias. Aprendemos a ser como os outros, a 'dançar conforme a música'. Portanto não sou mais eu, sou o que os outros oportunizam que eu seja. Não tenho personalidade própria. Onde houver educação, serei educado. Onde não houver, não serei. Bem assim com a honestidade, a honra, o respeito. Os pais não têm mais voz ativa em nada para os filhos adolescentes. O exemplo comum é o de afrontas a princípios basilares da convivência familiar, base de construção de uma sociedade saudável. A lei anulou a primeira autoridade instituída no mundo, quando deixa de dar-lhe legítimo suporte legal para acompanhar com eficiência os atuais costumes autodestrutivos da prole. Os próprios pais perderam o rumo e a responsabilidade de mestres quando, desde cedo, ensinam aos filhos que “todos os políticos são corruptos”, que “todos os pastores são ladrões”, que “padre é pedófilo”, que “não traga desaforo para casa”, quando lança suspeitas dizendo que a vizinha é infiel ao marido por alguma dedução pessoal, que o vizinho “é um safado”, etc. Pior ainda quando se fala mal dos próprios familiares. As crianças são bombardeadas com informações negativas de todos aqueles que estão a seu redor, pintando em sua mente um quadro aterrador da sociedade que integra.

Nesse modelo atual da sociedade brasileira verificamos o aumento de separação dos casais e da violência familiar com o evento morte, dos conflitos entre pais e filhos, do maior uso de drogas e álcool, da gestação infantil, da morte violenta de adolescentes, do aumento de furtos e roubos, etc. Com a quebra de antigos paradigmas busca-se a satisfação pessoal na sensação de poder. Sobretudo no poder político, econômico, físico-sexual e no da violência. Aprendemos que as pessoas só respeitam esses atributos, não mais a nossa boa índole, a nossa conduta exemplar, os nossos princípios inegociáveis, os nossos valores altruistas. Logo nos ensinam que para entrar no time dos bem sucedidos devemos ser espertos (não de coração puro), desonestos (não generosos), agressivos (não tolerantes), ricos (não realizados profissionalmente), que devemos ser os 'importantes', os primeiros, etc. E vamos passando para os outros o que temos aprendido. Muitas vezes conseguimos superar a vários. Só não coseguimos ser os melhores como filhos, cônjuges, pais, amigos, vizinhos. Estamos aprendendo a ser mais tudo e menos gente.

Alberto Magalhães

domingo, 15 de dezembro de 2013

O marxismo materialista


O marxismo, atualmente reverenciado por uma terça parte da humanidade, predominará no mundo quando o capitalismo for rejeitado pelos povos, por ser considerado ineficiente. E vai trazer mais infelicidade. O marxismo que deu origem ao comunismo cria o domínio do proletariado em oposição a livre iniciativa/capitalismo.

Ocorre que jamais o povo dominará, seja a qual regime de governo ou sistema político estiver submetido. Sempre haverá representantes governando pelo povo causando desmandos, injustiças, desigualdades, arbitrariedades. Todo governo humano é ineficiente e coercitivo e naturalmente gera insatisfações. Alguns até já tentaram amenizar o totalitarismo implacável do marxismo com um modelo de “marxismo humanitário”, quando percebemos que a teoria original usa a histórica questão da opressão do povo pelas “elites dominantes” para, por outra vertente, oprimir a todos.

O marxismo alimenta a ilusão de que só o fator socioeconômico austero, gerido pelo Estado, tem a capacidade de restaurar o individuo, e de que a religião, a cultura, a economia vigentes são os fatores que estragam a percepção dos meios adequados para que se construa uma sociedade igualitária e justa, com todos tendo acesso a tudo o que é produzido. Nessa visão simplista de consertar o mundo, o marxismo diz que o Estado é quem deve reger de forma extremamente pragmática, num exacerbado materialismo delirante, a consciência das pessoas, porque esta é formada pelo coletivo e não ao contrário, ou seja, o homem em si mesmo é vazio, sendo influenciado apenas pelos fatores externos. E sabemos que há elementos psicológicos universais, já no bebê, “que não são adquiridos ou aprendidos” (Wikipédia) e que o pensamento humano é autônomo e criativo, inquiridor por natureza.

A verdade é que quem oprime o homem é o próprio homem (o homem é o lobo do homem – Thomas Hobbes), não os modelos políticos e econômicos precisamente, mas quem os conduz. Não se pode influenciar a alma das pessoas por meio de teorias filosóficas, políticas ou econômicas a fim de consolidar o bem. Principalmente abolindo a imagem de Deus, única fonte que permite ao homem o prazer na busca da solidariedade, fraternidade, igualdade vislumbrando o bem comum.
Alberto Magalhães

sábado, 9 de novembro de 2013

O fracasso do Estado brasileiro

Alberto Magalhães*

O Estado é o guardião da ordem pública e do bem estar social e deve providenciar tudo o que for necessário para que o cidadão tenha preservados a sua saúde física e mental, a sua vida, a sua integridade física, o seu patrimônio e a sua educação pela qual haverá o eficiente médico, o professor, o juiz, o engenheiro, o legislador... Esses são os serviços essenciais prestados pelo Estado e em seguida, o cidadão deve ter ao seu dispor transporte, água e luz. Devemos lembrar que saneamento básico consta do rol prioritário na assistência à saúde.

O que vemos diariamente no Brasil, através da mídia, é o caos no transporte público e tantas comunidades sem saneamento básico, água potável, luz elétrica, escola, posto de saúde e delegacia de polícia operante. Vemos meliantes enfrentando a Polícia (portanto, enfrentando o Estado) em guerrilhas, com fuzis e metralhadoras, invadir órgãos de segurança para soltar criminosos e se apossar de armas do Estado, executar policiais e outros agentes da autoridade estatal, contrabandear armamento de grosso calibre em grande quantidade, explodir caixas eletrônicos, estabelecer e consolidar o tráfico de drogas mais facilmente que indústrias e empresas legais conseguem se estabelecer. Também vemos um número alarmante de homicídios, roubos e menores inseridos na marginalidade.

Mas para demonstrar o fragoroso fracasso do Estado brasileiro ainda falta o fator da impunidade e de outro que falarei mais à frente. A impunidade não só é um mal que prestigia o mal original, como também gera a perigosa cultura da vantagem pessoal. Ora se outros se safam impunes eu também poderei sair impune, ou seja, eu também quero esse benefício concedido historicamente aos que tiveram acesso ao poder ou ao muito dinheiro.

A pressão social, no Brasil, ao invés de acabar com a impunidade e a corrupção alargou a abrangência destes entre os agentes públicos administrativos e políticos. No entanto os lesa-pátria estão incomodados com os baderneiros nas manifestações populares. Claro, eles não querem os holofotes apontando para a verdadeira baderna que eles fazem com as finanças públicas. Eles que negam ao cidadão mais modesto a oportunidade de ter dignidade social, sem a qual a dignidade humana fica relegada a uma simples teoria.

