Marcos Vinicius Gomes*
Sei que os dias são maus. Não porque os queiramos maus, mas porque sentimos por muitas das vezes que o lado bom da nossa essência parece soterrado pela avalanche de equívocos que nos minam a alma, fazendo-nos definhar dia após dia. Temos fórmulas prontas para tudo - as científicas e as não científicas, as humanas e as desumanas, as religiosas e as não tão assim... No laboratório contemporâneo há soluções mesquinhas e menos traumáticas (para nós) a que somos submetidos onde não há contradições, ou melhor, não nos permitem que contradigamos pois seremos chamados de bárbaros.
Nossa arrogância não nos permite perdedores. Sempre somos 'da última geração que lutou por um mundo melhor', 'somos da última leva de gente que viveu a vida como deveria ser', 'ouvimos ao vivo e fomos os últimos a conviver com o melhor da música universal'...Para maquiarmos nossa incompetência criamos o homem contemporâneo, alheio a tudo, contemporizador da injustiça alheia, guardião de nossos falsos conceitos de justiça que nos satisfaçam apenas a nós em nossos egoísmos frequentes.
Pobre futura geração. A começar por nossos filhos, estas criaturas que existem apenas como ícones da nossa vaidade, de nossas frustrações, estes seres que devem lamentar por não usufruírem o que seus pais heróicos viveram noutras épocas. Esse problema chamado juventude, tão pouco pragmática, que consome nossos preciosos minutos em banalidades como pedidos de atenção e conversas inócuas. Esse jovens que não atendem a nossos anseios, que não querem fazer por nós aquilo que não tivemos competência para realizar quando tivemos oportunidade. Os jovens que nos são úteis apenas como ideal falso de vida plena e realizada apropriada pelo marketing ou cinema.
Nos resta pouco. O egocentrismo não nos permite constituir laços que, se antes não eram fáceis, ao menos eram mais duradouros. Precisamos justificar o que antes não havia razão de ser justificado. Devolvemos o que não é nosso com a estranheza coletiva de quem vê o sertão virar mar. Explicamos que o auxilio despretensioso é verdadeiro com medo de parecermos oportunistas e demagogos. Exaltamos o nada nadificando o tudo. Relativizamos o erro com a precisão e apuro que nos falta ao medirmos nossa incoerência. Desconstruímos o que nossos avós, bem ou mal nos legaram e não reerguemos nada - apenas nos recreamos sobre os destroços, disputando os despojos em insanas investidas.
Há uma saída. A esperança da não-esperança; a esperança da não esperança não significa niilismo, cinismo ou congêneres. Significa que a esperança não pode esperar, que não se apóia em expectativas falsas. Para sermos vivenciadores do que queremos de melhor para nós, que façamos por merecer, construindo dia após dia nosso ideal de vida justa. Isso porque a ação correta traz a esperança verdadeira que deságua na certeza. Não a certeza arrogante, mas aquela que nos norteia e nos alegra pois é firmada na justiça e na paz.
*Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa em São Paulo.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
terça-feira, 6 de abril de 2010
Eduard Khil, ou 'o homem mais feliz do mundo'
Marcos Vinicius Gomes*
domingo, 4 de abril de 2010
O título pode sugerir alguém que tenha ganho algum prêmio de loteria, ou então que tenha achado a sorte grande nos negócios ou que tenha conseguido algo mais pessoal como a conquista (ou a reconquista) da pessoa amada. Entretanto nenhuma destas possibilidades descrevem o que está por detrás das palavras do lead. Na verdade Eduard Khil é um cantor russo aposentado de 75 anos ex-barítono e viajou vários países em turnês de apresentações. Num período de cerceamento de liberdades ele desenvolveu sua arte na medida do possível, possível este determinado pela mente burocrática e opressora dos líderes da antiga União Soviética.
Eduard Khil está num vídeo do site Youtube . Ali está o clipe onde ele canta uma música nos anos setenta para a TV estatal soviética. 'Eu finalmente estou tão feliz por finalmente voltar para casa', é uma música original americana que retrata a vida de um caubói. A letra não teria nada de excepcional e diz: 'Eu estou montando meu cavalo mustang nas pradarias, enquanto minha adorada Maria está a milhas de distância costurando minhas meias'. E nesta letra singela que o viés burocrático da ex-União Soviética se mostrou latente - a ponto de censurarem a letra da música por ser uma 'canção de faroeste' (lembremos que Estado Unidos e União Soviética foram forças opostas na 'Guerra Fria', movimento armamentista pós Segunda Guerra Mundial e que acabou apenas com o desmanche do bloco soviético liderado pela Rússia; daí a justificativa da censura, que na cabeça dos burocratas russos seria uma 'exaltação' à cultura americana, ...)
Restou então para Khil gravar o clipe da música apenas 'cantarolando' sem referir-se à letra então censurada. Talvez em épocas recentes, principalmente no 'mundo ocidental' liderado pelos Estados Unidos o clipe passaria despercebido. Afinal, não havia esta certa pasteurização da música pop, e não havia divas que parecem saídas do forno no esquema Lady Gaga ou Beyoncé que ditassem tendências na indústria fonográfica. O que chama a atenção é a originalidade da canção, a técnica, o fato de um cantor erudito tentar expressar algo através de uma canção censurada apenas cantarolando, tentando emocionar o espectador.
E isso Eduard Khil parece que conseguiu vários anos depois de gravar o clipe. O elegante barítono virou hit na internet. Antes de saber da fama inesperada e tardia, seu neto chegou em casa cantarolando a música - também conhecida como 'Trololo' - e, questionado pelo avô barítono, o garoto disse que estavam todos cantando sua música da net, fazendo versões, paródias. Era o começo do 'estrelato tardio' de Khil. Os acessos de seu 'hit cantarolado' atingiram a casa dos milhões em pouco tempo. Versões da canção em estilos diversos como 'dance-music' assim como a venda de camisetas com a estampa do cantor russo podem ser adquiridas pela internet.
O cantor russo disse em entrevista ao canal de notícias Russia Today que passou a adorar a internet, pois ela possibilita um 'encontro de gerações'. Khil parece estar certo, e este episódio traz inúmeras reflexões sobre nossos conceitos de liberdade individual, liberdade de expressão, divulgação de conhecimento, ideologias políticas, censura, manipulação midiática, enfim, um apanhado de temas que muitas vezes tem suas essências pouco analizadas por nós. Seria um bom momento de pensarmos sobre estes temas. Mas, é claro, ouvindo 'Trololo', ou a canção do 'homem mais feliz do mundo'.
Marcos Vinicius Gomes é Professor de língua portuguesa e inglesa no Estado de São Paulo.
Fontes: http://rt.com/ http://rt.com/Top_News/2010-03-15/trololo-khil-sensation-waltz.html
http://www.youtube.com/watch?v=ccCpVtlkaYk&feature=fvw
http://www.youtube.com/watch?v=32UGD0fV45g&feature=related
domingo, 4 de abril de 2010
O título pode sugerir alguém que tenha ganho algum prêmio de loteria, ou então que tenha achado a sorte grande nos negócios ou que tenha conseguido algo mais pessoal como a conquista (ou a reconquista) da pessoa amada. Entretanto nenhuma destas possibilidades descrevem o que está por detrás das palavras do lead. Na verdade Eduard Khil é um cantor russo aposentado de 75 anos ex-barítono e viajou vários países em turnês de apresentações. Num período de cerceamento de liberdades ele desenvolveu sua arte na medida do possível, possível este determinado pela mente burocrática e opressora dos líderes da antiga União Soviética.
Eduard Khil está num vídeo do site Youtube . Ali está o clipe onde ele canta uma música nos anos setenta para a TV estatal soviética. 'Eu finalmente estou tão feliz por finalmente voltar para casa', é uma música original americana que retrata a vida de um caubói. A letra não teria nada de excepcional e diz: 'Eu estou montando meu cavalo mustang nas pradarias, enquanto minha adorada Maria está a milhas de distância costurando minhas meias'. E nesta letra singela que o viés burocrático da ex-União Soviética se mostrou latente - a ponto de censurarem a letra da música por ser uma 'canção de faroeste' (lembremos que Estado Unidos e União Soviética foram forças opostas na 'Guerra Fria', movimento armamentista pós Segunda Guerra Mundial e que acabou apenas com o desmanche do bloco soviético liderado pela Rússia; daí a justificativa da censura, que na cabeça dos burocratas russos seria uma 'exaltação' à cultura americana, ...)
Restou então para Khil gravar o clipe da música apenas 'cantarolando' sem referir-se à letra então censurada. Talvez em épocas recentes, principalmente no 'mundo ocidental' liderado pelos Estados Unidos o clipe passaria despercebido. Afinal, não havia esta certa pasteurização da música pop, e não havia divas que parecem saídas do forno no esquema Lady Gaga ou Beyoncé que ditassem tendências na indústria fonográfica. O que chama a atenção é a originalidade da canção, a técnica, o fato de um cantor erudito tentar expressar algo através de uma canção censurada apenas cantarolando, tentando emocionar o espectador.
E isso Eduard Khil parece que conseguiu vários anos depois de gravar o clipe. O elegante barítono virou hit na internet. Antes de saber da fama inesperada e tardia, seu neto chegou em casa cantarolando a música - também conhecida como 'Trololo' - e, questionado pelo avô barítono, o garoto disse que estavam todos cantando sua música da net, fazendo versões, paródias. Era o começo do 'estrelato tardio' de Khil. Os acessos de seu 'hit cantarolado' atingiram a casa dos milhões em pouco tempo. Versões da canção em estilos diversos como 'dance-music' assim como a venda de camisetas com a estampa do cantor russo podem ser adquiridas pela internet.
O cantor russo disse em entrevista ao canal de notícias Russia Today que passou a adorar a internet, pois ela possibilita um 'encontro de gerações'. Khil parece estar certo, e este episódio traz inúmeras reflexões sobre nossos conceitos de liberdade individual, liberdade de expressão, divulgação de conhecimento, ideologias políticas, censura, manipulação midiática, enfim, um apanhado de temas que muitas vezes tem suas essências pouco analizadas por nós. Seria um bom momento de pensarmos sobre estes temas. Mas, é claro, ouvindo 'Trololo', ou a canção do 'homem mais feliz do mundo'.
Marcos Vinicius Gomes é Professor de língua portuguesa e inglesa no Estado de São Paulo.
Fontes: http://rt.com/ http://rt.com/Top_News/2010-03-15/trololo-khil-sensation-waltz.html
http://www.youtube.com/watch?v=ccCpVtlkaYk&feature=fvw
http://www.youtube.com/watch?v=32UGD0fV45g&feature=related
sábado, 3 de abril de 2010
Crimes sexuais: da antiga capação para a moderna castração química
(Archimedes Marques)
Todo crime sexual é acompanhado de ato depravado, sórdido, repugnante, horrendo e produz seqüelas irreparáveis para as vítimas e seus familiares. Tais crimes sempre foram combatidos pela sociedade desde os tempos mais remotos.
De uma maneira geral, em quase todas as nações, os crimes de ordem sexual eram punidos nos parâmetros da Lei de Talião, ou seja, o autor sofria castigo igual, parecido ou relacionado ao dano por ele causado.
A máxima OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE fora vivenciada por muito tempo em quase todas as Leis das diversas Nações, em destarte, na Idade média através da Inquisição comandada pela própria Igreja católica.
A Lei de Talião era interpretada não só como um direito, mas até como uma exigência social de vingança em favor da honra pessoal, familiar ou tribal.
O Brasil colônia de Portugal, assim como tal, também seguia tais parâmetros punitivos para os seus diversos tipos de criminosos.
As Ordenações do Reino que compunham as Leis Manuelinas, Afonsinas e Filipinas, formavam a base do sistema penal português, que por sua vez também vigoravam no Brasil. Entre as penas estavam a morte, a mutilação através do corte de membros, o degredo, o tormento, a prisão perpetua e o açoite.
Até mesmo depois da sua Independência de Portugal, o Brasil continuou adotando penas não menos violentas e cruéis, seguindo de certa forma, os antigos ensinamentos de Talião na sua organização penal.
O homem que praticasse determinados atos sexuais considerados imorais ou criminosos poderia ser condenado à castração, então conhecida por capação que podia ser concretizada de várias maneiras, contanto que com o castigo o agressor não tivesse mais possibilidade de voltar a delinqüir devido a perda total do seu apetite sexual.
Buscando um caso prático para melhor ilustrar o presente texto só encontrei a suposta e inusitada Sentença Judicial datada de 15 de outubro de 1833 ocorrida na antiga Villa de Porto da Folha, hoje município, situado às margens do rio São Francisco aqui no nosso querido Estado de Sergipe.
