sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Mensagem para Teófilo (sobre um júri popular e um veemente Promotor)



Teófilo, da última vez em que nos vimos tu, pausadamente, disseste-me citando Sêneca: “Somos todos perversos, o que um reprova no outro ele o achará em seu próprio peito.” E discorrestes sobre a fragilidade do homem no seu aspecto moral. No seu discurso havia o sentimento de pesar pela comovente condição humana. Em sua pungente oração, referindo-se aos que se julgam superiores no afã de infringir desmedida penitência a quem lhe está à mercê, disseste-me: “A árvore quando está sendo cortada observa, com tristeza, que o cabo do machado é de madeira.”

Alguns dias depois da tua visita no meu cárcere. Tive a oportunidade de visualizar uma arena jurídica onde tese e antítese digladiavam-se. E era necessário. Uma parte evocava uma vida que se perdera e a outra parte uma vida que se perdia, momento em que absorveu a outra. É desse embate jurídico – quando leal – que se compõe a síntese, que nutre o Estado de direito, alma sublime da democracia.

Lá, fascinei-me com a performance de um homem de leis do qual o seu mestre, amigo Teófilo, pode ter sido um simples aluno. O seu arrebatamento monopolizava os sentidos, em seu ardor parecia personificar as ciências. Mas, como ninguém é perfeito, só incorreu no pecado - por um momento – da linguagem densa como as águas do rio Estige da mitologia grega. Talvez tenha se deixado levar pelo orgulho, “seduzido por uma razão”. Lembro-me de Charbonneau, que lemos juntos: “A razão humana é oscilante, é bela e ao mesmo tempo perniciosa, porque tem o privilégio de enganar, de mentir, de iludir, de fazer o homem se perder no Dédalo de uma consciência falsa. Ela balança entre a revelação e o disfarce”.

No entanto depois vi no orador uma sanha niilista direcionada à personalidade da pessoa alvo, cético quanto a sequer um vislumbre de qualidade moral nela – uma impropriedade, a meu ver. Era quase um ser divino querendo oferecer-lhe uma catarse. Confesso-te, amigo: temi um pouco por ela – a pessoa alvo. Pensei: “Vai subjugá-la com tamanha obstinação.”

Mas, felizmente, convenceu a quem queria não a quem realmente importava: a pessoa alvo. Se tivesse conseguido confundi-la, ai sim, teria conseguido imprimir a sua marca estigmatizadora de forma permanente. Não de modo formal, na efemeridade das palavras ou nos anos perecíveis da sentença, mas na perenidade da alma. Para o infeliz que estava na berlinda ele teria sido um verdugo espiritual, quem sabe até desses que, no fórum da sua consciência, já tenha condenado a si próprio.

Teófilo, eu li que as muitas letras, às vezes, nos fazem delirar e eu como sou apenas um leigo cansei-me um pouco de tudo isso, até mesmo – perdoe-me, de ti. Por isso vou preferir o confinamento de simples oblato e, nessa busca de uma razão para os meus insignificantes, dias recitar o poeta Agostinho: “Senhor, Tu nos fizestes para Ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar, em Ti, descanso.”

Alberto Magalhães

Escrito em 1995, publicado no Jornal Cinform em setembro de 1996 e postado em tempodepalavrasepedras.blogspot.com em 11 de novembro de 2009. O relato é sobre o meu julgamento no 1º tribunal do juri (TJ/SE).

Teófilo: um amigo imaginário/Tese e antítese: acusação e defesa/Estige: o rio do inferno, na mitologia grega/ Sanha niilista: defesa da teoria da negação de forma ferrenha/verdugo: carrasco/Paul Eugène Charbonneau: teólogo e escritor canadense/Catarse: purgação, purificação/oblato: leigo que oferecia seus serviços a uma ordem religiosa/o referido homem de leis: Promotor sergipano, promovido a Procurador de Justiça, recém falecido por infarto. (anotações feitas a pedido de leitor)

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O marxismo materialista (resumo)



O marxismo, atualmente reverenciado por expressiva parte da humanidade, poderá predominar no mundo se um dia o capitalismo for rejeitado pelos povos, por ser considerado ineficiente aos propósitos da sociedade. E vai trazer mais infelicidade. O marxismo que deu origem ao comunismo cria a ideia de um falso domínio do proletariado sobre os meios de produção, em oposição à livre iniciativa, inserida no capitalismo e na democracia. Alegam os seus idealizadores que todos os males sociais são originados pelas “classes dominantes”. Sem propor medidas  saneadoras razoáveis para “consertar” o modelo existente.