Já o outro fator, o ingrediente final, a cereja do chantilly do comprovado fracasso retumbante do Estado brasileiro é a propagação pelas autoridades, constituídas para promover a saúde, a segurança e a educação de que lhes faltam os recursos necessários para cumprir o seu dever, para oferecer ao cidadão os direitos essenciais que dão sentido a formação de uma sociedade civilizada, governada por um Estado democrático de direito.

O carimbo do fracasso aparece quando vemos um chefe de Estado (seja presidente ou governador) dizer que não tem recursos suficientes para a saúde e a educação. Quando vemos um gestor da pasta da saúde dizer que existe a grande demanda porque o povo adoece demais ou que está vivendo mais – porém não vive melhor, por causa exatamente da ineficiente política estatal de saúde. Quando o governo diz que no Brasil não há médicos suficientes para atender a população.

Quando vemos os chefes ou comandantes de polícia a toda hora falarem que não existem policiais suficientes para dar segurança à população, mas “vão fazer um remanejamento de policiais” para determinada área. Esses brilhantes “estadistas” vão tirar policiais de onde? Dos 2 % que estão lotados em outros órgãos? Ora a defasagem de efetivo é de 100 %, em geral. O mesmo acontece com relação a juízes e promotores. Os processos se arrastam lentamente, ora em desfavor da sociedade, nos crimes, ora em desfavor dos cidadãos, na área cível. Além do atraso doloso do Estado – leia-se, gestores mal intencionados - em cumprir com a sua responsabilidade de pagar os valores devidos.

O fracasso do Estado está anunciado quando estudiosos do Brasil informam que existem mais de 100 mil criminosos para serem presos – grande parte por vários mandados de prisão - e que em cada 100 criminosos que não são presos em flagrante apenas 20 deles são identificados, 10 são presos e só cinco cumprem pena. Estou usando dados “redondos”, aproximados. Resolvida essa demanda todo o efetivo – já defasado - do judiciário precisará crescer vertiginosamente. O fracasso do Estado está visível quando vemos faltarem celas para abrigar os que estão foragidos ou prestes a delinquir, ou mesmo suficiente para os que já estão recolhidos no sistema penitenciário.

Mas todo mundo sabe que há recursos suficientes para todos esses serviços essenciais, sabe que boa parte deles é desviado para os bolsos de gestores públicos da União, dos Estados e dos Municípios, que os recursos são gastos com as mordomias e benesses desses gestores, que os recursos são mal usados em obras superfaturadas e de má qualidade - que logo se acabam e têm que ser feitas de novo, que também servem para pagar os CCs de assessores políticos desnecessários, e em valores maiores que pagos aos CCs técnicos, e que há gasto demasiado com a propaganda política dos governos.

Quando temos conhecimento de que existe mal uso dos recursos nas casas legislativas do país e em setores do judiciário, e de que o Brasil permanece no topo da lista mundial de índices do atraso e da injustiça social, depois de tanta luta de brasileiros contra a ignorância, a pobreza e a desonestidade, na construção de uma identidade nacional digna, nos vem a impressão de que já é tarde demais para reparar as variadas mazelas impregnadas em nosso país pelo iníquo sistema político que nos rege.

*Alberto Magalhães é funcionário público do Estado de Sergipe e presidente do Centro de Estudos e Ação para o Progresso Humano e Social – CEAPHS.

 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus


O Procurador da República Jeferson Dias, lotado em Marília, interior de São Paulo, ajuizou uma ação requerendo a retirada da expressão “Deus seja louvado”, das notas do Real. A juíza federal Diana Brunstei indeferiu o pedido liminar. O Procurador, representante do Ministério Público Federal, alegou em sua pretensão que a referida expressão contida no nosso papel moeda viola os princípios da laicidade do Estado, da liberdade religiosa e o da legalidade. No entanto a expressão em questão não se reporta a uma religião, nem mesmo diretamente à religiosidade do povo, mas ao princípio (Deus) da espiritualidade inerente ao ser humano (que dá suporte à religiosidade), reconhecida pela Constituição federal ao cidadão brasileiro. A fé é algo inextinguível no homem sensível aos mistérios do espírito. Trago a lume o seguinte comentário para iniciar o meu pensamento: “Negar o sagrado, a transcendência, o anseio por Deus e a experiência religiosa, que apelam para os mais profundos mistérios da alma e estão presentes nas culturas de todos os povos e em todos os tempos é, independente de qualquer coisa, falta de cultura, sensibilidade, seriedade ou total desrespeito à pessoa humana (Bispo Edir Macedo, Jornal Folha Universal).

A lei diz que o Estado é laico, não ateu. O Estado não é religioso nem ateu, apenas laico. Ou seja; neutro, não sujeito à religião. E não oposto a esta, muito menos à espiritualidade, que tem primazia sobre ela e a quem a expressão em lide está adstrita. Se o governo eleito representa o povo exercitando o poder político, é o Estado a base desse poder. A soberania do Estado é antes de tudo a soberania do povo que o sustém. E o povo historicamente elegeu a Deus como governante mor, primeiro e maior que o Estado.

No Brasil mais de 80% da população é composta de Cristãos (católicos e evangélicos) e, ao se incluir os membros de outras religiões e não membros que se declaram crentes em Deus, esse índice alcança 95% da população brasileira (mesmo que nem todos sejam militantes ativos). Fica a pergunta: de qual pergunta o Procurador Público Jefferson está falando? A dos 5% restantes? Penso que a maior parte desse pequeno percentual da população seja de agnósticos e apenas a minoria seja de ateus. O importante é que quase a totalidade desses dois segmentos não se importa com a questão suscitada, se na nota de real há uma frase de fé ou não. A frase gravada no papel moeda tolhe a liberdade de alguém manifestar a sua religiosidade ou a sua não religiosidade? Certamente que a ilegalidade estaria na indução para que os cidadãos se tornassem membros de alguma religião ou então no sentido contrário, não em repercutir a concepção dos crentes na existência de um Ser transcendental, criador e mantenedor do universo.

Ao se afirmar que Deus existe não se atinge os sentimentos do ateu, mais fácil seria alimentar o seu ego de pessoa autorreconhecida como sendo mais racional, intelectual, evoluída. Já a afirmação de que Deus não existe – ou a tentativa de impugná-lo, como pretende o Procurador Público fere profundamente o sentimento de quem crê e vive mediante essa fé. O agnóstico e o ateu vivem para si (para o seu projeto pessoal) tendo como foco a razão e o agora. O religioso vive para a divindade (num projeto coletivo) tendo como foco a espiritualidade e o porvir. O religioso não pode ferir os não religiosos ou não espiritualistas. Apenas pode lhes acrescentar uma imarcescível esperança, já por eles pode ser atingido porque podem tolher a prática da sua fé, sua razão de existir.