A referida Sentença que é relacionada a uma tentativa de estupro possui a linguagem arcaica da época e dizem que o dito documento está guardado no Instituto Histórico do vizinho Estado de Alagoas. Tal sentença fora divulgada em alguns jornais virtuais e sites jurídicos do Brasil, a exemplo das páginas Ad referendum, Usina de letras, Recanto das letras, o Norte de Minas Gerais, Jus navigandi, Teologikas, Livros e afins, Estudos de direito, Fórum Jurídico, Jurisciência, Consultor Jurídico, Almanaque Brasil, Pérolas do Judiciário... Por isso a transcrevo acreditando ter sido fato real e documento verídico:
“SENTENÇA DO JUIZ MUNICIPAL EM EXERCÍCIO, AO TERMO DE PORTO DA FOLHA – 1883.
SÚMULA: Comete pecado mortal o indivíduo que confessa em público suas patifarias e seus boxes e faz gogas de suas víctimas desejando a mulher do próximo, para com ella fazer suas chumbregâncias.
O adjunto Promotor Público representou contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Senhora Sant´Anna, quando a mulher de Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em moita de matto, sahiu dela de sopetão e fez proposta a dita mulher, por quem roía brocha, para coisa que não se pode traser a lume e como ella, recusasse, o dito cabra atrofou-se a ella, deitou-se no chão deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, e não conseguio matrimônio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreyo Correia e Clemente Barbosa, que prenderam o cujo flagrante e pediu a condenação delle como incurso nas penas de tentativa de matrimônio proibido e a pulso de sucesso porque dita mulher taja pêijada e com o sucedido deu luz de menino macho que nasceu morto.
As testemunhas, duas são vista porque chegaram no flagrante e bisparam a pervesidade do cabra Manoel Duda e as demais testemunhas de avaluemos. Dizem as leis que duas testemunhas que assistem a qualquer naufrágio do sucesso faz prova, e o juiz não precisa de testemunhas de avaluemos e assim:
Considero que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento, por quem roía brocha, para coxambrar com ella coisas que só o marido della competia coxambrar porque eram casados pelo regime da Santa Madre Igreja Cathólica Romana.
Considero que o cabra Manoel Duda deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas coxambranças viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver.
Considero que a paciente estava pêijada e em consequência do sucedido, deu a luz de um menino macho que nasceu morto.
Considero que a morte do menino trouxe prejuízo a herança que podia ter quando o pae delle ou mãe falecesse.
Considero que o cabra Manoel Duda é um suplicado deboxado, que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer coxambranças com a Quitéria e a Clarinha, que são moças donzellas e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia.
Considero que o cabra Manoel Duda está preso em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar do próximo que elle desejou.
Considero que sua Majestade Imperial e o mundo inteiro, precisa ficar livre do cabra Manoel Duda, para secula, seculorum amem, arreiem dos deboxes praticados e as sem vergonhesas por elle praticados e apara as fêmeas e machos não sejam mais por elle incomodados.
Considero que o Cabra Manoel Duda é um sujeito sem vergonha que não nega suas coxambranças e ainda faz isnoga das incomendas de sua víctima e por isso deve ser botado em regime por esse juízo.
Posto que:
Condeno o cabra Manoel Duda pelo malifício que fez a mulher de Xico Bento e por tentativa de mais malifícios iguais, a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete.
A execução da pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o Carcereiro. Feita a capação, depois de trinta dias o Carcereiro solte o cujo cabra para que vá em paz.
O nosso Prior aconselha:
Homine debochado debochatus mulherorum inovadabus est sentetia qibus capare est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pote.
Cumpra-se a apregue-se editaes nos lugares públicos. Apelo ex-officio desta sentença para juiz de Direito deste Comarca.
Porto da Folha, 15 de outubro de 1833.
Assinado: Manuel Fernandes dos Santos, Juiz Municipal suplente em exercício.”
A capação feita a macete consistia em colocar os testículos do cidadão condenado em local rígido esmagando-os com um forte golpe certeiro, usando para tanto um grosso pau roliço tipo bastão ou cassetete, ou mesmo, uma marreta fabricada com madeira de lei.
Com o tempo a pena de Talião e outras cruéis desapareceram nas legislações modernas na quase totalidade dos Países, sob a influência de novas doutrinas e novas tendências humanas relacionadas com o Direito Penal, entretanto, muitas pessoas ainda defendem a volta de métodos parecidos, como fórmula eficaz para arrefecer o recrudescimento da violência urbana.
Apesar do nosso ordenamento jurídico ter abolido de vez as penas cruéis, a discussão sobre a aplicação de uma pena peculiar para aqueles que cometem crimes de ordem sexual, destarte para aqueles praticados contra crianças através da chamada pedofilia, volta a tona agora de maneira mais presente, vez que tramita no Congresso nacional o Projeto de Lei nº 552/07 de autoria do Senador Gerson Camata para propor modificação no Código Penal com a pena de castração através da utilização dos recursos químicos, ou seja, a castração química para tais criminosos.
A denominada castração química consiste na aplicação de injeções hormonais inibidoras do apetite sexual, aplicadas nos testículos, conduzindo o condenado à impotência sexual em caráter definitivo e de maneira irreversível.
A proposta inspira-se em ordenamentos jurídicos estrangeiros onde a sanção é aplicada, a exemplo dos estados do Texas, Califórnia, Flórida, Louisiana e Montana nos Estados Unidos da America, em certos países da Europa e até aqui na América do Sul, na vizinha Argentina, entretanto, no Brasil, tal proposta esbarra em sérios óbices constitucionais, vez que é tema relativo ao direito fundamental à integridade física, assim como às garantias contra penas cruéis, desumanas, degradantes e perpétuas estatuídas para todos.
Para muitos legisladores, advogados e juristas a proposta é repudiada e considerada totalmente inconstitucional. Para alguns não passa de um Projeto eleitoreiro populista que visa agradar e enganar o povo, mas que vai de encontro a Constituição Federal e, por isso, mesmo que seja aprovado no Congresso nacional será desfeito pelo Supremo Tribunal Federal. Para outros a própria Carta Magna pode também ser alterada para adaptação de tal pena. Para tantos outros tal penalidade é um retrocesso à Lei de Talião, uma volta à época medieval, um atraso na humanidade, incabível no nosso ordenamento jurídico.
A discussão também gira em torno de se estudar se a castração química é uma pena cruel ou se é somente um tratamento médico, sem maiores gravidades físicas para os autores irrecuperáveis e reincidentes dos crimes sexuais, destarte para os pedófilos, que com a medida perderão apenas o libido, com grande possibilidade de não mais voltarem a delinqüir pois sem a vontade sexual não há o porque da realização do ato.
A vivencia policial e a prática profissional ao longo dos tempos nos contemplam pelo lado psicológico adquirido em casos investigados, a asseverar sem medo de errar, que geralmente os maníacos sexuais parecem não ter sentimentos de culpa e, quando chegam a confessar os crimes inerentes, discorrem como se os seus atos insanos fossem normais, negam suas carências, suas dificuldades, demonstram ser completamente desconectados com sentimentos próprios e muito menos com os sentimentos alheios, com os sentimentos das vítimas e seus familiares, por isso, quase sempre reincidem nos seus crimes quando colocados em liberdade.
É fato contundente e abominável para toda a sociedade que, no nosso pais, um quarto das vítimas de crimes sexuais são crianças com menos de dez anos de idade, porém esse debate não pode ficar apenas adstrito ao Congresso Nacional, deve se expandir para todas as camadas sociais. Advogados, juristas, doutrinadores, médicos, psicólogos, sexólogos, psiquiatras, professores, jornalistas, escritores, cronistas, religiosos e especialistas diversos devem ser ouvidos para formarem suas opiniões não só na pauta constitucional ou jurídica, quanto nas questões sociais, morais e éticas no seio da nossa sociedade.
A experiência internacional através dos países que já adotam esta moderna pena tem muito a nos ensinar, as medidas de lá que restauram frutíferas devem ser aqui adaptadas a nossa realidade e, por fim, restando possível a aplicação de tal penalidade, o mais importante: A realização de um plebiscito para o povo decidir se é a favor ou contra a castração química.
Autor: Archimedes Marques (Delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS) – archimedesmarques@infonet.com.br - archimedes-marques@bol.com.br - archimedesmelo@bol.com.br
Todo crime sexual é acompanhado de ato depravado, sórdido, repugnante, horrendo e produz seqüelas irreparáveis para as vítimas e seus familiares. Tais crimes sempre foram combatidos pela sociedade desde os tempos mais remotos.
De uma maneira geral, em quase todas as nações, os crimes de ordem sexual eram punidos nos parâmetros da Lei de Talião, ou seja, o autor sofria castigo igual, parecido ou relacionado ao dano por ele causado.
A máxima OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE fora vivenciada por muito tempo em quase todas as Leis das diversas Nações, em destarte, na Idade média através da Inquisição comandada pela própria Igreja católica.
A Lei de Talião era interpretada não só como um direito, mas até como uma exigência social de vingança em favor da honra pessoal, familiar ou tribal.
O Brasil colônia de Portugal, assim como tal, também seguia tais parâmetros punitivos para os seus diversos tipos de criminosos.
As Ordenações do Reino que compunham as Leis Manuelinas, Afonsinas e Filipinas, formavam a base do sistema penal português, que por sua vez também vigoravam no Brasil. Entre as penas estavam a morte, a mutilação através do corte de membros, o degredo, o tormento, a prisão perpetua e o açoite.
Até mesmo depois da sua Independência de Portugal, o Brasil continuou adotando penas não menos violentas e cruéis, seguindo de certa forma, os antigos ensinamentos de Talião na sua organização penal.
O homem que praticasse determinados atos sexuais considerados imorais ou criminosos poderia ser condenado à castração, então conhecida por capação que podia ser concretizada de várias maneiras, contanto que com o castigo o agressor não tivesse mais possibilidade de voltar a delinqüir devido a perda total do seu apetite sexual.
Buscando um caso prático para melhor ilustrar o presente texto só encontrei a suposta e inusitada Sentença Judicial datada de 15 de outubro de 1833 ocorrida na antiga Villa de Porto da Folha, hoje município, situado às margens do rio São Francisco aqui no nosso querido Estado de Sergipe.
A referida Sentença que é relacionada a uma tentativa de estupro possui a linguagem arcaica da época e dizem que o dito documento está guardado no Instituto Histórico do vizinho Estado de Alagoas. Tal sentença fora divulgada em alguns jornais virtuais e sites jurídicos do Brasil, a exemplo das páginas Ad referendum, Usina de letras, Recanto das letras, o Norte de Minas Gerais, Jus navigandi, Teologikas, Livros e afins, Estudos de direito, Fórum Jurídico, Jurisciência, Consultor Jurídico, Almanaque Brasil, Pérolas do Judiciário... Por isso a transcrevo acreditando ter sido fato real e documento verídico:
“SENTENÇA DO JUIZ MUNICIPAL EM EXERCÍCIO, AO TERMO DE PORTO DA FOLHA – 1883.
SÚMULA: Comete pecado mortal o indivíduo que confessa em público suas patifarias e seus boxes e faz gogas de suas víctimas desejando a mulher do próximo, para com ella fazer suas chumbregâncias.
O adjunto Promotor Público representou contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Senhora Sant´Anna, quando a mulher de Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em moita de matto, sahiu dela de sopetão e fez proposta a dita mulher, por quem roía brocha, para coisa que não se pode traser a lume e como ella, recusasse, o dito cabra atrofou-se a ella, deitou-se no chão deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, e não conseguio matrimônio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreyo Correia e Clemente Barbosa, que prenderam o cujo flagrante e pediu a condenação delle como incurso nas penas de tentativa de matrimônio proibido e a pulso de sucesso porque dita mulher taja pêijada e com o sucedido deu luz de menino macho que nasceu morto.
As testemunhas, duas são vista porque chegaram no flagrante e bisparam a pervesidade do cabra Manoel Duda e as demais testemunhas de avaluemos. Dizem as leis que duas testemunhas que assistem a qualquer naufrágio do sucesso faz prova, e o juiz não precisa de testemunhas de avaluemos e assim:
Considero que o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento, por quem roía brocha, para coxambrar com ella coisas que só o marido della competia coxambrar porque eram casados pelo regime da Santa Madre Igreja Cathólica Romana.
Considero que o cabra Manoel Duda deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas coxambranças viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver.
Considero que a paciente estava pêijada e em consequência do sucedido, deu a luz de um menino macho que nasceu morto.
Considero que a morte do menino trouxe prejuízo a herança que podia ter quando o pae delle ou mãe falecesse.
Considero que o cabra Manoel Duda é um suplicado deboxado, que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer coxambranças com a Quitéria e a Clarinha, que são moças donzellas e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia.
Considero que o cabra Manoel Duda está preso em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar do próximo que elle desejou.
Considero que sua Majestade Imperial e o mundo inteiro, precisa ficar livre do cabra Manoel Duda, para secula, seculorum amem, arreiem dos deboxes praticados e as sem vergonhesas por elle praticados e apara as fêmeas e machos não sejam mais por elle incomodados.