Ocorre que jamais o povo dominará, seja a qual regime de governo ou sistema político estiver submetido. A teoria comunista surgiu mediante um bem elaborado projeto pessoal de poder político de líderes mal intencionados. Sempre haverá “representantes” populares governando pelo povo causando desmandos, injustiças, desigualdades, arbitrariedades. Todo governo humano é ineficiente e coercitivo e naturalmente gera insatisfações. Alguns até já tentaram amenizar o totalitarismo implacável do marxismo com um modelo de “marxismo humanitário”, quando percebemos que a teoria original usa a histórica questão da opressão do povo pelo capital para, pelo Estado, oprimir a todos.

O marxismo alimenta a ilusão de que o organismo social tem a capacidade de restaurar o indivíduo, e de que a religião, a cultura, e a economia predominantes são os fatores que estragam a percepção dos meios adequados para que se construa uma sociedade igualitária e justa, com todos tendo acesso a tudo o que é produzido. Nessa visão equivocada de consertar o mundo, o marxismo diz que o Estado é quem deve reger a consciência popular, porque esta deve ser formada pelo coletivo e não ao contrário, ou seja, o homem em si mesmo é vazio, sendo influenciado apenas pelos fatores externos alienantes. E sabemos que a questão não é simples assim, havendo inclusive evidências de elementos psicológicos universais, já no bebê, que não são adquiridos ou aprendidos e que o pensamento humano é autônomo e criativo, inquiridor por natureza.

A verdade é que quem oprime o homem é o próprio homem, como bem testificou  Thomas Hobbes, não os modelos políticos e econômicos precisamente, mas quem os conduz. Não se pode influenciar a alma das pessoas por meio de teorias filosóficas, políticas ou econômicas a fim de consolidar o bem. Principalmente abolindo a imagem de Deus, única fonte que permite ao homem o prazer na busca da solidariedade, fraternidade, igualdade vislumbrando o bem comum.

Alberto Magalhães, Agente de Polícia Judiciária da SSP de Sergipe.

domingo, 3 de setembro de 2017

O país que não deu certo



Quando eu vi a seleção brasileira receber sete gols da Alemanha (eu não vi o último gol, do Brasil, porque saí), eu perguntei a mim mesmo, enquanto andava pela minha rua silenciosa: “Porque o Brasil não dá certo?” Ora, o país tinha acabado de gastar bilhões de reais com a construção de arenas esportivas e o plantel canarinho era dos melhores. E recebeu uma goleada humilhante daquelas, em casa. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete gols. A zero. Isso eu constatei com esses olhos estupefatos. O que veio depois não importa mais para mim, eu nem sequer vi. O que ficou gravado foi o que os meus olhos viram. Lembrei-me de Ayrton Sena, o nosso campeão imbatível nas pistas, e a sua morte precoce. Lembrei-me do nosso ídolo mundial Pelé e a indignidade que ele praticou contra a sua filha, rejeitada por ele até a hora da sua morte (para que serviria os nossos heróis se não fosse para nos fazer melhores?). Roberto Carlos, que tão bem canta o amor, não é feliz nele. Fernando Collor, “o caçador de marajás”, o primeiro presidente eleito depois de duas décadas do regime de exceção, e o confisco da poupança dos trabalhadores brasileiros pelo seu governo demente e, depois, o impeachment. A fatalidade acontecida com Tancredo Neves, símbolo da redemocratização brasileira. A fatalidade com o nosso Sérgio Vieira de Melo, Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, benfeitor da humanidade e forte candidato à Secretário-geral, morto num atentado com um caminhão-bomba na sede da ONU em Bagdá. A sempre frustrante expectativa da Igreja Católica brasileira em ver um cardeal brasileiro dirigir o Vaticano. A vitrine brasileira, Rio de janeiro, a cidade maravilhosa, submergida na guerra causada pelas drogas. A Amazônia arrasada pelos mercenários. O Rio São Francisco explorado e abandonado. A proposta do brilhante pensador e educador Paulo Freira relegada ao esquecimento. A nossa música entrou em estado de letargia. A boa música parou nos anos oitenta do século passado. A espontaneidade da vida social ficou prejudicada pela alta criminalidade urbana. O espírito de felicidade ingênua deu lugar a realidade. Políticos em baixa. Não há no cenário nacional mais lideres, pelo menos não há quem preste para ser exemplo, modelo para os mais novos. Nossa juventude, outrora futuro brilhante da nação, mergulhada na mediocridade atual, seduzidos pela vulgaridade e baixa qualidade predominantes na moda, na música e em outros segmentos sociais. Essa geração não produz pessoas como Anita Garibaldi, Tiradentes, Deodoro da Fonseca, Zumbi dos Palmares, Princesa Isabel, Ruy Barbosa, Cora Coralina, Sílvio Santos, Chico Mendes... O sonho acabou. Ao menos social e culturalmente. Mas, como disse algum romântico pensador, a esperança não morre. Os sonhos podem renascer das cinzas, como uma fênix tupiniquim.