Ensina-se nas escolas públicas que, segundo a teoria de Darwin, o homem é fruto da evolução da espécie, e isso se contrapõe à religiosidade, à religião e ao princípio (Deus) da espiritualidade, que é atributo separado da religiosidade, sendo a religiosidade fruto da espiritualidade. Diante da aceitação nas escolas públicas desse vasto ensinamento que se opõe à crença de 95% da população brasileira, se quer, por outro lado, cercear uma simples frase de origem criacionista no papel moeda nacional? Essas duas iniciativas tornam-se deveras desproporcionais quando se observa a forma do Estado transmiti-las e o alcance dessas oponentes mensagens: a da negação e a da afirmação da existência de um Ser divino a reger o universo. Que tudo se examine, mas que tenhamos discernimento para reter o bem.

Na quarta década da Era Cristã, Jesus de Nazaré disse a célebre frase quando lhe perguntaram se os judeus deveriam pagar tributo ao governo romano: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Quase dois mil anos depois desse acontecimento ainda estamos lutando para oferecer a Deus aquilo que lhe pertence: o louvor, mesmo que seja insculpido na moeda “de César”, esse símbolo de materialidade, individualismo, avareza... e, ao mesmo tempo, instrumento de progresso e solidariedade humana. Bom seria que nos mercados, viadutos, escolas, muros lojas, fóruns, palácios, vestes, em todos os lugares e em todas as pessoas estivesse gravada essa simples e poderosa mensagem: Deus seja louvado!


Alberto Magalhães

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Liberdade de expressão, justiça e outros temas

Sobre o direito de livre expressão

Alberto Magalhães*

Nós, brasileiros, integramos um mundo globalizado, interagimos com o que há de melhor nas sociedades organizadas cultural e politicamente. Não somos estáticos. Desde 1988 estamos acompanhando o modo dinâmico, evolutivo, democrático das melhores civilizações, que sacramentam os direitos essenciais da pessoa humana por sobre o autoritarismo histórico do Estado e acima da imunidade – e vontade - dos governantes e gestores públicos que, ao final, são meros representantes do povo. O ordenamento jurídico moderno tem diminuído consideravelmente essa imunidade legal, que tanto serviu para as reiteradas práticas de perseguições e crimes diversos, cometidos sob o indelével e doloroso manto do silêncio do povo vitimado.

O Brasil consolidou os direitos fundamentais da pessoa humana “Rompendo com o ordenamento constitucional anterior e demonstrando o surgimento jurídico de um novo Estado. A Constituição federal se fundamenta em cinco princípios: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político como fundamentos do Estado Democrático de Direito que é a República Federativa do Brasil”- Francisco de Salles Almeida Mafra Filho

Se a sociedade reprovou e sepultou a inquisição, o muro de Berlim, o apartheid, o fascismo, o nazismo, as ditaduras militares (no Brasil e mundo a fora), e até mesmo o pátrio poder extinguindo o papel do homem como o “chefe de família”, o que dizer da repressão à manifestação do pensamento quando em seu bojo não há a mentira orquestrada com o intento apenas de macular a imagem de terceiros? Deve ser assegurado por todos, em todos os segmentos sociais, a liberdade de expressão, seja na forma falada ou escrita. Poder-se-ia proibir o macaco de pular e se coçar, o passarinho de sibilar e voar, o peixe de nadar e o homem de pensar e falar (ou escrever) sobre o seu pensamento revelador e renovador, completando, assim, o seu ciclo produtivo?

Essa revelação traz à realidade o que era apenas imaginário. A fala, o pensamento externado do homem é ele propriamente revelando e afirmando a sua individualidade, é a manifestação do seu ser interior, espiritual. Impedir isso é querer anulá-lo, reduzi-lo apenas a carne e ossos. Tornando-o um escravo do Estado, não um cidadão. Quem não pensa estagna e não evolui. E esse foi, por muito tempo, o instrumento de subjugação das massas pelos tiranos. A expressão emergida do pensar livre é de tal forma forte e realizadora que se sofreu, se morreu e se matou por ela. A expressão ideológica é a fonte da resistência à opressão. Essa tese encontra sua força na antítese da intolerância e se consolida como síntese redentora para a luta libertária, que em sua última expressão é a luta pela igualdade incondicional. Quanto maior for a repressão, maior será a resistência a ela.

A sociedade moderna tem rejeitado o arbítrio, o autoritarismo e tem legitimado os mecanismos de libertação do cidadão do jugo estatal danosamente repressivo a livre expressão do ser humano, com sua carga ideológica. A sociedade moderna vedou a repressão e a censura à manifestação de pensamento e de opinião, sendo contrária a qualquer forma de cerceamento da expressão em todos os segmentos da sociedade. Não se exclui nessa finalidade as instituições públicas civis ou militares. Ao contrário, o Estado como curador mor da defesa ampla e irrestrita de todos os direitos legítimos da pessoa humana sob o seu alcance, deve ser o primeiro a respeitar, fomentar e estabelecer o efetivo Estado democrático de direito.

Para se comprovar o fortalecimento da cidadania do brasileiro, nestes tempos, basta se observar a promulgação da Constituição cidadã de 1988, o fortalecimento do Ministério Público, a criação do Habeas Data, dos estatutos do idoso e do menor, da lei “Maria da Penha”, da “ficha limpa”, a criação da lei que tipifica o crime de tortura, praticado pelos agentes do Estado, notadamente, e do crime de assédio moral praticado pelos superiores funcionais. Ora o superior hierárquico tem o dever de ser superior – ao menos igual - ao subordinado, em correção na sua conduta e ser um exemplo de democrata para todos. Não se deve retroceder.

Alberto Magalhães

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Justiça, o que é?

Há pessoas que parecem usar a sabedoria para adornar a sua inteligência, parecem ter a capacidade de administrar (com seu julgamento) questões de forma coerente e moderadora (considerada satisfatória para uma parte e razoável para a outra) ao menos diante do que se lhe apresenta como matéria para análise e posicionamento.

Muitas vezes o que há por trás ou nas entrelinhas e algumas questões são mistérios intocáveis pelo direito teórico e formal, que serve como instrumento ao intelecto do julgador. Há pessoa que deixam essa boa impressão ao discorrer sobre matéria submetida ao crivo do seu entendimento na sentença proferida.

Isso faz com que a parte oprimida se sinta sendo notada de verdade e sendo respeitada a sua fala, com a credibilidade que ela merece, que a de todo mundo merece como escreveu Voltaire, ainda que a nossa opinião seja contrária. Quando a nossa fala é ouvida (não a de outro que nos representa), mesmo que desenhada de forma simbólica no papel e ainda que, a meu ver, a justiça não tenha sido plenamente alcançada porque ela seja, talvez, um espectro da consciência, uma idealização surgida de um sentimento, não algo que se possa alcançar plenamente.