Considero que o Cabra Manoel Duda é um sujeito sem vergonha que não nega suas coxambranças e ainda faz isnoga das incomendas de sua víctima e por isso deve ser botado em regime por esse juízo.
Posto que:
Condeno o cabra Manoel Duda pelo malifício que fez a mulher de Xico Bento e por tentativa de mais malifícios iguais, a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete.
A execução da pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio carrasco o Carcereiro. Feita a capação, depois de trinta dias o Carcereiro solte o cujo cabra para que vá em paz.
O nosso Prior aconselha:
Homine debochado debochatus mulherorum inovadabus est sentetia qibus capare est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pote.
Cumpra-se a apregue-se editaes nos lugares públicos. Apelo ex-officio desta sentença para juiz de Direito deste Comarca.
Porto da Folha, 15 de outubro de 1833.
Assinado: Manuel Fernandes dos Santos, Juiz Municipal suplente em exercício.”
A capação feita a macete consistia em colocar os testículos do cidadão condenado em local rígido esmagando-os com um forte golpe certeiro, usando para tanto um grosso pau roliço tipo bastão ou cassetete, ou mesmo, uma marreta fabricada com madeira de lei.
Com o tempo a pena de Talião e outras cruéis desapareceram nas legislações modernas na quase totalidade dos Países, sob a influência de novas doutrinas e novas tendências humanas relacionadas com o Direito Penal, entretanto, muitas pessoas ainda defendem a volta de métodos parecidos, como fórmula eficaz para arrefecer o recrudescimento da violência urbana.
Apesar do nosso ordenamento jurídico ter abolido de vez as penas cruéis, a discussão sobre a aplicação de uma pena peculiar para aqueles que cometem crimes de ordem sexual, destarte para aqueles praticados contra crianças através da chamada pedofilia, volta a tona agora de maneira mais presente, vez que tramita no Congresso nacional o Projeto de Lei nº 552/07 de autoria do Senador Gerson Camata para propor modificação no Código Penal com a pena de castração através da utilização dos recursos químicos, ou seja, a castração química para tais criminosos.
A denominada castração química consiste na aplicação de injeções hormonais inibidoras do apetite sexual, aplicadas nos testículos, conduzindo o condenado à impotência sexual em caráter definitivo e de maneira irreversível.
A proposta inspira-se em ordenamentos jurídicos estrangeiros onde a sanção é aplicada, a exemplo dos estados do Texas, Califórnia, Flórida, Louisiana e Montana nos Estados Unidos da America, em certos países da Europa e até aqui na América do Sul, na vizinha Argentina, entretanto, no Brasil, tal proposta esbarra em sérios óbices constitucionais, vez que é tema relativo ao direito fundamental à integridade física, assim como às garantias contra penas cruéis, desumanas, degradantes e perpétuas estatuídas para todos.
Para muitos legisladores, advogados e juristas a proposta é repudiada e considerada totalmente inconstitucional. Para alguns não passa de um Projeto eleitoreiro populista que visa agradar e enganar o povo, mas que vai de encontro a Constituição Federal e, por isso, mesmo que seja aprovado no Congresso nacional será desfeito pelo Supremo Tribunal Federal. Para outros a própria Carta Magna pode também ser alterada para adaptação de tal pena. Para tantos outros tal penalidade é um retrocesso à Lei de Talião, uma volta à época medieval, um atraso na humanidade, incabível no nosso ordenamento jurídico.
A discussão também gira em torno de se estudar se a castração química é uma pena cruel ou se é somente um tratamento médico, sem maiores gravidades físicas para os autores irrecuperáveis e reincidentes dos crimes sexuais, destarte para os pedófilos, que com a medida perderão apenas o libido, com grande possibilidade de não mais voltarem a delinqüir pois sem a vontade sexual não há o porque da realização do ato.
A vivencia policial e a prática profissional ao longo dos tempos nos contemplam pelo lado psicológico adquirido em casos investigados, a asseverar sem medo de errar, que geralmente os maníacos sexuais parecem não ter sentimentos de culpa e, quando chegam a confessar os crimes inerentes, discorrem como se os seus atos insanos fossem normais, negam suas carências, suas dificuldades, demonstram ser completamente desconectados com sentimentos próprios e muito menos com os sentimentos alheios, com os sentimentos das vítimas e seus familiares, por isso, quase sempre reincidem nos seus crimes quando colocados em liberdade.
É fato contundente e abominável para toda a sociedade que, no nosso pais, um quarto das vítimas de crimes sexuais são crianças com menos de dez anos de idade, porém esse debate não pode ficar apenas adstrito ao Congresso Nacional, deve se expandir para todas as camadas sociais. Advogados, juristas, doutrinadores, médicos, psicólogos, sexólogos, psiquiatras, professores, jornalistas, escritores, cronistas, religiosos e especialistas diversos devem ser ouvidos para formarem suas opiniões não só na pauta constitucional ou jurídica, quanto nas questões sociais, morais e éticas no seio da nossa sociedade.
A experiência internacional através dos países que já adotam esta moderna pena tem muito a nos ensinar, as medidas de lá que restauram frutíferas devem ser aqui adaptadas a nossa realidade e, por fim, restando possível a aplicação de tal penalidade, o mais importante: A realização de um plebiscito para o povo decidir se é a favor ou contra a castração química.
Autor: Archimedes Marques (Delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS) – archimedesmarques@infonet.com.br - archimedes-marques@bol.com.br - archimedesmelo@bol.com.br
domingo, 28 de fevereiro de 2010
*Clóvis Barbosa: cachaça e política se assemelham
A bagaceira
Clóvis Barbosa (*)
Somos nordestinos. Dentro da liturgia cultural destas bandas, temos o acanalhado vezo de conferir a qualquer bebida etílica o esculhambado e vulgar epíteto “cachaça”. José bebe vinho? A coisa se amesquinha. Ele toma é cachaça. O aperitivo de João é um whiskyzinho? Lá vai o infame pra vala comum. Cachaceiro. E o pior, se Antônio estiver na curtição da verdadeira cachacinha, aí é que o achincalhe ganha tônus. “Antônio? Está é cheio da cana”. Ninguém poupa o plantel dos cachaceiros. Nem eles mesmos. É uma tribo antropofágica. O cabra, com uma cerveja na mão, quando pensa em tirar o escalpo do desafeto, logo entoa: “Quem? Aquele pulha? Cachaceiro!” Macaco não repara o rabo. E cachaceiro não espia o copo. A cachaça só enxergou duas passagens em que a absolveram: as Bodas de Caná, onde Cristo transformou água em vinho, e a Última Ceia, onde o vinho simbolizou seu sangue.
Nas próprias escrituras, porém, exemplos de avacalhação e vinho pululam. No gênesis, há dois que inspirariam o papa a redigir uma encíclica sobre os desalentos da cachaça. O primeiro está ali onde Noé, após cultivar uvas e produzir vinho, se embriagou (nordestinamente: se encheu do “pau”). Bêbado, ficou completamente nu (isso, na altura dos seus seiscentos anos). Espetáculo digno da pequena loja dos horrores. Um velho, muxibento e cachaceiro, exibindo a trouxa desavergonhadamente. O filho caçula flagrou o atentado e clamou pelos irmãos mais velhos, que socorreram o patriarca. Aqueles, de costas, certamente para não se assombrarem, foram na direção do ancião com um lençol, a fim de cobri-lo e conduzi-lo à tenda, onde curou a cachaça. Mas, como nada de bêbado tem dono (nem o juízo), Noé esconjurou o filho mais novo, porque este o viu despido. O moço merecia era uma brutal terapia psiquiátrica.
O segundo e voluptuoso episódio se dá quando as filhas de Ló, sob a desculpa de que não deixariam o velhinho sem descendência, propuseram arrepiante ardil. O cenário é a pós-destruição de Gomorra. Foragidos, Ló e filhas homiziaram-se numa caverna, na região montanhosa de Jerusalém, onde hoje se encontra o Mar Morto. À noite, embebedaram o pai e, no âmago de sua suposta inconsciência, praticaram ménage-à-trois, da qual saíram embuchadas. Garantiram prole a Ló, num contexto de chocar a menos carola das beatas. O que intriga nisso é que cachaça e política se assemelham. Ambas, quando não recebem bênção divina (exemplos da Santa Ceia e das Bodas de Caná), ou desnudam e expõem o camarada ao ridículo (que ainda amaldiçoará alguém), ou outorgam prazer num quadro de promiscuidade (fossem só esses os esculachos). O povo (sempre ele), todavia, é quem sai gozado no final. (**)
(*) Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe.
(**) Publicado no Jornal da Cidade, Aju-SE, dom (28/02) e seg (1º/03), 2010, B19.
Comentário do autor do blog*:
Amei os textos “Ecce homo” e “A banalidade do mal” republicados neste blog, ambas as obras do punho de Clóvis Barbosa de Melo a quem eu devoto um sentimento de respeito pela sua trajetória pessoal e saber jurídico. No entanto esse texto que postei acima me desgostou sobremaneira. Primeiro porque eu acho temerário que para se tratar de assuntos mundanos se use a Bíblia (coleção das Escrituras Sagradas) como referência. Não que de certa forma não sirva, apenas penso que nos tempos em que vivemos de perda de credibilidade da família, das instituições, da autoridade, dos valores fundamentais as Escrituras Sagradas devem permanecer separadas do comum, do profano, do mundano numa sociedade Cristã (caso do Brasil) pelas pessoas de bom senso, para que ela possa servir de parâmetro para a boa consciência e princípios espirituais. Fonte de inspiração até para a Carta Magna de países civilizados e prósperos que nos antecederam como nação. A não ser quando o assunto bíblico tratado for bem dissecado para não deixar uma interpretação distorcida da realidade apresentada.
Em todas as culturas (não só na nordestina) se referem aos bêbados e aos alcoólatras de maneira galhofeira e até depreciativa usando termos próprios.
Na qualidade de alguém que leu os 66 livros que compõem a Bíblia (de Gênesis a Apocalipse) posso tecer alguns comentários à respeito do tema:
Jesus transformou água em vinho – O vinho tinha o significado de alegria, confraternização, congraçamento. Era essencial para se comemorar os eventos importantes: as boas colheitas, os casamentos, as solenidades, etc. O melhor vinho era servido no começo da festa e depois que o paladar já estava saturado do seu sabor era servido o de qualidade inferior, que geralmente passava despercebido. Quando o vinho acabou sem que a festa das bodas houvesse chegado ao fim Jesus pediu os potes com água (Maria disse: “fazei o que Ele pede.” Não funciona ao contrário como alguns religiosos pregam) e miraculosamente produziu vinho. E o melhor vinho que poderia ser feito. Era tamanha a sua qualidade que os festeiros conseguiram perceber a diferença e estranharam o fato de haverem deixado o melhor vinho para o final da festa. Por que Jesus fez isso? Porque Ele queria mostrar que poderia trazer maior alegria às pessoas que a que eles tinham com qualquer coisa já existente, independente da ocasião, dos limites humanos. Na última ceia Ele disse que “aquele” vinho da alegria, do congraçamento (não da farra) deveria ser bebido simbolizando o seu sangue que seria dado, ofertado para resgatar a amizade íntima (comunhão espiritual) dos crentes na sua expiação (em lugar dos homens comuns) para comemorar o evento mais importante que todos os outros: a redenção da humanidade, a colheita de seguidores. Os não seguidores são o joio da plantação, serão descartados.
A nudez de Noé - No evento de Noé os termos pejorativos me chocaram em virtude da pessoa esclarecida que escreveu. Noé já velho e sem a mesma resistência de outrora, bebeu do vinho de sua plantação, se embriagou e ficou despido dentro da sua tenda. O seu filho mais novo de forma desrespeitosa para a época se deu o direito de contemplar o seu pai desnudo, o que não era permitido. As qualidades físicas do idoso que pela primeira vez se embriagara de vinho não trazem nenhuma importância à interpretação da passagem. (Gênesis 9:20)
Ló e suas duas filhas – Sodoma foi destruída. A mulher de Ló na fuga determinada pelo Anjo foi transformada em pedra porque fora proibida de olhar para trás e não obedeceu. Ló e suas filhas habitaram uma caverna nas montanhas. Pela tradição daquele povo quem morresse sem deixar descendente era desgraçado. As moças não tinham com quem deixar-lhe descendência e resolveram embebedar o pai e conceber dele próprio. Mas não num ménage-à-trois. A mais velha o embebedou numa noite e praticou o incesto e a mais nova na noite seguinte repetiu o feito (Gênesis 19:29). É bom frisar que os povos que descenderam desses dois filhos gerados por Ló com suas filhas (Moabe – os Moabitas, e Bem-Ami – os Amonitas) não se relacionaram com Deus que antes havia abençoado Ló, que lhe era fiel. Os israelitas descendem de Israel (Jacó) e eram desafetos desses povos. Os israelitas foram separados para servir de vitrine ao mundo de como Deus quer que as comunidades em tudo procedam. Depois do advento de Jesus Cristo o povo escolhido e separado para servir de modelo é encontrado em todo o mundo. São chamados Cristãos. (ver http://www.aculturadeista.blogspot.com/ )
*Alberto Magalhães
Comentário enviado por Marcos Vinicius Gomes* via e-mail:
Clóvis Barbosa no artigo 'A bagaceira' (publicado no Jornal da Cidade de Aracaju e reproduzido por Alberto Magalhães em seu blog Textos-livres) traz um estilo bem adequado ao tema. É brejeiro, irreverente e até insolente, rodeado de trechos barroquizantes vai ao encontro da temática escolhida - o álcool e seu contexto social e histórico tanto no Brasil quanto no mundo. Porém, se Clóvis (que é Conselheiro do Tribunal de Contas de Sergipe e advogado) acerta na forma, erra no conteúdo, eximindo-se de suas responsabilidades em uma leitura parcial, pecando por estereotipizar costumes, povos, pessoas.
