sexta-feira, 28 de maio de 2010

Querido amigo

Marcos Vinicius Gomes*

Sei que os dias são maus. Não porque os queiramos maus, mas porque sentimos por muitas das vezes que o lado bom da nossa essência parece soterrado pela avalanche de equívocos que nos minam a alma, fazendo-nos definhar dia após dia. Temos fórmulas prontas para tudo - as científicas e as não científicas, as humanas e as desumanas, as religiosas e as não tão assim... No laboratório contemporâneo há soluções mesquinhas e menos traumáticas (para nós) a que somos submetidos onde não há contradições, ou melhor, não nos permitem que contradigamos pois seremos chamados de bárbaros.

Nossa arrogância não nos permite perdedores. Sempre somos 'da última geração que lutou por um mundo melhor', 'somos da última leva de gente que viveu a vida como deveria ser', 'ouvimos ao vivo e fomos os últimos a conviver com o melhor da música universal'...Para maquiarmos nossa incompetência criamos o homem contemporâneo, alheio a tudo, contemporizador da injustiça alheia, guardião de nossos falsos conceitos de justiça que nos satisfaçam apenas a nós em nossos egoísmos frequentes.

Pobre futura geração. A começar por nossos filhos, estas criaturas que existem apenas como ícones da nossa vaidade, de nossas frustrações, estes seres que devem lamentar por não usufruírem o que seus pais heróicos viveram noutras épocas. Esse problema chamado juventude, tão pouco pragmática, que consome nossos preciosos minutos em banalidades como pedidos de atenção e conversas inócuas. Esse jovens que não atendem a nossos anseios, que não querem fazer por nós aquilo que não tivemos competência para realizar quando tivemos oportunidade. Os jovens que nos são úteis apenas como ideal falso de vida plena e realizada apropriada pelo marketing ou cinema.

Nos resta pouco. O egocentrismo não nos permite constituir laços que, se antes não eram fáceis, ao menos eram mais duradouros. Precisamos justificar o que antes não havia razão de ser justificado. Devolvemos o que não é nosso com a estranheza coletiva de quem vê o sertão virar mar. Explicamos que o auxilio despretensioso é verdadeiro com medo de parecermos oportunistas e demagogos. Exaltamos o nada nadificando o tudo. Relativizamos o erro com a precisão e apuro que nos falta ao medirmos nossa incoerência. Desconstruímos o que nossos avós, bem ou mal nos legaram e não reerguemos nada - apenas nos recreamos sobre os destroços, disputando os despojos em insanas investidas.

Há uma saída. A esperança da não-esperança; a esperança da não esperança não significa niilismo, cinismo ou congêneres. Significa que a esperança não pode esperar, que não se apóia em expectativas falsas. Para sermos vivenciadores do que queremos de melhor para nós, que façamos por merecer, construindo dia após dia nosso ideal de vida justa. Isso porque a ação correta traz a esperança verdadeira que deságua na certeza. Não a certeza arrogante, mas aquela que nos norteia e nos alegra pois é firmada na justiça e na paz.

*Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa em São Paulo.

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