Porque nunca sacia completamente quem a busca. Justiça é algo intangível, desafiada pela realidade existente a se concretizar de forma profícua. Não existe “ato de justiça” que anule a injustiça feita e os efeitos consequentes. Ela já foi sentida e vivenciada. Nada volta no tempo para antes do mal haver sido feito. O direito perdido está perdido nas entranhas do tempo que passou. Outro será dado, não mais aquele que se foi.

A injustiça é uma flecha lançada no espaço, que os membros do judiciário tentarão alcançar para reter os seus efeitos e anular a sua gênese. Na verdade, só conseguirá minorá-la. Não reverterá o que aconteceu. Mas transformará, a partir da decisão cumprida em favor da vítima, a injustiça reinante com um ato de justiça. Não devolverá ao autor o ato de injustiça que ele praticou ao lhe tomar o bem que ele, de outrem, se apropriou e o devolvendo ao seu legítimo proprietário, a não ser que permita ao injustiçado que também lhe tome um bem que seja de sua propriedade legítima.

Ainda assim haveria uma sucessão de injustiças, entremeado com um ato de coerção jurisdicional, não a consumação da lídima justiça, o que seria, em verdade, o não se apropriar do que é de outrem. Inclusive dos bens abstratos como o sossego e a paz.

O sistema estatal que trata do direito e da justiça na terra, apenas é um reflexo pálido do celeste. Uma sombra do ser real. A Justiça é um atributo irrevogável de Deus. Embora o Poder Judiciário alimente a expectativa dela, traga a esperança dela ser restabelecida quando os homens integrantes das elites política e econômica estiverem sob o seu completo alcance, sob o inteiro domínio da autoridade do Estado – inclusive os próprios membros do judiciário.

Quando não houver nenhuma promiscuidade entre os integrantes dos poderes constituídos e os detentores do poder econômico (o 4º poder) para distorcer o direito e perverter a justiça. Enquanto houver um evento desses, muitos hão de querer ingerir nas causas sub judice. Quando houver verdadeira igualdade entre todos – desde as iniciais apurações – nas demandas suscitadas com sua consequente e justa sentença, ainda não haverá como já foi dito, a lídima justiça na sua essência, mas ao menos na sua forma, na administração que se busca para ela no contexto social.

Os legisladores criam as leis que concedem os nossos direitos e impõem que os nossos direitos sejam cumpridos e o Estado tenta pôr ordem em meio a tendência natural ao caos social, em virtude da ação humana danosa ao outro (disse que o homem é o lobo do homem). Mas é o judiciário quando funciona bem e corretamente que desestimula as práticas arbitrárias do cidadão contra outro, em grupo ou só, representando o Estado ou a si mesmo.

Eu venero o direito da pessoa humana se expressar porque Deus criou o mundo pela Sua palavra e pela palavra nós nos manifestamos melhor sobre tudo o que importa. Os gestos são insuficientes para que possamos informar, requerer, dialogar, nominar e se revelar.

Por isso transcrevo aqui, para a nossa reflexão, esta frase com sua implícita sabedoria: “Só ouve direito quem se liberta dos preconceitos; e só se liberta dos preconceitos quem é capaz de restituir a palavra ao silenciado” (Frei Antônio Moser).

Um exemplo emblemático nessa questão da importância da palavra foi o do ex-presidente africano Nelson Mandela que teve que passar quase toda a sua vida na prisão (tornado, assim, um mártir) por causa de sua palavra libertária e transformadora, punido com a força maligna da intolerância humana. Na terra a justiça é, talvez, o sonho mais bonito e utópico daqueles que amam o bem.

Alberto Magalhães

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Ministério Público

No Ministério Público vislumbrei a conduta complacente de alguns dos seus membros com os que têm acesso aos gabinetes do poder e tão severo com as pessoas do povo. Que se portam como santos, virtuosos, separados da sociedade profana. Implacáveis com os infratores da lei que não estão sob a proteção das instituições fortes, como fariseus do ocidente decadente ética e moralmente.

Por outro lado ouvi dizer que quando acertamos apenas cumprimos o nosso dever. Espero que os homens coerentes que labutam no MP não se ofendam com as minhas colocações, mas sintam-se honrados por sempre haverem praticado procedimentos contrários ao que me refiro aqui.

Denunciar qualquer pessoa que esteja sob alguma suspeita é ofício da cada promotor público, já denunciar os privilegiados, os amparados pelo poder secular é dever ainda mais justo e notável do MP. Para que seja provado que eles são inocentes ou culpados. Então que glória há em ser rigoroso só para os fracos e oprimidos socialmente? O açoite para tantos e o bálsamo para os privilegiados social e politicamente?

Mas o império deve ser da lei. Sempre devem ser repreendidos os desvios de conduta dos detentores de poder a fim de que essas atitudes não prosperem para o crime mais ofensivo à sociedade. Principalmente ao se usar para o crime os recursos e instrumentos estatais disponíveis à esse ofensor.

O promotor e o procurador de justiça (representando o MP) são o meio, de suma importância, essencial ao exercício da justiça, para que o judiciário julgue as causas da sociedade constituída pelo Estado de direito. De tamanha importância que não pode se omitir de desempenhar o seu papel, como faz por vezes a fim de se resolver a questão da peça que incomoda o acusado influente, dando-lhe um carimbo de arquivado. Encerrando-se a busca pela verdade fatual.

A questão que se impõe já não é do abuso de poder ou de desonestidade do detentor de um cargo público, da omissão de representante do MP, da morosidade do judiciário, do direito, ou da justiça. É principalmente a busca da verdade. Da verdade que traz luz ao entendimento. Sou cristão e creio que Deus é a verdade soberana e sempiterna, sem a qual a vida não teria sentido. E nós, humanos, nos espelhamos na verdade que emana d’Ele.

A coragem, esperança e luta dos cidadãos comuns, dos políticos, dos juristas, das autoridades constituídas que, em todas as épocas, com sofrimento empreenderam as conquistas legais que hoje dispomos, é jogada no ralo quando atitudes equivocadas e injustas como essa acontecem.