O álcool como bem disse Barbosa está ligado à política. Ou melhor diretamente ligado ao político, chefe de Estado. Seu uso por estas pessoas públicas pode criar efeitos devastadores. Entretanto alguns conseguem suplantar a falta de credibilidade que o uso de destilados ou fermentados pode trazer. Temos bons exemplos históricos.
Winston Churchill (1875-1965), primeiro-ministro britânico que o diga. Era tido como bêbado, por apreciar uísque. Foi um dos grandes estadistas do século passado, tendo tido em seu rol de façanhas liderado a resistência contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Ele (assim como a grande maioria das pessoas que consomem o álcool de modo consciente) era centrado, focado em seus objetivos. O uísque era apenas um passatempo. Churchill também era conhecido por seu senso de humor. Um dia, uma mulher desafeta sua lhe disse:"Sr Churchill, se eu fosse sua mulher, colocaria veneno no seu chá!". Ele, muito educado replicou:"E se eu fosse seu marido eu beberia o chá." Apesar do apreço pelo 'etílico regozijante' e do bom humor de Churchill, não há quem o desabone no papel de grande líder.
Há também exemplos mais recentes, tirados de terras brasileiras. Jânio Quadros (1917-1992), político paulista tido como excêntrico e demagogo, teve sua trajetória política marcada pelo estereótipo de 'alcoólatra'. É conhecida a frase atribuída a ele:"Eu bebo porque é líquido, porque se fosse sólido, comê-lo-ia" (referidndo-se à bebida). Jânio com todos seus erros e acertos em sua trajetória como governador, 'presidente-relâmpago' e prefeito ficou marcado mesmo por sua passagem pela cidade de S. Paulo como prefeito, já no fim da carreira política.
O caso mais notável, tanto pelo apreço por destilados, carregado pelo secular preconceito de classe de uma nação atrasada, estratificada e com uma elite arrogante, temos no Presidente Lula. Saído de um berço nada esplêndido, pobre, nordestino sem nome,ex-metalúrgico e dirigente sindical que ousou despontar como líder político e chefe de estado de seu país, Lula possuía (talvez ainda possua) todos os atributos que o desqualificariam para o cargo que exerce pela segunda vez. Seus adversários políticos, como parte da imprensa,sempre ressaltaram o apreço do presidente pelos destilados, especialmente a 'cachaça'. É célebre o episódio onde um jornalista americano escreveu sobre a possível doença do presidente (o alcoolismo) somente pelo fato do presidente beber em momentos de lazer. Alguns setores da imprensa abraçaram este argumento. De ex-retirante e primeiro presidente brasileiro advindo das classes populares, Lula foi transfigurado num 'Boris Yeltsin latino americano'. Boris (1931-2007), ex-presidente russo, ficou conhecido por apreciar a vodca e por vezes aparecer alterado em compromissos públicos. Porém esqueceram-se estes que criticam Lula (ou fingem esquecer) do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apreciador também de destilados, do tipo uísque. Aqui o que diferencia Lula de FHC, além da origem, é o 'prestigio social ' agregado à bebidas de suas preferências. Esta constatação reforça a tese do 'teor político' além do 'teor social que o álcool pode trazer consigo, dependendo do prestígio e do preço da bebida em questão.
Barbosa, neste seu texto, erra ao associar de maneira equivocada o consumo do álcool à cultura nordestina. Ficou latente em seus discurso o estereótipo do 'nordestino cachaceiro' que em situações adversas patrocinadas por injustiças históricas, tem no álcool um paliativo para suas agruras. A falta de vigor na análise histórico-social do uso do álcool nas sociedades - em especial na brasileira nordestina - é desabonador. É sabido que o nordeste foi durante séculos grande produtor de cana-de-açúcar para exportação e, por conseguinte, grande produtor de destilados. Grandes fortunas foram erguidas no ciclo da cana-de-açúcar, juntamente com um sistema político-social opressor, clientelista, pautado em conchavos obscuros que ainda são refletidos não só na parte setentrional do país.
O ilustre homem de leis se esquivou da responsabilidade de analisar o consumo não recreativo do álcool associado, geralmente às classes populares -trabalhadores do comércio, operários, autônomos, funcionários públicos semi-qualificados. Esqueceu-se de exercitar o senso crítico olhando além fronteiras. Se o consumo compulsivo do álcool é uma válvula de escape em situações de vulnerabilidade social-econômica, não o é apenas no nordeste ou no Brasil. Pode ser mais notado no nordeste por ser esta região um laboratório histórico de equívocos político-sociais e econômicos, que trazem à população em geral atraso humanístico mais expressivo do que em outras regiões do país. Entretanto isso não é regra. O consumo do álcool de modo compulsivo (alcoolismo) tem seus reflexos em áreas mais desenvolvidas, em várias classes sociais de diferentes culturas e faixas etárias. Por exemplo, temos o crescimento do consumo de álcool por jovens da classe média paulistana e também entre mulheres - estas historicamente pouco dadas ao álcool, devido à questões sociais como o tabu familiar, o preconceito, entre outros paradigmas que deixam de ser seguidos nesta época pós-feminista. O consumo excessivo do álcool, assim como o consumo de drogas ilícitas é um fenômeno social abrangente, não se restringindo a esta ou a aquela região específica.
Esta condescendência do autor associada a uma cultura que, se não exclusiva do nordeste, tem fortes raízes na região e que se espalharam por todo o país, pode ser em certos casos preocupante. Qual juízo crítico poderemos ter em casos onde o álcool, ligado à desagregação familiar, ao desemprego à penúria econômica, à falta de perspectivas a curto prazo para o cidadão desassistido pelo Estado, cause danos irreparáveis a um núcleo familiar? Quantas mulheres, não apenas no nordeste estão neste exato momento sofrendo, sendo espancadas por maridos alcoólatras que viram na bebida um paliativo para seus problemas? Quantas tragédias consumadas pelo consumo irresponsável do álcool no trânsito, em discussões banais? E pelas drogas ilícitas? Deveríamos ser condescendentes para com aqueles que desafiam a lei disponibilizando bebidas alcoólicas a menores de 18 anos? Será que o ilustre advogado se esconderia por detrás de sofismas etílicos, evocando a cultura do álcool fortemente arraigada (segundo sua opinião) em terras nordestino-brasileiras em situações onde devesse ser feita a reparação à sociedade pelo consumo irresponsável ou compulsivo do álcool? Qual seria seu parecer? Somente Clóvis Barbosa pode responder.
*Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa em São Paulo e é autor de http://www.notasdemidia.blogspot.com/ e http://www.brazilianperspective.blogspot.com/
Clóvis Barbosa (*)
Somos nordestinos. Dentro da liturgia cultural destas bandas, temos o acanalhado vezo de conferir a qualquer bebida etílica o esculhambado e vulgar epíteto “cachaça”. José bebe vinho? A coisa se amesquinha. Ele toma é cachaça. O aperitivo de João é um whiskyzinho? Lá vai o infame pra vala comum. Cachaceiro. E o pior, se Antônio estiver na curtição da verdadeira cachacinha, aí é que o achincalhe ganha tônus. “Antônio? Está é cheio da cana”. Ninguém poupa o plantel dos cachaceiros. Nem eles mesmos. É uma tribo antropofágica. O cabra, com uma cerveja na mão, quando pensa em tirar o escalpo do desafeto, logo entoa: “Quem? Aquele pulha? Cachaceiro!” Macaco não repara o rabo. E cachaceiro não espia o copo. A cachaça só enxergou duas passagens em que a absolveram: as Bodas de Caná, onde Cristo transformou água em vinho, e a Última Ceia, onde o vinho simbolizou seu sangue.
Nas próprias escrituras, porém, exemplos de avacalhação e vinho pululam. No gênesis, há dois que inspirariam o papa a redigir uma encíclica sobre os desalentos da cachaça. O primeiro está ali onde Noé, após cultivar uvas e produzir vinho, se embriagou (nordestinamente: se encheu do “pau”). Bêbado, ficou completamente nu (isso, na altura dos seus seiscentos anos). Espetáculo digno da pequena loja dos horrores. Um velho, muxibento e cachaceiro, exibindo a trouxa desavergonhadamente. O filho caçula flagrou o atentado e clamou pelos irmãos mais velhos, que socorreram o patriarca. Aqueles, de costas, certamente para não se assombrarem, foram na direção do ancião com um lençol, a fim de cobri-lo e conduzi-lo à tenda, onde curou a cachaça. Mas, como nada de bêbado tem dono (nem o juízo), Noé esconjurou o filho mais novo, porque este o viu despido. O moço merecia era uma brutal terapia psiquiátrica.
O segundo e voluptuoso episódio se dá quando as filhas de Ló, sob a desculpa de que não deixariam o velhinho sem descendência, propuseram arrepiante ardil. O cenário é a pós-destruição de Gomorra. Foragidos, Ló e filhas homiziaram-se numa caverna, na região montanhosa de Jerusalém, onde hoje se encontra o Mar Morto. À noite, embebedaram o pai e, no âmago de sua suposta inconsciência, praticaram ménage-à-trois, da qual saíram embuchadas. Garantiram prole a Ló, num contexto de chocar a menos carola das beatas. O que intriga nisso é que cachaça e política se assemelham. Ambas, quando não recebem bênção divina (exemplos da Santa Ceia e das Bodas de Caná), ou desnudam e expõem o camarada ao ridículo (que ainda amaldiçoará alguém), ou outorgam prazer num quadro de promiscuidade (fossem só esses os esculachos). O povo (sempre ele), todavia, é quem sai gozado no final. (**)
(*) Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe.
(**) Publicado no Jornal da Cidade, Aju-SE, dom (28/02) e seg (1º/03), 2010, B19.
Comentário do autor do blog*:
Amei os textos “Ecce homo” e “A banalidade do mal” republicados neste blog, ambas as obras do punho de Clóvis Barbosa de Melo a quem eu devoto um sentimento de respeito pela sua trajetória pessoal e saber jurídico. No entanto esse texto que postei acima me desgostou sobremaneira. Primeiro porque eu acho temerário que para se tratar de assuntos mundanos se use a Bíblia (coleção das Escrituras Sagradas) como referência. Não que de certa forma não sirva, apenas penso que nos tempos em que vivemos de perda de credibilidade da família, das instituições, da autoridade, dos valores fundamentais as Escrituras Sagradas devem permanecer separadas do comum, do profano, do mundano numa sociedade Cristã (caso do Brasil) pelas pessoas de bom senso, para que ela possa servir de parâmetro para a boa consciência e princípios espirituais. Fonte de inspiração até para a Carta Magna de países civilizados e prósperos que nos antecederam como nação. A não ser quando o assunto bíblico tratado for bem dissecado para não deixar uma interpretação distorcida da realidade apresentada.
Em todas as culturas (não só na nordestina) se referem aos bêbados e aos alcoólatras de maneira galhofeira e até depreciativa usando termos próprios.
Na qualidade de alguém que leu os 66 livros que compõem a Bíblia (de Gênesis a Apocalipse) posso tecer alguns comentários à respeito do tema:
Jesus transformou água em vinho – O vinho tinha o significado de alegria, confraternização, congraçamento. Era essencial para se comemorar os eventos importantes: as boas colheitas, os casamentos, as solenidades, etc. O melhor vinho era servido no começo da festa e depois que o paladar já estava saturado do seu sabor era servido o de qualidade inferior, que geralmente passava despercebido. Quando o vinho acabou sem que a festa das bodas houvesse chegado ao fim Jesus pediu os potes com água (Maria disse: “fazei o que Ele pede.” Não funciona ao contrário como alguns religiosos pregam) e miraculosamente produziu vinho. E o melhor vinho que poderia ser feito. Era tamanha a sua qualidade que os festeiros conseguiram perceber a diferença e estranharam o fato de haverem deixado o melhor vinho para o final da festa. Por que Jesus fez isso? Porque Ele queria mostrar que poderia trazer maior alegria às pessoas que a que eles tinham com qualquer coisa já existente, independente da ocasião, dos limites humanos. Na última ceia Ele disse que “aquele” vinho da alegria, do congraçamento (não da farra) deveria ser bebido simbolizando o seu sangue que seria dado, ofertado para resgatar a amizade íntima (comunhão espiritual) dos crentes na sua expiação (em lugar dos homens comuns) para comemorar o evento mais importante que todos os outros: a redenção da humanidade, a colheita de seguidores. Os não seguidores são o joio da plantação, serão descartados.
