quarta-feira, 9 de junho de 2010

Abaixo a política bossa-nova

Por Marcos Vinícius Gomes
Novas eleições. Novas promessas, novos planos, novos projetos; certamente somente alguns sairão dos discursos inflamados e do papel timbrado. Neste momento em que todos respiramos de modo incomum (se tratando de Brasil) esta atmosfera de cidadania, de coletividade, de zelo pelo que é público precisamos ter em mente que a participação política nunca acaba, nem é uma festa ocorrida de dois em dois anos, apenas. A política transpassa a esfera do jogo do poder, ela está inserida em gestos e ações que, a primeira vista, não demonstram o mínimo elo com os destinos do país - por consequência,  com nossos próprios destinos. A verdadeira política não combina com contemplação, nem com passividade.

A vida política é de todos - dos eleitos democraticamente para cargos executivos e legislativos ou dos cidadãos que não são filiados a nenhum partido político. A vida política está no exercício da cidadania (palavra tão dita, mas tão pouco praticada), na busca por soluções para o bem comum. Participar da vida política é exigir dos nossos representantes que o dinheiro público seja gerido de modo racional, evitando-se desperdícios e utopias que esvaziam os cofres e trazem injustiças para a maioria da população. Devemos pensar que a política, apesar de repetidamente ter sido instrumento de autossatisfação de alguns que detem currais eleitorais há décadas, é o instrumento ideal para que tenhamos uma sociedade mais justa e integrada.

A vida política não é sectária, apesar da pluralidade de partidos. Esta pluralidade é a representação de que o ideal político não pode ser aliado à individualidade. É um engano o pensamento como  aquele do cidadão que diz que não quer saber de política, pois tem muito  o que fazer e não tem tempo para tal 'excentricidade'. Ele pode não ter uma vida política eletiva ou militante, mas tem uma vida política - em seu cotidiano, por meio de atitudes, pelo meio de ações que visam o bem estar coletivo. Se o serviço de coleta de lixo, por exemplo é deficiente, é dever do estado torná-lo eficiente; mas para isso o cidadão deve também ter o dever de cobrar um serviço bom. Daí podemos concluir que não há direitos sem deveres na esfera da vida política.

O Brasil tem passado por bons momentos de crescimento e prosperidade, o que não é suficiente. Ainda as injustiças de séculos permeiam a vida cotidiana, algumas mais expostas, outras menos. A violência contra mulheres e crianças ainda é alta e a impunidade a favor de seus agressores também. A miséria, apesar de ter diminuído, tem ainda  força nas grandes cidades e também em bolsões de pobreza pelo interior. A vida nas cidades grandes está se tornando cada vez mais impraticável com seu trânsito caótico e falta de espírito cidadão; já no interior são crescentes os números da violência. A cada dia que passa estamos nos aquartelando em residências falsamente protegidas. A educação ainda é um privilégio, assim como atendimento médico digno. Estes são apenas alguns dos problemas que atingem a todos - se bem que nem todos os cidadãos, inclusive aqueles que deveriam ser considerados 'esclarecidos' percebem. Para saná-los não existem fórmulas prontas, somente com esforço coletivo, com uma mentalidade política poderemos vislumbrar algo melhor. A democracia tem um preço, e o preço é a vigilância, mas a vigilância do dia-a-dia, do cidadão que sabe de seus direitos e deveres, que não se ilude com discursos e que sabe que é componente indispensável para a construção de uma sociedade mais equalitária.

Marcos Vinicius Gomes é Professor da lìngua portuguesa e inglesa em São Paulo e autor do notasdemidia.blogspot.com

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