*Alberto Magalhães é poeta, jornalista, funcionário público e autor deste blog.

domingo, 29 de janeiro de 2012

As Polícias Militares: diante do espelho

*Fábio Lemos Lopes

Demorou, mas chegaram os ventos das mudanças entre nós. São patentes como as instituições policiais militares foram e têm sido utilizadas pelas várias formas de poder ao longo do tempo; desde os donatários do Brasil colônia, quando esta força ainda não se fazia perfeitamente estruturada, e, logo em seguida, pelo coronelismo e outrem. A polícia militar foi criada justa a partir de uma confusão entre o público e o privado; por último foi cooptada pelas forças armadas (diga-se golpe militar de 1964). As agências de segurança nesse período foram permeadas pela persistente “doutrina de segurança nacional”, que prega o combate aos inimigos fora dos muros dos quartéis, afastando as instituições de polícias militares ainda mais do povo.
Com a redemocratização do país, para as policias militares coube o papel de administração da pobreza.

Mesmo com o advento da Constituição Cidadã de 1988, era necessário conter as massas de excluídos que cobravam participação nos bens de consumo do mundo capitalista; cabendo às polícias militares quase sempre o papel de preservarem e reforçarem os privilégios das elites; daí, torna-se fácil percebermos que “embaixo de toda coroa existe uma cabeça”. Ao mesmo tempo em que a força policial militar é utilizada para reprimir os movimentos sociais, os seus integrantes também eram reprimidos dentro do intransponível muro dos quartéis. Acreditavam-se, nos idos dos tempos, não haver espaço de manobra para quem havia escolhido essa carreira; o seu ainda arcaico regulamento/regramento “aponta a todo tempo para o militar como se fosse o dedo de Deus”; na caserna “ordem dada é ordem cumprida”; o enquadramento do policial militar não lhe deixa lutar pelos seus direitos, convertendo-o em um não-cidadão.

Avaliamos que o militarismo reproduzido por muito tempo nas escolas de formação policial militar era o principal responsável por essa adequação de postura opressora; o baixo grau de escolaridade dos seus outrora integrantes não lhes permitia enxergar por trás da cortina de fumaça que envolve o nosso tecido social; pouco crédito era dado a essa profissão, até que os espaços públicos começaram a ser segregados pelo fenômeno da violência. Viram-se, portanto, comunidades inteiras reféns da criminalidade; o que alçou a polícia militar aos vários olhares da sociedade, inclusive ao seu próprio espelho. Sendo por muitas vezes a primeira instituição a chegar aos grotões do nosso país, em dado momento em que não se tinha quase nenhum serviço básico, lá estava à face fardada do Estado, para administrar todo tipo de problema de ordem social, e não só os de segurança pública. De tal modo, absorvendo quase sempre a hostilidade dos despossuídos, e sendo humilhada quando tentava aplicar a lei à classe burguesa.

Mas as cobranças sociais, aliadas às novas levas de policiais militares com nível de instrução elevado fizeram soprar os ventos das mudanças dentro dos muros dos quartéis. Vários projetos pedagógicos foram simultaneamente aplicados, no sentido de reconstruir uma nova identidade para os profissionais da segurança pública, agora se pautando no respeito aos direitos humanos e elegendo as polícias a serem guardiãs desse mesmo direito; assim trazendo o policial a uma nova reflexão acerca dos seus deveres e também dos seus direitos.

A possibilidade de associaçaão prevista na Constituição Federal de 1988 nos possibilitou reivindicar direitos básicos inerentes a qualquer cidadaão; as poucas armas que o Estado democrático de direito nos deu estão sendo utilizadas com pertinência, o que muito certamente contraria os interesses de quem sempre usou as instituições policiais militares ao seu bel prazer. Nessa dimensão evolutiva, os PM’s por certo não enxergam mais no espelho o reflexo dos seus superiores hierárquicos, como dita o jargão nos ambientes dos quartéis que o comandante é o espelho da tropa. Ora, o que o policial militar vê refletido no espelho é a sua própria imagem enquanto sujeito da sua própria ação. O farol está apontando para a direção das mudanças; apesar de não podermos aproximar demais o fogo do estopim, pois não sabemos o quanto de pólvora existe no barril. É verdadeiro que as instituições demandam tempo para suas mudanças necessárias, todavia não é ilegítimo que nessa perspectiva a PM/SE nunca mais será a mesma. A história irá já se encarregar de analisar as digitais dos que fomentaram essas mudanças.

*fabiolemoslopes@hotmail.com policial militar, bacharel em gestão pública, especialista em violência, criminalidade e políticas públicas e acadêmicas de direito.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dois pesos e duas medidas

Justiça condena acusada de matar namorado por ciúme

Fonte: Tribunal de Justiça de São Paulo

O 5º Tribunal do Júri condenou a auxiliar de limpeza M.A.S. a quatro anos de reclusão, em regime aberto, pela prática de homicídio contra R.R. O crime aconteceu no dia 20 de janeiro de 2008, na Rua Turiassu, Perdizes, Zona Oeste da capital.

Segundo a denúncia, a acusada e o ofendido mantinham um relacionamento amoroso e nutriam um sentimento de ciúme recíproco, o que fazia com que recorrentemente entrassem em discussão. No dia dos fatos, movida pelo ciúme, a acusada apoderou-se de uma faca e atingiu o namorado com golpes que foram a causa efetiva de sua morte.

No julgamento ocorrido ontem (28), o Conselho de Sentença reconheceu a materialidade do delito, afastou a qualificadora de motivo fútil (ciúme) e considerou que a ré cometeu o crime sob o domínio de violenta emoção, após injusta provocação da vítima (homicídio privilegiado).

Em sua decisão condenatória, a juíza Roseleine Belver dos Santos concedeu a M.A.S. o direito de apelar em liberdade, pois não vislumbrou a presença dos requisitos da prisão cautelar.

Site TJ/SE, Quarta - feira, 30 de Novembro de 2011.

COMENTÁRIO DO BLOG: Quando se trata de homem autor de crime passional, acertadamente os tribunais do júri têm condenado à pena mínima de seis anos, às vezes com circunstâncias agravantes que aumentam a pena, quando não condenam por homicídio qualificado. Não se aceitando a tese de violenta emoção. Já quando é a mulher quem tira a vida do companheiro o que tem ocorrido é “passarem a mão na cabeça delas” que historicamente foram oprimidas e/ou agredidas pelos seus companheiros. Isso é justiça? Acham que a violenta emoção é inerente ao homem e, portanto injustificável como tese de defesa e na mulher ela é induzida, por isso justificada? Não entendo direito essa desigualdade de decisões. Não se promove a justiça com dois pesos e duas medidas.

Alberto Magalhães

terça-feira, 8 de novembro de 2011

História de quinze séculos

Desmantelado o Império, as igrejas disseminadas pelo território tornaram-se os sucedâneos da esfrangalhada administração romana. Na confusão geral, enquanto as formas de uma nova época mal se deixavam vislumbrar entre as névoas do provisório, os padres tornaram-se cartorários, ouvidores e alcaides. As sementes da futura aristocracia européia germinaram no campo de batalha, na luta contra o invasor bárbaro. Em cada vila e paróquia, os líderes comunitários que se destacaram no esforço de defesa foram premiados pelo povo com terras, animais e moedas, pela Igreja com títulos de nobreza e a unção legitimadora da sua autoridade. Tornaram-se grandes fazendeiros, e condes, e duques, e príncipes, e reis.