A nudez de Noé - No evento de Noé os termos pejorativos me chocaram em virtude da pessoa esclarecida que escreveu. Noé já velho e sem a mesma resistência de outrora, bebeu do vinho de sua plantação, se embriagou e ficou despido dentro da sua tenda. O seu filho mais novo de forma desrespeitosa para a época se deu o direito de contemplar o seu pai desnudo, o que não era permitido. As qualidades físicas do idoso que pela primeira vez se embriagara de vinho não trazem nenhuma importância à interpretação da passagem. (Gênesis 9:20)
Ló e suas duas filhas – Sodoma foi destruída. A mulher de Ló na fuga determinada pelo Anjo foi transformada em pedra porque fora proibida de olhar para trás e não obedeceu. Ló e suas filhas habitaram uma caverna nas montanhas. Pela tradição daquele povo quem morresse sem deixar descendente era desgraçado. As moças não tinham com quem deixar-lhe descendência e resolveram embebedar o pai e conceber dele próprio. Mas não num ménage-à-trois. A mais velha o embebedou numa noite e praticou o incesto e a mais nova na noite seguinte repetiu o feito (Gênesis 19:29). É bom frisar que os povos que descenderam desses dois filhos gerados por Ló com suas filhas (Moabe – os Moabitas, e Bem-Ami – os Amonitas) não se relacionaram com Deus que antes havia abençoado Ló, que lhe era fiel. Os israelitas descendem de Israel (Jacó) e eram desafetos desses povos. Os israelitas foram separados para servir de vitrine ao mundo de como Deus quer que as comunidades em tudo procedam. Depois do advento de Jesus Cristo o povo escolhido e separado para servir de modelo é encontrado em todo o mundo. São chamados Cristãos. (ver http://www.aculturadeista.blogspot.com/ )
*Alberto Magalhães
Comentário enviado por Marcos Vinicius Gomes* via e-mail:
Clóvis Barbosa no artigo 'A bagaceira' (publicado no Jornal da Cidade de Aracaju e reproduzido por Alberto Magalhães em seu blog Textos-livres) traz um estilo bem adequado ao tema. É brejeiro, irreverente e até insolente, rodeado de trechos barroquizantes vai ao encontro da temática escolhida - o álcool e seu contexto social e histórico tanto no Brasil quanto no mundo. Porém, se Clóvis (que é Conselheiro do Tribunal de Contas de Sergipe e advogado) acerta na forma, erra no conteúdo, eximindo-se de suas responsabilidades em uma leitura parcial, pecando por estereotipizar costumes, povos, pessoas.
O álcool como bem disse Barbosa está ligado à política. Ou melhor diretamente ligado ao político, chefe de Estado. Seu uso por estas pessoas públicas pode criar efeitos devastadores. Entretanto alguns conseguem suplantar a falta de credibilidade que o uso de destilados ou fermentados pode trazer. Temos bons exemplos históricos.
Winston Churchill (1875-1965), primeiro-ministro britânico que o diga. Era tido como bêbado, por apreciar uísque. Foi um dos grandes estadistas do século passado, tendo tido em seu rol de façanhas liderado a resistência contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Ele (assim como a grande maioria das pessoas que consomem o álcool de modo consciente) era centrado, focado em seus objetivos. O uísque era apenas um passatempo. Churchill também era conhecido por seu senso de humor. Um dia, uma mulher desafeta sua lhe disse:"Sr Churchill, se eu fosse sua mulher, colocaria veneno no seu chá!". Ele, muito educado replicou:"E se eu fosse seu marido eu beberia o chá." Apesar do apreço pelo 'etílico regozijante' e do bom humor de Churchill, não há quem o desabone no papel de grande líder.
Há também exemplos mais recentes, tirados de terras brasileiras. Jânio Quadros (1917-1992), político paulista tido como excêntrico e demagogo, teve sua trajetória política marcada pelo estereótipo de 'alcoólatra'. É conhecida a frase atribuída a ele:"Eu bebo porque é líquido, porque se fosse sólido, comê-lo-ia" (referidndo-se à bebida). Jânio com todos seus erros e acertos em sua trajetória como governador, 'presidente-relâmpago' e prefeito ficou marcado mesmo por sua passagem pela cidade de S. Paulo como prefeito, já no fim da carreira política.
O caso mais notável, tanto pelo apreço por destilados, carregado pelo secular preconceito de classe de uma nação atrasada, estratificada e com uma elite arrogante, temos no Presidente Lula. Saído de um berço nada esplêndido, pobre, nordestino sem nome,ex-metalúrgico e dirigente sindical que ousou despontar como líder político e chefe de estado de seu país, Lula possuía (talvez ainda possua) todos os atributos que o desqualificariam para o cargo que exerce pela segunda vez. Seus adversários políticos, como parte da imprensa,sempre ressaltaram o apreço do presidente pelos destilados, especialmente a 'cachaça'. É célebre o episódio onde um jornalista americano escreveu sobre a possível doença do presidente (o alcoolismo) somente pelo fato do presidente beber em momentos de lazer. Alguns setores da imprensa abraçaram este argumento. De ex-retirante e primeiro presidente brasileiro advindo das classes populares, Lula foi transfigurado num 'Boris Yeltsin latino americano'. Boris (1931-2007), ex-presidente russo, ficou conhecido por apreciar a vodca e por vezes aparecer alterado em compromissos públicos. Porém esqueceram-se estes que criticam Lula (ou fingem esquecer) do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apreciador também de destilados, do tipo uísque. Aqui o que diferencia Lula de FHC, além da origem, é o 'prestigio social ' agregado à bebidas de suas preferências. Esta constatação reforça a tese do 'teor político' além do 'teor social que o álcool pode trazer consigo, dependendo do prestígio e do preço da bebida em questão.
Barbosa, neste seu texto, erra ao associar de maneira equivocada o consumo do álcool à cultura nordestina. Ficou latente em seus discurso o estereótipo do 'nordestino cachaceiro' que em situações adversas patrocinadas por injustiças históricas, tem no álcool um paliativo para suas agruras. A falta de vigor na análise histórico-social do uso do álcool nas sociedades - em especial na brasileira nordestina - é desabonador. É sabido que o nordeste foi durante séculos grande produtor de cana-de-açúcar para exportação e, por conseguinte, grande produtor de destilados. Grandes fortunas foram erguidas no ciclo da cana-de-açúcar, juntamente com um sistema político-social opressor, clientelista, pautado em conchavos obscuros que ainda são refletidos não só na parte setentrional do país.
O ilustre homem de leis se esquivou da responsabilidade de analisar o consumo não recreativo do álcool associado, geralmente às classes populares -trabalhadores do comércio, operários, autônomos, funcionários públicos semi-qualificados. Esqueceu-se de exercitar o senso crítico olhando além fronteiras. Se o consumo compulsivo do álcool é uma válvula de escape em situações de vulnerabilidade social-econômica, não o é apenas no nordeste ou no Brasil. Pode ser mais notado no nordeste por ser esta região um laboratório histórico de equívocos político-sociais e econômicos, que trazem à população em geral atraso humanístico mais expressivo do que em outras regiões do país. Entretanto isso não é regra. O consumo do álcool de modo compulsivo (alcoolismo) tem seus reflexos em áreas mais desenvolvidas, em várias classes sociais de diferentes culturas e faixas etárias. Por exemplo, temos o crescimento do consumo de álcool por jovens da classe média paulistana e também entre mulheres - estas historicamente pouco dadas ao álcool, devido à questões sociais como o tabu familiar, o preconceito, entre outros paradigmas que deixam de ser seguidos nesta época pós-feminista. O consumo excessivo do álcool, assim como o consumo de drogas ilícitas é um fenômeno social abrangente, não se restringindo a esta ou a aquela região específica.
Esta condescendência do autor associada a uma cultura que, se não exclusiva do nordeste, tem fortes raízes na região e que se espalharam por todo o país, pode ser em certos casos preocupante. Qual juízo crítico poderemos ter em casos onde o álcool, ligado à desagregação familiar, ao desemprego à penúria econômica, à falta de perspectivas a curto prazo para o cidadão desassistido pelo Estado, cause danos irreparáveis a um núcleo familiar? Quantas mulheres, não apenas no nordeste estão neste exato momento sofrendo, sendo espancadas por maridos alcoólatras que viram na bebida um paliativo para seus problemas? Quantas tragédias consumadas pelo consumo irresponsável do álcool no trânsito, em discussões banais? E pelas drogas ilícitas? Deveríamos ser condescendentes para com aqueles que desafiam a lei disponibilizando bebidas alcoólicas a menores de 18 anos? Será que o ilustre advogado se esconderia por detrás de sofismas etílicos, evocando a cultura do álcool fortemente arraigada (segundo sua opinião) em terras nordestino-brasileiras em situações onde devesse ser feita a reparação à sociedade pelo consumo irresponsável ou compulsivo do álcool? Qual seria seu parecer? Somente Clóvis Barbosa pode responder.
*Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa em São Paulo e é autor de http://www.notasdemidia.blogspot.com/ e http://www.brazilianperspective.blogspot.com/
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
*A Corrupção No Brasil
O nosso país caminha por passos vagos. Apesar de arrecadar trilhões por ano, a renda é muito mal distribuída; apesar de ser um país avançado, que tenta superar a condição de emergente em relação aos Estados Unidos e países europeus, perde, e muito, para a corrupção.
Segundo vi através das minhas pesquisas, o ano de 2008 fechou com 300 mil operações fraudulentas ou irregulares, um aumento de 112% em relação ao ano anterior, e ainda o Brasil perde anualmente com a corrupção política e empresarial cerca de R$ 160 bilhões, o que representa 6% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.
Não podemos deixar de criticar os atos que ficam impunes em nosso governo. A roubalheira chega a surpreender, pois muitos jornais, sejam eles impressos ou televisivos, denunciam atos corruptos, mas parece que as autoridades apoiam, se locupletam com os embusteiros.
Não há como deixar de indignar-se diante da tamanha corrupção que assola as nossas administrações. E é essa a principal causa da indignação do brasileiro, pois os corruptos tiram de nós não apenas o pão que nos alimenta, mas a dignidade.
Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Brasil perde US$ 3,5 bilhões por ano com prejuízo à produtividade provocada por fraudes públicas. Perdemos com isso um grande investimento em educação, saúde e segurança por exemplo.
Enquanto noticiam as fraudes do governo e das empresas, a saúde sofre com a falta de medicamentos, de leitos, de médicos e os governos dizem estar fazendo o necessário para melhorar o atendimento ao doente no SUS.
É deprimente o estado do nosso país. Ele está jogado às traças, ou melhor, à corrupção.
Ronyvaldo Barros dos Santos/www.ronyvaldo.wordpress.com
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
*Conflitos ético-morais e nossa liberdade de escolha
Por Paulo Márcio*
Tornou-se cada vez mais comum, nos dias que correm, assistirmos à execração pública de pessoas até então tidas como moralmente idôneas, honradas, acima de qualquer suspeita. Assim, de uma hora para outra, o indivíduo antes ungido com o óleo da moralidade passa a ser pichado com a graxa da indecência, da infâmia, da desonestidade. Imediatamente estampa-se-lhe na testa, sem apelo, o selo da imoralidade. Seus amigos logo se afastam; sua família, humilhada, esconde-se, e ele, centro de todas as atenções, debate-se como animal assustado, que intui a morte aproximar-se nos corredores sombrios do matadouro. Há pouco que fazer nessas horas, na medida em que o primeiro julgamento é sempre moral e, por isso mesmo, sumário, daí a celeridade do rito e a certeza da condenação. Ademais, temerosos da ira da opinião pública – este ente tão perverso e por vezes injusto -, nessa fase poucos se arriscam a defendê-lo, e, quando o fazem, quase sempre agem movidos por interesses inconfessáveis, embora ouçam, na câmara secreta de sua consciência, uma voz que lhes alerta sobre o erro e a insensatez de abraçar uma causa que vai de encontro aos altaneiros valores da sociedade.