Lutar é andar sobre pedras. Quem abre caminhos corre os riscos das cobras. Mas é aos pés dos que vão à frente que as borboletas se levantam”. Juscelino Kubitschek

Alberto Magalhães

A justiça e Nietzsche



Justiça não é só um conceito abstrato que norteia a religião, a moral, a ética e o direito. Justiça é princípio soberano nas relações interpessoais e sociais, em verdade, universais. Justiça genuína tem sintonia com a liberdade, a razoabilidade, a impessoalidade. Ela precede à religião, à moral, à legalidade e ao Estado Democrático de Direito. Estes segmentos a buscam, no entanto só a apreendem em parte. A questão que dificulta o entendimento dessa constatação é que a compreensão de justiça é permeada por uma visão própria desse conceito, que, por vezes, sofre influência de culturas, épocas, de interesses pessoais ou de convicções religiosas ou filosóficas. Também, Justiça não é algo imbuído de bondade, necessariamente. Se o policial prende um malfeitor em ato de flagrante delito não proporciona algo de bom para o delinquente punido. No entanto lhe fez justiça, já que injustiça seria lhe prender sem que ele houvesse dado fundamento para a ação coercitiva.

A justiça original vive na efetiva liberdade, a justiça derivada subsiste na imposição. Justiça original se impõe, não é imposta pelo homem. Exemplo é a velhice do corpo físico, após os anos que se passaram. Outro é o desamor de quem foi continuamente maltratado por quem amava, ou o esgotamento dos recursos naturais pelo desgaste excessivo praticado pelo homem. A lei humana - bem como a divina, determinada aos homens - nasceu da necessidade de se fazer um esboço instrutivo normativo, para os “insensíveis” ou desinteressados, da justiça original, universal. A noção preponderante de justiça nas sociedades é baseada na posse, seja na área material ou na moral, a saber: nas infrações contra o patrimônio, integridade física, honra e imagem. A justiça original transcende esses elementos primários e projeta-se no espírito e em outras dimensões. Quando foram criados os preceitos na elaboração do direito consuetudinário ou normativo é porque já havia a existência dos princípios gerais do direito - conteúdo da justiça - no conhecimento inato humano.

A lídima justiça também não é realizada pelo homem. O ato de justiça praticado pelo homem é reflexo da justiça original, essência geradora, universal, impessoal da JUSTIÇA. Já a justiça perpetrada pelo homem tem a característica pessoal, individualista. Mesmo que em prol da coletividade. Justiça é ato de amor, não de bondade. Quando se castiga o filho pelo seu bem não se está sendo exatamente bom, mas justo. Embora essa justiça nasça do amor. Mas que amor é esse que se faz justiça contra quem se ama? Será esse o verdadeiro amor? A justiça pelo amor? Vingança decorre do desamor. E o que é o ódio a não ser a falta de amor? Seria, então, a vingança ato de injustiça? A injustiça pelo desamor? Pode ser essa a explicação para a nossa estada aqui nesse planeta, o sentido da vida terrena. Estaríamos na sala do aprendizado espiritual, laboratório das experiências metafísicas? O nosso professor seria o criador de toda essa engrenagem fascinante que nos desafia a evoluir sempre?