A propriedade agrária não foi nunca o fundamento nem a origem, mas o fruto do seu poder. Poder militar. Poder de uma casta feroz e altiva, enriquecida pela espada e não pelo arado, ciosa de não se misturar às outras, de não se dedicar, portanto nem ao cultivo da inteligência, bom somente para padres e mulheres, nem ao da terra, incumbência de servos e arrendatários, nem ao dos negócios, ocupação de burgueses e judeus.

Durante mais de um milênio governou a Europa pela força das armas, apoiada no tripé da legitimação eclesiástica e cultural, da obediência popular traduzida em trabalho e impostos, do suporte financeiro obtido ou extorquido aos comerciantes e banqueiros nas horas de crise e guerra.

Sua ascensão culmina e seu declínio começa respectivamente com a fundação das monarquias absolutistas e o advento do Estado nacional. Culmina porque essas novas formações encarnam o poder da casta guerreira em estado puro, fonte de si mesmo por delegação direta de Deus, sem a intermediação do sacerdócio, reduzido à condição subalterna de cúmplice forçado e recalcitrante. Mas já é o começo do declínio, porque o monarca absoluto, vindo da aristocracia, dela se destaca e tem de buscar contra ela -- e contra a Igreja -- o apoio do Terceiro Estado, o qual com isso acaba por tornar-se força política independente, capaz de intimidar juntos o rei, o clero e a nobreza.

Se o sistema medieval havia durado dez séculos, o absolutismo não durou mais de três. Menos ainda durará o reinado da burguesia liberal. Um século de liberdade econômica e política é suficiente para tornar alguns capitalistas tão formidavelmente ricos que eles já não querem submeter-se às veleidades do mercado que os enriqueceu. Querem controlá-lo, e os instrumentos para isso são três: o domínio do Estado, para a implantação das políticas estatistas necessárias à eternização do oligopólio; o estímulo aos movimentos socialistas e comunistas que invariavelmente favorecem o crescimento do poder estatal; e a arregimentação de um exército de intelectuais que preparem a opinião pública para dizer adeus às liberdades burguesas e entrar alegremente num mundo de repressão onipresente e obsediante (estendendo-se até aos últimos detalhes da vida privada e da linguagem cotidiana), apresentado como um paraíso adornado ao mesmo tempo com a abundância do capitalismo e a “justiça social” do comunismo. Nesse novo mundo, a liberdade econômica indispensável ao funcionamento do sistema é preservada na estrita medida necessária para que possa subsidiar a extinção da liberdade nos domínios político, social, moral, educacional, cultural e religioso.

Com isso, os megacapitalistas mudam a base mesma do seu poder. Já não se apóiam na riqueza enquanto tal, mas no controle do processo político-social. Controle que, libertando-os da exposição aventurosa às flutuações do mercado, faz deles um poder dinástico durável, uma neo-aristocracia capaz de atravessar incólume as variações da fortuna e a sucessão das gerações, abrigada no castelo-forte do Estado e dos organismos internacionais. Já não são megacapitalistas: são metacapitalistas – a classe que transcendeu o capitalismo e o transformou no único socialismo que algum dia existiu ou existirá: o socialismo dos grão-senhores e dos engenheiros sociais a seu serviço.

Essa nova aristocracia não nasce, como a anterior, do heroísmo militar premiado pelo povo e abençoado pela Igreja. Nasce da premeditação maquiavélica fundada no interesse próprio e, através de um clero postiço de intelectuais subsidiados, se abençoa a si mesma.

Resta saber que tipo de sociedade essa aristocracia auto-inventada poderá criar – e quanto tempo uma estrutura tão obviamente baseada na mentira poderá durar.

Olavo de Carvalho

domingo, 18 de setembro de 2011

A mediação promissora

A proposta da mediação de conflitos é antes de tudo uma proposta pedagógica. Um novo paradigma na intermediação de conflitos. Ela apresenta um procedimento informal ou menos formal, descentralizado. Visa descaracterizar qualquer exercício de poder sobre o outro. O ponto central da audiência deixa de ser as questões alegadas desencadeadoras do conflito, ou seja: uma atitude ou uma omissão, um prejuízo material ou imaterial causado, os interesses contrariados, as diferenças conflitantes.

A figura central desse encontro interpessoal também não é o dirigente da audiência. O ponto central da mediação passa a ser as pessoas envolvidas no conflito a ser tratado. Ou melhor, essas pessoas é que vão ser naturalmente induzidas a se deixarem ser trabalhadas, tratadas como fator essencial no entendimento do conflito, com o intuito delas descobrirem por si mesmas a verdadeira origem, as razões reais de haver sido deflagrado o conflito, chegando à conclusão final das inclinações pessoais que possam possibilitar a geração de determinados conflitos. Visa desfazer as sentenças unilaterais e os sofismas embutidos, restabelecendo a dignidade humana dos litigantes.

Como descreve o ilustre professor Juan Carlos Vezzulla, a mediação não opera de forma impositiva, assistencial ou punitiva, antes o seu modelo de interação subsiste na forma participativa, dialética, cooperativa. Fugindo da superficialidade formal. Dessa maneira visa o esclarecimento, de forma aprofundada, dos conflitos mútuos que gera o conflito central, se propondo a ser o canal restaurador do diálogo, da capacidade das pessoas exporem, de forma proficiente, suas limitações e expectativas, juntas construindo o caminho para a resolução pacífica do litígio. Evitando assim o agravamento e a “judicialização” do conflito.

Alberto Magallhães

domingo, 21 de agosto de 2011

A velocidade da luz


A maior velocidade da luz é atingida enquanto ela se propaga no vácuo: 299.790 quilômetros por segundo. Em qualquer outro meio a velocidade será menor. No ar, a diferença é pequena, mas a velocidade diminui bastante quando a luz passa, por exemplo, para a água ou o vidro. Isso acontece porque a luz interage com a matéria, ou seja, perturba os elétrons que formam suas moléculas. Essa interação pode ser de vários tipos. Um dos mais comuns é o efeito fotoelétrico – quando arranca elétrons dos átomos. A luz pode ainda energizar o elétron e fazer com que ele mude de lugar dentro do átomo.

O ‘corpo a corpo’ da luz com os átomos diminui a sua velocidade, que varia para cada uma das cores. A luz amarela, por exemplo, caminha a 299.700 quilômetros por segundo no ar, 224.242 na água e 197.607 no vidro. Fica mais fácil entender se compararmos o ar com uma quadra de futebol de salão e o outro meio com a grama que o rodeia, a bola tem certa velocidade no campo que é liso e provoca menos atrito. Ao passar para a grama, a bola rola mais devagar.