No âmbito de todos os poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) e nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal) vem ganhando força um movimento que pugna pela moralidade administrativa. Tal movimento assemelha-se a uma onda, mais do que isso, a um tsunami que percorre silencioso os bastidores do poder e, subitaneamente, invade as praias atrativas, tranquilas e paradisíacas da corrupção, do crime organizado e da impunidade, provocando alvoroço, medo, paralisia e muita indignação naqueles que, acostumados ao prazer e ao deleite proporcionados pelo dinheiro público desviado, ignoram que a principal característica da realidade é a própria impermanência... E como nada há de durar para sempre, é no bojo das constantes e efervescentes transformações sociais que novos valores surgem e afirmam-se, destronando pouco a pouco antigas e nefandas práticas ainda encontradiças em nosso meio social.
A moral não é monopólio de nenhum povo, de nenhum partido político, de nenhum grupo religioso, de nenhuma categoria profissional, mas uma conquista, um valor, um ideal que pode e deve ser perseguido e alcançado por todo e qualquer indivíduo participante da vida gregária, na medida em que é um produto cultural relativizado no tempo e no espaço, cuja validade só se pode observar e aferir nos relacionamentos interpessoais, no trato com a coisa pública e na capacidade de servir e ser útil ao grupo social no qual o indivíduo está inserido.
Assim, não basta ao indivíduo inflar os pulmões e bradar aos quatro cantos que é honesto, moral, decente, para que seja reconhecido como tal, sobretudo quando os fatos e as circunstâncias dizem exatamente o contrário. Esse tipo de comportamento, aliás, quase sempre seguido de ataques furiosos e veementes a outros indivíduos, além de soar arrogante e inadequada, geralmente revela um conflito psicológico do qual o sujeito é portador. Não raro, trata-se de uma clara projeção psicológica, mecanismo mediante o qual o indivíduo projeta no outro aquelas características que rejeita em si próprio, características essas trancafiadas nos porões do seu inconsciente e transferidas amiúde para este ou aquele alvo, contra quem lança toda sorte de impropérios e acusações levianas sem perceber que na verdade é ele próprio quem, inconscientemente, coloca-se na alça de mira de sua própria fúria e indignação. Daí H.G. Wells ter afirmado que “indignação moral é inveja com auréola”.
Convém, portanto, pôr as barbas de molho diante daqueles que se arvoram na condição de “seres morais”. Primeiro, porque a moralidade não se resume a uma questão de retórica; antes constitui uma postura em face dos desafios impostos pela vida, sobremaneira quando o indivíduo é colocado diante de facilidades que lhe despertam interesses egoístas e pouco nobres. Segundo, porquanto ela não é característica inata, mas um apanágio do indivíduo que logrou alcançar um nível consciencial que lhe permite discernir o certo e o errado, o bem e o mal – abstraído qualquer maniqueísmo -, e fazer sua escolha livremente, sempre de forma ética, construtiva e edificante.
Mas, como diferenciar o “ser moral” do “indivíduo imoral”? Seria isso possível? Bem, é óbvio que não existe fórmula ou método infalível para esse mister. Jesus Cristo, no entanto, vaticinou que podemos reconhecer a árvore pelos frutos. Assim, se a árvore for boa, dará bons frutos; sendo má, dará maus frutos. Portanto, para o Mestre Nazareno, desde que não possamos sondar os aspectos subjetivos do indivíduo, cabe-nos recorrer ao exame de suas obras, ações e tantas outras realizações externas, de maneira que logremos, a partir do estudo dos aspectos exteriores, aferir, ainda que parcialmente, as qualidades morais daqueles que nos circundam e com quem interagimos.
O místico indiano Bhagwa Shree Rajneesh, mais conhecido como Osho, parte de uma premissa bem diferente, qual seja, a de que a moralidade, sendo tão-somente um substituto pobre da religião dos buda – fundada no desapego e na compaixão -, possui um caráter puramente utilitário, permitindo apenas que as pessoas convivam umas com as outras sem se autodestruírem. Nega, por conseguinte, a existência do homem moral, afirmando que “os moralistas não são realmente morais – eles estão vivendo uma vida dupla: na superfície, morais, mas, na realidade, tão imorais quanto qualquer outra pessoa ou até mesmo mais. Talvez a moralidade deles esteja presente para esconder suas atividades ilegais. E todos parecem estar no mesmo barco. Do mais baixo trabalhador ao homem que detém o posto mais alto, o primeiro-ministro ou o presidente do país, parece que todos estão no mesmo barco.”
Osho é ainda mais radical ao asseverar: “Parece que um homem só é moral até ser capturado. Assim, a diferença entre o moral e o imoral é somente esta: de ser ou não capturado”. E para não ser capturado – complementamos -, o homem não deve jamais contar com a sorte ou com a impunidade, mas abster-se da prática do ato infame quando a tentação bater-lhe à porta, recorrendo a Deus e à Consciência a fim de que se mantenha sempre ético, honrado, digno e moral.
*Paulo Márcio é delegado de Polícia Civil, graduado em Direito (UFS), especialista em Gestão Estratégica em Segurança Pública (UFS), especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal (Fa-Se) e colunista do Universo Politico.com/Contato: paulomarcioramos@oi.com.br
Tornou-se cada vez mais comum, nos dias que correm, assistirmos à execração pública de pessoas até então tidas como moralmente idôneas, honradas, acima de qualquer suspeita. Assim, de uma hora para outra, o indivíduo antes ungido com o óleo da moralidade passa a ser pichado com a graxa da indecência, da infâmia, da desonestidade. Imediatamente estampa-se-lhe na testa, sem apelo, o selo da imoralidade. Seus amigos logo se afastam; sua família, humilhada, esconde-se, e ele, centro de todas as atenções, debate-se como animal assustado, que intui a morte aproximar-se nos corredores sombrios do matadouro. Há pouco que fazer nessas horas, na medida em que o primeiro julgamento é sempre moral e, por isso mesmo, sumário, daí a celeridade do rito e a certeza da condenação. Ademais, temerosos da ira da opinião pública – este ente tão perverso e por vezes injusto -, nessa fase poucos se arriscam a defendê-lo, e, quando o fazem, quase sempre agem movidos por interesses inconfessáveis, embora ouçam, na câmara secreta de sua consciência, uma voz que lhes alerta sobre o erro e a insensatez de abraçar uma causa que vai de encontro aos altaneiros valores da sociedade.
No âmbito de todos os poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) e nas três esferas de governo (federal, estadual e municipal) vem ganhando força um movimento que pugna pela moralidade administrativa. Tal movimento assemelha-se a uma onda, mais do que isso, a um tsunami que percorre silencioso os bastidores do poder e, subitaneamente, invade as praias atrativas, tranquilas e paradisíacas da corrupção, do crime organizado e da impunidade, provocando alvoroço, medo, paralisia e muita indignação naqueles que, acostumados ao prazer e ao deleite proporcionados pelo dinheiro público desviado, ignoram que a principal característica da realidade é a própria impermanência... E como nada há de durar para sempre, é no bojo das constantes e efervescentes transformações sociais que novos valores surgem e afirmam-se, destronando pouco a pouco antigas e nefandas práticas ainda encontradiças em nosso meio social.
A moral não é monopólio de nenhum povo, de nenhum partido político, de nenhum grupo religioso, de nenhuma categoria profissional, mas uma conquista, um valor, um ideal que pode e deve ser perseguido e alcançado por todo e qualquer indivíduo participante da vida gregária, na medida em que é um produto cultural relativizado no tempo e no espaço, cuja validade só se pode observar e aferir nos relacionamentos interpessoais, no trato com a coisa pública e na capacidade de servir e ser útil ao grupo social no qual o indivíduo está inserido.
Assim, não basta ao indivíduo inflar os pulmões e bradar aos quatro cantos que é honesto, moral, decente, para que seja reconhecido como tal, sobretudo quando os fatos e as circunstâncias dizem exatamente o contrário. Esse tipo de comportamento, aliás, quase sempre seguido de ataques furiosos e veementes a outros indivíduos, além de soar arrogante e inadequada, geralmente revela um conflito psicológico do qual o sujeito é portador. Não raro, trata-se de uma clara projeção psicológica, mecanismo mediante o qual o indivíduo projeta no outro aquelas características que rejeita em si próprio, características essas trancafiadas nos porões do seu inconsciente e transferidas amiúde para este ou aquele alvo, contra quem lança toda sorte de impropérios e acusações levianas sem perceber que na verdade é ele próprio quem, inconscientemente, coloca-se na alça de mira de sua própria fúria e indignação. Daí H.G. Wells ter afirmado que “indignação moral é inveja com auréola”.
Convém, portanto, pôr as barbas de molho diante daqueles que se arvoram na condição de “seres morais”. Primeiro, porque a moralidade não se resume a uma questão de retórica; antes constitui uma postura em face dos desafios impostos pela vida, sobremaneira quando o indivíduo é colocado diante de facilidades que lhe despertam interesses egoístas e pouco nobres. Segundo, porquanto ela não é característica inata, mas um apanágio do indivíduo que logrou alcançar um nível consciencial que lhe permite discernir o certo e o errado, o bem e o mal – abstraído qualquer maniqueísmo -, e fazer sua escolha livremente, sempre de forma ética, construtiva e edificante.
Mas, como diferenciar o “ser moral” do “indivíduo imoral”? Seria isso possível? Bem, é óbvio que não existe fórmula ou método infalível para esse mister. Jesus Cristo, no entanto, vaticinou que podemos reconhecer a árvore pelos frutos. Assim, se a árvore for boa, dará bons frutos; sendo má, dará maus frutos. Portanto, para o Mestre Nazareno, desde que não possamos sondar os aspectos subjetivos do indivíduo, cabe-nos recorrer ao exame de suas obras, ações e tantas outras realizações externas, de maneira que logremos, a partir do estudo dos aspectos exteriores, aferir, ainda que parcialmente, as qualidades morais daqueles que nos circundam e com quem interagimos.
O místico indiano Bhagwa Shree Rajneesh, mais conhecido como Osho, parte de uma premissa bem diferente, qual seja, a de que a moralidade, sendo tão-somente um substituto pobre da religião dos buda – fundada no desapego e na compaixão -, possui um caráter puramente utilitário, permitindo apenas que as pessoas convivam umas com as outras sem se autodestruírem. Nega, por conseguinte, a existência do homem moral, afirmando que “os moralistas não são realmente morais – eles estão vivendo uma vida dupla: na superfície, morais, mas, na realidade, tão imorais quanto qualquer outra pessoa ou até mesmo mais. Talvez a moralidade deles esteja presente para esconder suas atividades ilegais. E todos parecem estar no mesmo barco. Do mais baixo trabalhador ao homem que detém o posto mais alto, o primeiro-ministro ou o presidente do país, parece que todos estão no mesmo barco.”
Osho é ainda mais radical ao asseverar: “Parece que um homem só é moral até ser capturado. Assim, a diferença entre o moral e o imoral é somente esta: de ser ou não capturado”. E para não ser capturado – complementamos -, o homem não deve jamais contar com a sorte ou com a impunidade, mas abster-se da prática do ato infame quando a tentação bater-lhe à porta, recorrendo a Deus e à Consciência a fim de que se mantenha sempre ético, honrado, digno e moral.
*Paulo Márcio é delegado de Polícia Civil, graduado em Direito (UFS), especialista em Gestão Estratégica em Segurança Pública (UFS), especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal (Fa-Se) e colunista do Universo Politico.com/Contato: paulomarcioramos@oi.com.br
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
*Autoridade e Poder
Pedro Estadão*
...Mahatma Ghandi, nunca teve qualquer espécie de poder, no entanto, a demonstração da sua autoridade moral e política era de tal forma elevada que levou 800 milhões de indianos a seguirem incontestavelmente a sua liderança.
Há uma diferença essencial entre os conceitos de autoridade e poder, é que o poder é factual enquanto que a autoridade é relativa, todos temos certo grau de autoridade, que podemos exercer, enquanto que o poder é exclusivo de quem tenha uma determinada posição que prevalece sobre as demais. O poder é capacidade de fazer, enquanto que autoridade é capacidade de fazer crescer. De fato, a autoridade é a capacidade de autor e o autor é aquele que faz crescer, defende-se que a autoridade é o valor que se reconhece a uma pessoa que é capaz de nos fazer crescer num dado aspecto, um exemplo deste conceito é fácil de apresentar: Um Professor de qualquer disciplina é, para nós, uma autoridade nessa área enquanto nos possa ensinar algo, depois disso, deixamos de lhe reconhecer autoridade.
A autoridade tem de ser reconhecida pelo outro, enquanto o poder, não. Autoridade* e poder não são sinônimos. Autoridade vem do Latim “autoritas”, que se traduz livremente como “capacidade de autor”. Poder tem origem no latim “potestas”. Em política, “autoridade” é frequentemente confundida com “poder”, no direito Romano, “auctoritas” é usado em oposição a “potestas” ou a “imperium”. Um Senador, na política romana, não era um magistrado, trabalhava somente ao nível da influência pessoal, detendo autoridade sem deter poder. O significado de “autoridade” difere do significado de poder, por este último significar a capacidade de atingir certos fins e a primeira, a legitimidade, justificação e o direito de atingí-los. Temos, neste caso o exemplo de Mohandas Ghandi, que nunca teve qualquer espécie de poder, no entanto, a demonstração da sua autoridade moral e política era de tal forma elevada que levou 800 milhões de indianos a seguirem incontestavelmente a sua liderança.