Nietzsche, que se mostrava ateu, disse que “é uma barbárie o amor a só uma pessoa, mesmo a Deus”. Se verdadeiro que o amor vem pela justiça, não seria justo que amássemos o pai da justiça, que nos alcançou por meio dela, não nos atingindo com a vingança do desamor? É notório que a nossa realidade é sedimentada na dualidade - que se afirmam, ou seja, uma revela a outra: vida, morte; luz, trevas; terra, água; matéria, espírito; saúde, doença; calor, frio; bem, mal... Sabemos que o corpo físico é regido pela mente, a família pelo pai, a sala de aula pelo professor, a escola pelo diretor, a cidade pelo prefeito, o estado pelo governador, o país pelo presidente, nosso sistema planetário pelo sol... numa cadeia que funciona em sintonia permanente. Não seria mais racional pensar que nesse sistema maravilhoso existe um condutor que o rege com maestria? E como a mente de um homem compreenderia um ser assim somente pelo pensamento? Mediante a observação e conjecturas? E como se pode provar a inexistência de algo que está fora do nosso alcance? De algo que não é visível, como pretendeu Nietzsche fazer?

Sempre será mais fácil se provar a existência do que existe e não é conhecido. O interessante é que a experiência espiritual é conhecida por muitos e é fervorosamente contestada pelos céticos que alegam influências meramente psíquicas para a explicarem. A lógica da razão jamais poderá explicar a fé ou anulá-la. Elas são dualidades que se afirmam e se completam. Mas isso para os bem intencionados. A humanidade traz consigo a dualidade de pertencer ao todo e de ser um. Individualidade versus coletividade. Individualidade com a sua liberdade de escolha e decisão - o chamado livre arbítrio - e a imensa solidão que a liberdade lhe traz, com as suas dúvidas atrozes. Nietzsche preferiu isso: a paz da negação de Deus à dúvida “incomodadora” da Sua existência, decorrente da oscilação da sua anterior e condicionada fé. Por isso ele se empenhava tanto em se convencer da tolice que era crer num ser superior e invisível aos nossos olhos. Morreu Nietzsche, em pouca idade, infeliz e doente.

Fonte de pesquisa: wikipedia.org

Alberto Magalhães

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Fanatismo, materialismo e fé

Eu não posso falar sobre gestação humana, eu nunca estive grávido. Não posso falar sobre o frio porque eu nunca estive no inverno europeu ou similar. E isso vale para muitas outras coisas. Como, por exemplo, falar com tanta propriedade sobre pessoas que mal conhecemos, às vezes, simplesmente seguindo comentários de pessoas maliciosas ou invejosas. Assim acontece com assuntos pertinentes a religião (do latim religare, religar, em português). Muitos exercem ferrenha e persistente crítica à Bíblia, sem terem o mínimo conhecimento do que trata essa coletânea de textos sagrados (o termo sagrado, do latim sacratu, refere-se a algo que merece veneração ou respeito religioso – Wikipédia). Os descrentes materialistas estão se viciando em zombar da divindade.

Para que possamos emitir opinião contestadora a respeito de alguma coisa devemos conhecer aquilo sobre o qual tratamos. Estudando, pesquisando, vivenciando – se possível – o que nos interessa abordar. Quem não conhece as Escrituras Bíblicas não tem autoridade para questionar o seu conteúdo, a sua mensagem, a sua finalidade. Os Gideões Internacionais preceituam que ela é como “o mapa do viajante, o cajado do peregrino, a bússola do piloto e a espada do soldado.” É o guia do fiel. Ela revela a mente de Deus, foi nos entregue para conhecimento e prática e será reaberta para o julgamento. Ela é a Constituição do mundo. Primeira e superior a todas as outras.

As instituições religiosas criadas são nascidas de interpretações de adeptos – ou grupos deles – dos preceitos contidos nos seus livros (a saber, 39 no Velho Testamento e 27 no Novo Testamento). Há adeptos que geram religiões. Há religiões que geram fanáticos. Há fanáticos que geram tragédias. A palavra bem interpretada gera fiéis, seguidores, amantes do bem, praticantes do amor Ágape e do Philos - o amor solidário, elevado, universal. Ridicularizar um símbolo que é considerado sagrado para outrem (como fizeram os integrantes do francês Charlie Hebdo) foi baixo, deselegante, ignóbil, no entanto, punir alguém com a morte por haver esnobado, tripudiado um símbolo sagrado da fé é reduzir a onipotência de Deus, no seu poder de julgar e agir.