 
Autor: Cláudio Furukawa, físico da Universidade de São Paulo.
Fonte: Revista superinteressante on line.)

"A maior velocidade da luz é atingida enquanto ela se propaga no vácuo" e diminui quando perpassa elementos. É assim com a gente nos embates da vida. Atrasamos nosso progresso. Vezes por ser inevitável, vezes não.*

 
(*frase adaptada por Alberto Magalhães)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Mas afinal, o que querem as mulheres?

Excluídas as distinções anatômicas, homens e mulheres são iguais? Passamos a maior parte dos anos 60 e 70 tentando nos convencer de que sim. Nessas duas décadas, vigorou o paradigma segundo o qual todas as diferenças comportamentais entre os sexos eram fruto da educação. 

A mais célebre vítima da teoria da neutralidade dos gêneros foi David Reimer. Ele nasceu em 1965 como um garoto saudável. Mas, depois que teve seu pênis destruído numa canhestra operação para corrigir uma fimose, seus pais procuraram o então papa dos estudos sobre sexualidade, John Money, do Hospital Johns Hopkins, que os convenceu de que o que de melhor poderiam fazer pelo menino era submetê-lo a uma cirurgia para extração dos testículos e educá-lo como mulher. Foi um desastre. Apesar dos estímulos sociais e das injeções de hormônios femininos, ele jamais se sentiu como uma garota. Era frequentemente importunado por seus colegas de escola, em Winnipeg (Canadá). Aos 13, já sofria de depressão severa, com ideações suicidas. Aos 14, depois que seus pais lhe revelaram sua verdadeira história, ele decidiu viver como homem. Trocou os hormônios femininos por masculinos e fez uma mastectomia (retirada dos seios) e uma faloplastia (construção de pênis). Casou-se. Mas a depressão nunca o abandonou. Suicidou-se em 2004. 

O caso só ficou conhecido porque, em 1977, o sexologista Milton Diamond o convenceu a tornar pública sua história, para evitar que outras crianças fossem submetidas ao mesmo tratamento. Os detalhes estão no livro "As Nature Made Him: The Boy Who Was Raised as a Girl" (como a natureza o fez: o menino que foi criado como menina).

Pela teoria da neutralidade, meninos brincam com carrinhos e armas e meninas optam por bonecas apenas porque são estimulados por seus pais a fazê-lo. Hoje, sabemos que essas preferências são inatas e têm base biológica. Uma elegante prova disso é que chimpanzés selvagens machos também gostam de brincar com paus como se fossem clavas, já as fêmeas carregam os mesmos pedaços de pau para cima e para baixo como se fossem filhotes. 

E a coisa vai muito além das escolhas de brinquedos. Após algumas décadas de pesquisas mais acuradas que as de Money, acumulam-se evidências de que as diferenças de gênero afetam também a cognição, as preferências e a própria noção de propósito da vida. Isso, evidentemente, tem implicações profundas sobre a educação, o mercado de trabalho --e o feminismo. 

Parte da dificuldade está no tabu que ainda cerca o tema, mesmo nos meios acadêmicos. Vale lembrar que uma das razões para a demissão de Larry Summers da reitoria de Harvard, em 2006, foi ele ter sugerido que o baixo número de mulheres em certos ramos da ciência poderia dever-se a diferenças naturais entre os sexos.
Mas, gostemos ou não, hoje sabemos que os níveis de exposição pré-natal a hormônios sexuais afetam a forma como o cérebro de meninos e meninas se organiza. Algumas características tipicamente masculinas relevantes para a educação são a propensão a correr riscos, que abarca a agressividade e o gosto pela competição, e a facilidade para relacionar-se com objetos e sistemas. Já as meninas se destacam pela maior disciplina e a capacidade de empatia, que inclui o forte interesse por pessoas. 

Nesses casos, as diferenças são marcantes. Pesquisa com crianças entre 10 e 23 meses mostrou que meninos contam histórias agressivas 87% do tempo, contra 17% de meninas. Entre 9 e 10 anos, garotos passam 50% de seu tempo livre em brincadeiras competitivas, contra apenas 1% das garotas.
Vale aqui o alerta de que esses achados são apenas médias, as quais dizem muito pouco a respeito de indivíduos reais. Lembre-se de que, na média, a humanidade tem um testículo e um seio.
Na educação, os números não dão margem a dúvida: os garotos estão perdendo feio para as garotas na performance educacional. 

Hoje, nos EUA, meninos têm três vezes mais probabilidade do que meninas de precisar de aulas de recuperação e duas vezes mais de ser reprovados. A chance de eles abandonarem a escola é 30% maior.
Em 30 países avaliados pela OCDE, as meninas se saem muito melhor do que os meninos em leitura e escrita, e já os alcançam em matemática, área em que eles lideravam incontestavelmente até o início dos anos 80. 

Em todos os países do mundo, exceto a África subsaariana, há mais mulheres que homens cursando a educação superior. Nos EUA, correm rumores, nunca admitidos oficialmente, de que as principais universidades facilitam a entrada de homens, para que a proporção de alunas não exceda 60%.
Nos últimos anos, surgiram vários livros explorando as diferenças entre gêneros e propondo soluções mais ou menos milagrosas para resolver o que identifiquem como "o problema". 

Um bom exemplar é "Why Gender Matters" (por que o gênero importa), do médico Leonard Sax, no qual o autor faz uma defesa entusiasmada da separação por sexo nas escolas. Não desenvolvo muito o tema porque ele foi objeto de um texto que escrevi algumas semanas atrás para a edição impressa da Folha. O que tenho a dizer é que, embora o título traga alguns "insights" interessantes, ele incorre no grave pecado de ser uma obra militante. Sax, que segue a agenda conservadora, não hesita muito antes de exagerar no peso das evidências científicas, desde que isso sustente sua tese. 
Bem mais equilibrado é "The Sexual Paradox" (o paradoxo sexual), da psicóloga Susan Pinker. Para ela, o sexo masculino é mais extremo do que o feminino. Isso se materializa na maior proporção tanto de gênios como de retardados entre os homens. Eles também têm (na média) um leque menor de interesses, aos quais se dedicam de corpo e alma. Em seu grau superlativo, a mente masculina seria a de um autista.
Já elas são menos extremas e mais empáticas. Embora Pinker não o afirme, outros autores propõem que o superlativo da mente feminina seja a esquizofrenia. É o excesso de empatia que leva uma pessoa a conversar de igual para igual com uma geladeira. 