Paradoxalmente, costumamos referir-nos aos Policiais como agentes da autoridade, o que, de fato, não são, o que são é agentes do poder, tornam-se agentes de autoridade somente quando são capazes de nos fazer perceber, por meio da sua autoridade pessoal e não pelo poder que lhes está conferido, que certa ou determinada atitude ou ação não é moralmente correta. O poder está ligado à Lei e a autoridade está ligada à legitimidade. Um agente de polícia nunca pode abusar da autoridade, somente pode abusar do poder.
Max Webber, na sua obra “Conceitos Básicos de Sociologia”, afirma, “Por poder entende-se cada oportunidade ou possibilidade existente numa relação social que permite a um indivíduo cumprir a sua própria vontade”.
Grande parte do debate sociológico recente sobre o “poder”, gira em torno do problema de definir a sua natureza como permissiva ou restritiva. Nestes termos, o “poder” pode ser visto como um conjunto de maneiras de restringir a ação humana, mas também como aquilo que permite que a ação seja possível, pelo menos dentro de certa medida. Grande parte desta discussão está relacionada com os trabalhos de Foucault que, na sequência de Maquiavel, vê o “poder” como “uma complexa situação estratégica numa determinada sociedade”. Sendo meramente estrutural, o conceito de Foucault engloba tanto as características restritivas como as permissivas.
A imposição não requer necessariamente da coação (força ou ameaça de força). Assim, o “poder”, no sentido sociológico, inclui tanto o poder físico como o poder político, a par de muitos outros tipos de poder existentes.
Poder-se-ia definir o “poder” como a maior ou menor capacidade unilateral (real ou percebida) ou potencial de produzir mudanças significativas, tipicamente, sobre as vidas de outras pessoas, através das ações realizadas pelo próprio ou através de terceiros.
A utilização do poder com base numa interpretação evolucionista aplicada aos indivíduos está relacionada com a finalidade de permitir a uma pessoa desenvolver-se até ao mais elevado nível de conforto que possa alcançar dentro da sua esfera social.
Depois de percebermos isto, acrescenta-se que o poder está relacionado com o verbo ter, ou se tem ou não se tem poder. A autoridade está relacionada com o verbo ser, ou se é ou não se é uma autoridade. Apesar do exercício do poder ser endêmico nas comunidades humanas, é efetivamente a autoridade que provoca as mudanças, pois trabalha ao nível do ser e não ao nível do ter, o que se tem, pode ser retirado, enquanto que o que se é apenas pode ser transformado. Afirma-se, por isso, que a liderança exercida no campo da autoridade é sempre melhor recebida que quando é exercida no campo do poder, e isso faz toda a diferença quando o papel do líder é entendido com um objetivo de transformação da realidade.
*Pedro Estadão
Barreiro, Portugal.
Comentário:
*Penso que a autoridade acima descrita trata-se de uma autoridade informal naturalmente adquirida, por meio da índole e de outros recursos inerentes a determinada pessoa - exemplo de pais, professores, patrões, já a formal designação de Autoridade é decorrente do poder que o investido em cargo administrativo, judicial, policial ou político exerce por determinado tempo. Ou seja; a autoridade que o poder institucional – público, lhe outorga, delega. Essa autoridade é específica, restrita a um âmbito do poder, limitada e sob controle da lei. Dentre os que exercem uma autoridade natural, muitos depois se revelam maquiavélicos e com intenções questionáveis e são, também naturalmente, afastados dos seus postos. Isso acontece principalmente nos líderes emergentes nas comunidades carentes, nos sindicatos...
Alberto Magalhães
...Mahatma Ghandi, nunca teve qualquer espécie de poder, no entanto, a demonstração da sua autoridade moral e política era de tal forma elevada que levou 800 milhões de indianos a seguirem incontestavelmente a sua liderança.
Há uma diferença essencial entre os conceitos de autoridade e poder, é que o poder é factual enquanto que a autoridade é relativa, todos temos certo grau de autoridade, que podemos exercer, enquanto que o poder é exclusivo de quem tenha uma determinada posição que prevalece sobre as demais. O poder é capacidade de fazer, enquanto que autoridade é capacidade de fazer crescer. De fato, a autoridade é a capacidade de autor e o autor é aquele que faz crescer, defende-se que a autoridade é o valor que se reconhece a uma pessoa que é capaz de nos fazer crescer num dado aspecto, um exemplo deste conceito é fácil de apresentar: Um Professor de qualquer disciplina é, para nós, uma autoridade nessa área enquanto nos possa ensinar algo, depois disso, deixamos de lhe reconhecer autoridade.
A autoridade tem de ser reconhecida pelo outro, enquanto o poder, não. Autoridade* e poder não são sinônimos. Autoridade vem do Latim “autoritas”, que se traduz livremente como “capacidade de autor”. Poder tem origem no latim “potestas”. Em política, “autoridade” é frequentemente confundida com “poder”, no direito Romano, “auctoritas” é usado em oposição a “potestas” ou a “imperium”. Um Senador, na política romana, não era um magistrado, trabalhava somente ao nível da influência pessoal, detendo autoridade sem deter poder. O significado de “autoridade” difere do significado de poder, por este último significar a capacidade de atingir certos fins e a primeira, a legitimidade, justificação e o direito de atingí-los. Temos, neste caso o exemplo de Mohandas Ghandi, que nunca teve qualquer espécie de poder, no entanto, a demonstração da sua autoridade moral e política era de tal forma elevada que levou 800 milhões de indianos a seguirem incontestavelmente a sua liderança.
Paradoxalmente, costumamos referir-nos aos Policiais como agentes da autoridade, o que, de fato, não são, o que são é agentes do poder, tornam-se agentes de autoridade somente quando são capazes de nos fazer perceber, por meio da sua autoridade pessoal e não pelo poder que lhes está conferido, que certa ou determinada atitude ou ação não é moralmente correta. O poder está ligado à Lei e a autoridade está ligada à legitimidade. Um agente de polícia nunca pode abusar da autoridade, somente pode abusar do poder.
Max Webber, na sua obra “Conceitos Básicos de Sociologia”, afirma, “Por poder entende-se cada oportunidade ou possibilidade existente numa relação social que permite a um indivíduo cumprir a sua própria vontade”.
Grande parte do debate sociológico recente sobre o “poder”, gira em torno do problema de definir a sua natureza como permissiva ou restritiva. Nestes termos, o “poder” pode ser visto como um conjunto de maneiras de restringir a ação humana, mas também como aquilo que permite que a ação seja possível, pelo menos dentro de certa medida. Grande parte desta discussão está relacionada com os trabalhos de Foucault que, na sequência de Maquiavel, vê o “poder” como “uma complexa situação estratégica numa determinada sociedade”. Sendo meramente estrutural, o conceito de Foucault engloba tanto as características restritivas como as permissivas.
A imposição não requer necessariamente da coação (força ou ameaça de força). Assim, o “poder”, no sentido sociológico, inclui tanto o poder físico como o poder político, a par de muitos outros tipos de poder existentes.
Poder-se-ia definir o “poder” como a maior ou menor capacidade unilateral (real ou percebida) ou potencial de produzir mudanças significativas, tipicamente, sobre as vidas de outras pessoas, através das ações realizadas pelo próprio ou através de terceiros.
A utilização do poder com base numa interpretação evolucionista aplicada aos indivíduos está relacionada com a finalidade de permitir a uma pessoa desenvolver-se até ao mais elevado nível de conforto que possa alcançar dentro da sua esfera social.
Depois de percebermos isto, acrescenta-se que o poder está relacionado com o verbo ter, ou se tem ou não se tem poder. A autoridade está relacionada com o verbo ser, ou se é ou não se é uma autoridade. Apesar do exercício do poder ser endêmico nas comunidades humanas, é efetivamente a autoridade que provoca as mudanças, pois trabalha ao nível do ser e não ao nível do ter, o que se tem, pode ser retirado, enquanto que o que se é apenas pode ser transformado. Afirma-se, por isso, que a liderança exercida no campo da autoridade é sempre melhor recebida que quando é exercida no campo do poder, e isso faz toda a diferença quando o papel do líder é entendido com um objetivo de transformação da realidade.
*Pedro Estadão
Barreiro, Portugal.
Comentário:
*Penso que a autoridade acima descrita trata-se de uma autoridade informal naturalmente adquirida, por meio da índole e de outros recursos inerentes a determinada pessoa - exemplo de pais, professores, patrões, já a formal designação de Autoridade é decorrente do poder que o investido em cargo administrativo, judicial, policial ou político exerce por determinado tempo. Ou seja; a autoridade que o poder institucional – público, lhe outorga, delega. Essa autoridade é específica, restrita a um âmbito do poder, limitada e sob controle da lei. Dentre os que exercem uma autoridade natural, muitos depois se revelam maquiavélicos e com intenções questionáveis e são, também naturalmente, afastados dos seus postos. Isso acontece principalmente nos líderes emergentes nas comunidades carentes, nos sindicatos...
Alberto Magalhães
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
*Ecce Homo
Clóvis Barbosa (*)
Em meio a um debate sobre o comportamento dos juízes, quiseram saber se qualificaria como “omissa” a decisão tomada por Pilatos contra Cristo. Repliquei que não. “Desprezível”, foi a resposta, “na acepção mais diminutiva que puder ser atribuída à palavra”. E expliquei por que empregara termo suficientemente carregado de menosprezo e rejeição. Pilatos é asqueroso e repulsivo não por aquilo que o afamou (o suposto ato de abster-se quanto à condenação de Jesus). Não. A conduta que verdadeiramente o realça não é a da neutralidade quanto ao assassinato do redentor, pois ele decidiu. A dramaturgia abjeta, estampada na sujeira moral de lavar as mãos, não implicou uma renúncia à prerrogativa de sentenciar, mas redundou num pronunciamento de submissão à chantagem da ralé farisaica (que insinuara ser a libertação de Cristo um atentado contra a soberania do imperador). E, nisso, o prefeito da Judéia tremeu.
Pensem comigo. Que reação esperar de covardes, ali onde são postos diante dum jogo de sonora inevitabilidade? Gente sem couraça e dinamismo de caráter logo argüi a incompetência para deliberar como válvula de escape. Foi o primeiro recurso de que Pilatos lançou mão. Ao saber que o réu, sobre o qual pesava a imputação de blasfêmia (porquanto se tivesse apresentado como a própria divindade), era egresso da Galiléia, driblou a pressão da turba, declarando que só Herodes podia debruçar-se sobre a suposta infração. Com isso, ainda conseguiu reatar laços com o governante da província vizinha, seu desafeto até então. O desmiolado, porém, ao invés de ater-se ao libelo que os adversários de Jesus irrogavam, armou uma patacoada e fez estridente panavoeiro circense, exigindo de Cristo a realização de milagres, em troca da absolvição. Ante o silêncio do acusado, tomou-o por louco e o devolveu para Pilatos.
Sendo Páscoa, o prefeito partiu para aquilo que, contemporaneamente, chamaríamos “plano b”. Utilizou a tradição de libertar alguém contra quem tivesse sido prolatada pena capital. Medroso, em vez de ele próprio emancipar o homem que sabia inocente, apostou naquilo que, estrategicamente, era a logística do comodismo. Pinçou Barrabás, o mais seboso, dentre os delinqüentes presos nas masmorras, pondo-o ao lado do nazareno, a fim de compelir a multidão a ser compassiva. Seria um despautério anistiar o outro, contra quem pesavam medonhos antecedentes. Barrabás era um assassino contumaz, estuprador detestável e ladrão repugnante. Na fragilidade mental que intoxicava o pensamento de Pilatos, o povo nunca optaria por ver solto um câncer dessa dimensão. Mas optou. “Dê-nos Barrabás”. Mas também restava a Pilatos o uso da chantagem. Canalhas sempre se impõem a função enlameada do chantagista.
Mandou trazer água. Nela, pretendeu lavar as mãos do sangue dum justo. “Minhas mãos estão limpas do sangue deste homem”. “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”, rebateu a multidão. “Ele disse ser o seu rei. Vocês matariam o seu rei?”. “Não temos rei, senão César. Se você não matá-lo, irá pôr-se contra César, nosso único rei”. Foi o quanto bastou. Agora, embora de mãos lavadas, Pilatos viu-se emporcalhado. E, chafurdando, decidiu. Aqui surge o dado que poucos equacionam. Lavar as mãos não foi deixar de decidir. Lavar as mãos traduziu um estelionato litúrgico de auto-justificação, como quem diz que decide contra seus princípios, mas porque as amarras que lhe impuseram não o deixaram solto para decidir como a voz de sua consciência balbuciava. Algo semelhante àquilo que, hoje, alguns poucos juízes com diarréia fazem, laureando marginais sob escusa de serem serviçais da lei.