O Deus islâmico, o Eterno, o Altíssimo, que é o meu também, disse ao Rei Saul que obedecer é melhor que sacrificar. A quem Ele deu ordem para matar os jornalistas franceses? Deus não precisa de homem bomba para conseguir alcançar seus intentos, para realizar seus irrevogáveis desígnios. E isso foi permitido no período de regência da Lei de Moisés. Depois Deus só concordou numa morte: naquela que é o sacrifício perfeito para aqueles que ouvem a Sua voz e abrem o coração: a do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, o Cristo prometido. Quem tem fé e é vingador peça ao SENHOR que caia fogo dos céus e consuma os ímpios blasfemadores, como fez o profeta Elias contra os 450 profetas de Baal. Afinal ele é o Senhor dos Exércitos e o Juiz Supremo. Os fanáticos fundamentalistas dilaceram a mensagem do amor divino tanto quanto os sacerdotes desonestos e os irreverentes opositores da fé.


Alberto Magalhães

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A letra dói (ou a letra que faz doer)

Não vou mais escrever. Pelo menos por algum tempo, que espero seja longo. Até o dia em que eu ficar cheio de novo do instintivo, carnal, comum, dos vícios mundanos, da mediocridade minha e dos meus semelhantes que me mostra o quanto, às vezes, somos pequenos e ridículos.

Alguém me disse hoje: você nos manda e-mails demais, incomoda, escreve muitas bobagens, devia “dar um tempo” de letras... Na hora eu ri de tão engraçado que eu achei. Não, na verdade a pessoa que é minha amiga e colega de trabalho – a sinceridade é uma grande aliada e nos é mais útil que o fingimento ou a mentira – não disse nada disso. Falou-me em tom de brincadeira, ameno, mas para bom entendedor meia palavra basta, um pingo é uma letra.

Então logo que dobrei a primeira esquina me veio esse desejo de não ter o desejo de me expressar para os outros, dividindo algumas coisas que passei a ver como essenciais para nós que já estamos do meio para o fim, mais perto do ocaso que da gênese da vida. Não mais andarei catando tolices, juntando frases vãs, não mais comentarei da frivolidade das coisas que permeiam a nossa vida ou das virtudes e sentimentos que deveriam nos motivar, nem dos pensamentos para nos moldar.

Pronto! Lá vou eu com essa maldita mania adquirida de falar do que as pessoas não querem ouvir: da frivolidade do que nos move, nos incita e nos domina diariamente. Quando fiquei cheio de mim passei a encher o saco dos outros. Já nos bastam o pão e o circo, para quê então as abstrações e reminiscências de filósofos doidos, de escritores desocupados, de pensadores sedentários, de pregadores alienados do moderno contexto social-político-capitalista-vanguardista-exotérico-sincretista, etc. etc.

O bom mesmo é dinheiro. Com ele a gente pode tudo. Com ele a gente compra garrafas de bebidas pra “encher a cara” até ficar grogue e adoecer o indolente fígado, compra cocaína pra cheirar até sangrar o nariz, paga enfermeiros pra fazer aborto nas nossas filhas adolescentes, paga a um detetive pra espionar a nossa mulher (ou marido) suspeita (o), paga ao contador para que soneguemos o imposto devido, corrompe os interessados em nos livrar das contravenções e infrações, compra testemunhas falsas, paga o carro, combustível, motel e o cachê de garotas e garotos de "programas" viçosos e vistosos, leva pra casa filmes pornográficos que as crianças assistem quando damos as costas, faz festas pra regalar os “amigos” de plantão... Que maravilha o dinheiro, vou me importar só com isso agora. Com ele o mundo fica mais sedutor.

Para quê os textos que nos fazem pensar, questionar, incomodar o nosso interior e comprometer o nosso status? Não vou escrever, eu prometo! Não mais escreverei. Até o vazio voltar a ser o meu companheiro insuportável. 

Alberto Magalhães