Embora não tenham sido detectadas diferenças cognitivas que as tornem menos proficientes em ciências e matemáticas, elas quando podem preferem abraçar profissões que lidem com pessoas (em oposição a objetos e sistemas). É por isso que hoje quase dominam as carreiras médicas, enquanto permanecem minoritárias na engenharia e na física, para não mencionar as oficinas mecânicas.
Ainda mais interessante, nos países hiperdesenvolvidos, onde elas gozam de maior liberdade para escolher, esse "gap" é maior do que nas nações em desenvolvimento, onde elas são muitas vezes obrigadas a exercer ofícios que não são os de seus sonhos. É isso que explica uma proporção maior de engenheiras na Turquia e na Bulgária do que na Dinamarca e na Suécia. Só quem chegou perto do 50-50 foi a extinta União Soviética, e isso porque lá eram as profissões que escolhiam as pessoas e não o contrário.

Além disso, por operarem com múltiplos interesses, as mulheres não se prendem tanto à carreira. Trocam sem muita hesitação uma posição de comando para ficar mais tempo com a família. Essa é uma das razões por que muitas mulheres sacrificam trajetórias promissoras --e a perspectiva de chegar ao comando de empresas-- em favor de horários mais flexíveis. É esse desejo, mais do que a discriminação que explica a persistente diferença salarial entre homens e mulheres, pelo menos nos países desenvolvidos, onde já não se registram casos muito acintosos de preconceito. 

Para Pinker, as mulheres seriam mais felizes se reconhecessem as diferenças biológicas entre os gêneros e parassem de tentar imitar os homens, buscando sem culpa o que realmente querem. É isso que ela propõe como o novo feminismo.

Hélio Schwartsman – Folha.com

domingo, 1 de maio de 2011

A Evolução do Conceito de Inteligência

Durante grande parte dos séculos 19 e 20, acreditou-se que a inteligência era algo podia ser facilmente medida, determinada e comparada através de testes, como o famoso teste de QI, por exemplo, que dava a inteligência da pessoa em números. No entanto, com o tempo, o teste de QI foi caindo em descrédito, pois pouco a pouco foi se notando que nem sempre as pessoas mais inteligentes e bem sucedidas obteriam os melhores resultados.
Os psicólogos e pesquisadores começaram a notar que havia alguns casos de pessoas que obtinham resultados medíocres nos testes de QI, mas que se davam bem na vida, pois eram pessoas determinadas, disciplinadas, persistentes e carismáticas. Mas como pessoas consideradas “burras” pelo teste de QI poderiam ter tanto sucesso?
A resposta é simples: existem vários tipos de inteligência!!
Segundo Howard Gardner, psicólogo autor desta teoria, existem ao todo 7 tipos de inteligência e todas as pessoas tem um pouco das 7 combinados dentro de si. No entanto cada pessoa tem um deles desenvolvido de modo mais forte e que se sobrepõe sobre os outros.

Os 7 Tipos de Inteligência
Os 7 tipos de inteligência identificados no trabalho de Howard Gardner são:
Inteligência Lingüística
As pessoas que possuem este tipo de inteligência têm grande facilidade de se expressar tanto oralmente quanto na forma escrita. Ela além de terem uma grande expressividade também tem um alto grau de atenção e uma alta sensibilidade para entender pontos de vista alheios. É uma inteligência fortemente relacionada ao lado esquerdo do cérebro é uma das inteligências mais comuns.
Inteligência Lógica
Pessoa com esse perfil de inteligência tem uma alta capacidade de memória e um grande talento para lidar com matemática e lógica em geral. Elas têm facilidade para encontrar solução de problemas complexos, tendo a capacidade de dividir estes problemas em problemas menores e ir os resolvendo até chegar à resposta final. São pessoas organizadas e disciplinadas. É uma inteligência fortemente relacionada ao lado direito do cérebro.
Inteligência Motora      
Pessoas com este tipo de inteligência possuem um grande talento em expressão corporal e tem uma noção espantosa de espaço, distancia e profundidade. Tem um controle sobre o corpo maior que o normal, sendo capazes de realizar movimentos complexos, graciosos ou então fortes com enorme precisão e facilidade. É uma inteligência relacionada ao cerebelo que é a porção do cérebro que controla os movimentos voluntários do corpo. Presente em esportistas olímpicos e de alta performance. É um dos tipos de inteligência diretamente relacionado a coordenação e capacidade motora.
Inteligência Espacial
Pessoas com este perfil de inteligência têm uma enorme facilidade para criar, imaginar e desenhar imagens 2D e 3D. Elas têm uma grande capacidade de criação em geral, mas principalmente tem um enorme talento para a arte gráfica. Pessoas com este perfil de inteligência têm como principais características a criatividade e a sensibilidade, sendo capazes de imaginar, criar e enxergar coisas que quem não tem este tipo de inteligência desenvolvido, em geral, não consegue.
Inteligência Musical
É um dos tipos raros de inteligência. Pessoa com este perfil tem uma grande facilidade para escutar músicas ou sons em geral e identificar diferentes padrões e notas musicais. Eles conseguem ouvir e processar sons além do que a maioria das pessoas consegue, sendo capazes também de criar novas músicas e harmonias inéditas. Pessoas com este perfil é como se conseguissem “enxergar” através dos sons. Algumas pessoas têm esta inteligência tão evoluída que são capazes de aprender a tocar instrumentos musicais sozinhas. Assim como a inteligência espacial, este é um dos tipos de inteligência fortemente relacionados a criatividade.
Inteligência Interpessoal
Inteligência interpessoal é um tipo de inteligência ligada a capacidade natural de liderança. Pessoas com este perfil de inteligência são extremamente ativas e em geral causam uma grande admiração nas outras pessoas. São os lideres práticos, aqueles que chamam a responsabilidade para si. Eles são calmos, diretos e tem uma enorme capacidade para convencer as pessoas a fazer tudo o que ele achar conveniente. São capazes também de identificar as qualidades das pessoas e extrair o melhor delas organizando equipes e coordenando trabalho em conjunto.
Inteligência Intrapessoal
É um tipo raro de inteligência, também relacionado à liderança. Quem desenvolve a inteligência interpessoal tem uma enorme facilidade em entender o que as pessoas pensam, sentem e desejam. Ao contrário dos lideres interpessoais que são ativos, os lideres intrapessoais são mais reservados, exercendo a liderança de um modo mais indireto, através do carisma e influenciando as pessoas através de idéias e não de ações. Entre os tipos de inteligência, este é considerado o mais raro.

As Inteligências Predominantes:
Porcentagem das pessoas em que cada tipo de inteligência predomina:
Inteligência Linguistica *
29 %
Inteligência Lógica *
29 %
Inteligência Motora
16 %
Inteligência Espacial
14 %
Inteligência Musical
6 %
Inteligência Interpessoal
4 %
Inteligência Intrapessoal
2 %
*: são as chamadas Inteligências Clássicas, as inteligências que aparecem no teste de QI