Não contemporizo. O magistrado que desejar manter as mãos limpas, não as lava com água, mas com princípios. Tércio Ferraz Jr., por exemplo, ensina que sentenças são normas. Ensina, ademais, que sentenças estarão imunizadas, ou seja, respaldadas quando acharem amparo em normas superiores que as sustentem. Nesse sentido, e apesar de uma sentença não poder ser proferida contra a lei, ela também não pode sê-lo para tutelar o mal. Aí, ele se vale da ilustração do homem que constrói uma chaminé, dentro das regras urbanísticas municipais, não porque queira uma chaminé, não porque ela lhe seja realmente útil, mas porque quer projetar sombra sobre a piscina do vizinho. Pela lei, ele estaria alinhado. Mas o judiciário, enfrentando o formalismo da lei (em respeito à justiça, enquanto princípio fundamental do Direito), determina a demolição da chaminé. Decisão contra a lei. Mas a favor do que é bom e correto.
Daí, meu irredutível desprezo por Pilatos. Apegado à formalidade e à insana demagogia dos fariseus, imolou um justo e livrou um pilantra. De mãos “limpas”, mas com o espírito encardido, suicidou-se quatro anos após, chantageado por Calígula. É o fim de juízes cartilaginosos: ser encobertos pelos escombros duma chaminé, destroçada pela justiça do tempo.**
(*) Bacharel em Direito, ex Presidente da OAB/SE, ex Secretário de Estado de Governo de Sergipe e atual Conselheiro do Tribunal de Contas/SE.
(**) Publicado no Jornal da Cidade, Aju-SE, edição de dom 10 e seg 11, 2010, B-9.
Em meio a um debate sobre o comportamento dos juízes, quiseram saber se qualificaria como “omissa” a decisão tomada por Pilatos contra Cristo. Repliquei que não. “Desprezível”, foi a resposta, “na acepção mais diminutiva que puder ser atribuída à palavra”. E expliquei por que empregara termo suficientemente carregado de menosprezo e rejeição. Pilatos é asqueroso e repulsivo não por aquilo que o afamou (o suposto ato de abster-se quanto à condenação de Jesus). Não. A conduta que verdadeiramente o realça não é a da neutralidade quanto ao assassinato do redentor, pois ele decidiu. A dramaturgia abjeta, estampada na sujeira moral de lavar as mãos, não implicou uma renúncia à prerrogativa de sentenciar, mas redundou num pronunciamento de submissão à chantagem da ralé farisaica (que insinuara ser a libertação de Cristo um atentado contra a soberania do imperador). E, nisso, o prefeito da Judéia tremeu.
Pensem comigo. Que reação esperar de covardes, ali onde são postos diante dum jogo de sonora inevitabilidade? Gente sem couraça e dinamismo de caráter logo argüi a incompetência para deliberar como válvula de escape. Foi o primeiro recurso de que Pilatos lançou mão. Ao saber que o réu, sobre o qual pesava a imputação de blasfêmia (porquanto se tivesse apresentado como a própria divindade), era egresso da Galiléia, driblou a pressão da turba, declarando que só Herodes podia debruçar-se sobre a suposta infração. Com isso, ainda conseguiu reatar laços com o governante da província vizinha, seu desafeto até então. O desmiolado, porém, ao invés de ater-se ao libelo que os adversários de Jesus irrogavam, armou uma patacoada e fez estridente panavoeiro circense, exigindo de Cristo a realização de milagres, em troca da absolvição. Ante o silêncio do acusado, tomou-o por louco e o devolveu para Pilatos.
Sendo Páscoa, o prefeito partiu para aquilo que, contemporaneamente, chamaríamos “plano b”. Utilizou a tradição de libertar alguém contra quem tivesse sido prolatada pena capital. Medroso, em vez de ele próprio emancipar o homem que sabia inocente, apostou naquilo que, estrategicamente, era a logística do comodismo. Pinçou Barrabás, o mais seboso, dentre os delinqüentes presos nas masmorras, pondo-o ao lado do nazareno, a fim de compelir a multidão a ser compassiva. Seria um despautério anistiar o outro, contra quem pesavam medonhos antecedentes. Barrabás era um assassino contumaz, estuprador detestável e ladrão repugnante. Na fragilidade mental que intoxicava o pensamento de Pilatos, o povo nunca optaria por ver solto um câncer dessa dimensão. Mas optou. “Dê-nos Barrabás”. Mas também restava a Pilatos o uso da chantagem. Canalhas sempre se impõem a função enlameada do chantagista.
Mandou trazer água. Nela, pretendeu lavar as mãos do sangue dum justo. “Minhas mãos estão limpas do sangue deste homem”. “Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos”, rebateu a multidão. “Ele disse ser o seu rei. Vocês matariam o seu rei?”. “Não temos rei, senão César. Se você não matá-lo, irá pôr-se contra César, nosso único rei”. Foi o quanto bastou. Agora, embora de mãos lavadas, Pilatos viu-se emporcalhado. E, chafurdando, decidiu. Aqui surge o dado que poucos equacionam. Lavar as mãos não foi deixar de decidir. Lavar as mãos traduziu um estelionato litúrgico de auto-justificação, como quem diz que decide contra seus princípios, mas porque as amarras que lhe impuseram não o deixaram solto para decidir como a voz de sua consciência balbuciava. Algo semelhante àquilo que, hoje, alguns poucos juízes com diarréia fazem, laureando marginais sob escusa de serem serviçais da lei.
Não contemporizo. O magistrado que desejar manter as mãos limpas, não as lava com água, mas com princípios. Tércio Ferraz Jr., por exemplo, ensina que sentenças são normas. Ensina, ademais, que sentenças estarão imunizadas, ou seja, respaldadas quando acharem amparo em normas superiores que as sustentem. Nesse sentido, e apesar de uma sentença não poder ser proferida contra a lei, ela também não pode sê-lo para tutelar o mal. Aí, ele se vale da ilustração do homem que constrói uma chaminé, dentro das regras urbanísticas municipais, não porque queira uma chaminé, não porque ela lhe seja realmente útil, mas porque quer projetar sombra sobre a piscina do vizinho. Pela lei, ele estaria alinhado. Mas o judiciário, enfrentando o formalismo da lei (em respeito à justiça, enquanto princípio fundamental do Direito), determina a demolição da chaminé. Decisão contra a lei. Mas a favor do que é bom e correto.
Daí, meu irredutível desprezo por Pilatos. Apegado à formalidade e à insana demagogia dos fariseus, imolou um justo e livrou um pilantra. De mãos “limpas”, mas com o espírito encardido, suicidou-se quatro anos após, chantageado por Calígula. É o fim de juízes cartilaginosos: ser encobertos pelos escombros duma chaminé, destroçada pela justiça do tempo.**
(*) Bacharel em Direito, ex Presidente da OAB/SE, ex Secretário de Estado de Governo de Sergipe e atual Conselheiro do Tribunal de Contas/SE.
(**) Publicado no Jornal da Cidade, Aju-SE, edição de dom 10 e seg 11, 2010, B-9.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
*A banalidade do mal
Clóvis Barbosa (*)
ADOLF EICHMAN. Constrangedor atingir um sono tranqüilo após ler Eichman em Jerusalém, obra da cientista social judia Hannah Arendt. Baseado em recortes biográficos que possuía acerca do oficial do terceiro reich, supus, durante algum tempo, tratar-se de uma fera assustadora, brutal, medonha, violenta. Via-o enquanto um sangüinário, capaz de, com as próprias mãos, extrair escalpos das vítimas. Tal noção, por si só, já o tornava um demônio de fisionomia desgastante para olhos mais sensíveis. Hannah Arendt, porém, extirpou de mim o mito, apavorando-me com a existência de algo capaz de extrapolar o arquétipo de leviatã que projetei para o nazista. Eichman não passava de um burocrata. Espantoso. Por que, então, outorgar a um artífice do carimbo, do clipe e do grampeador a honorável distinção emblemática de o .executor-chefe. do Estado alemão? O impasse resolve-se na esfera psicológica. Psicológica? Mas por que não moral? É possível trabalhar com as duas estruturas na condução do caso. Psicologicamente, a engenharia mental de Eichman estava mapeada segundo ângulos que se projetavam para a direção de um terreno singularmente demarcado: a psicopatia. Psicopatas não são doentes mentais. Tampouco, deficientes mentais. Doença mental é o distúrbio que afeta o elemento psíquico .percepção., a exemplo da esquizofrenia. Esquizofrênicos enxergam coisas que não existem no mundo real. Já a deficiência mental é a enfermidade que alcança o psiquismo no âmbito da .inteligência.. Por exemplo, a tríade oligofrênica: debilidade, imbecilidade e idiotia. Psicopatia, entretanto, não é nem doença, nem deficiência. É uma condição, inata e irreversível. Ser psicopata equipara-se a ser branco, negro ou índio. Assim como um índio nasceu e morrerá índio, um psicopata nasce e morre psicopata.
PIERREPOINT. Essas reflexões me impelem a traçar um paralelo entre Eichman e outro psicopata, semelhantemente sedutor, o inglês Pierrepoint. Com efeito, ambos foram artesãos na escrituração da morte. Segundo consignado pela historiografia, Eichman não estava preocupado com a justiça ou com a injustiça da execução em massa dos judeus. Sua irresignação moral partia do seguinte princípio: liquidar judeus era uma política do Estado ao qual servia. Portanto, operacionalizar o extermínio desse povo implicava tão-somente mais uma etapa da cadeia engrenada por fases matematicamente estabelecidas, a exemplo de fazer a triagem dos que iriam morrer, levá-los aos trens que os transportariam até a zona de execução, cumprir
rigorosamente horários de saída e de chegada das locomotivas, conduzir os condenados a câmaras de gás e, por fim, matá-los. Na mente de Eichman, nada disso consubstanciava crime. A logística da denominada .solução final. assumia cores semelhantes às que permeiam os armários de um escritório de contabilidade. Judeus mortos eram apenas números, vistos sem índice moral. Nesse sentido, Eichman banalizou o mal, transformando a fattispecie numa atividade instrumental. Aniquilar judeus, para Eichman, não era algo mau e, tampouco, bom, mas só uma instância, dentro do processo de sedimentação da filosofia nacional-socialista, de cuja implementação a manutenção de seu status dependia. Da mesma maneira que um comerciante de livros precisava vender mais compêndios para garantir o emprego, Eichman se notabilizou
como workaholic na matança de judeus para ascender na escala de respeitabilidade do establishment nazista. A essa postura, desprovida de sentimento ou valoração, vazia de compaixão, piedade ou até mesmo de raiva, Hannah Arendt chamou .banalização do mal. Alguém, cuja pulsação sangüínea coordene-se pela moralidade afeta à noção de bem e mal, sabe que a ação nazista foi perversa. Essa assertiva não se subordina a digressões para encontrar pálio de validade. Ali onde, todavia, burocratas vêem a trucidação de humanos com indiferença, conferindo-lhes a envergadura de códigos de barra, o mal passa a ser corriqueiro,
trivial, como resolver uma equação de álgebra. Na Grã-Bretanha, Pierrepoint, o legendário carrasco dos 608 enforcados, pouco se importava se matava culpados ou inocentes (vítimas de erros judiciários). Catalogava seu cemitério pessoal meticulosamente num caderno. A função que o Estado lhe deu foi a de levar delinqüentes ao cadafalso. Queria cumprir seu múnus com extremo profissionalismo, procurando ser, inclusive, o mais rápido dentre os colegas de trabalho. Igualmente, banalizou a morte, disfarçando-a atrás da performance institucional.
SIMON WIESENTHAL. O ultimato ao qual pretendemos chegar é lúdico: há os psicopatas, como Eichman e Pierrepoint, para os quais pouco importa se o que fazem é bom ou mau, pois o mal é uma banalidade. Cumprir a formalidade do sistema está acima de aferir o tônus de justiça. Existiu, por outro lado, Simon Wiesenthal. Judeu. Sobrevivente do campo de Mauthausen. Finda a guerra, atribuiu-se a missão de caçar nazistas foragidos. Capturou 1100. Dentre esses, Eichman, em 1960, que estava escondido na Argentina, vivendo sob o nome Ricardo Klement. Wiesenthal passou por cima da lei. Chefiando o Mossad, entrou clandestinamente na Argentina e seqüestrou Eichman, que, levado a Jerusalém, foi julgado, condenado à morte e executado, ainda que, em Israel, não se admitisse a pena capital. Acontece que executar Eichman era bom e justo. Isso distingue psicopatas formalistas dos homens de honra. Triste. Ao preço de banalizar o mal, libertaram Abdelmassih, facínora que abusou de dezenas de pacientes. Afinal de contas, a formalidade da lei o autorizava. Libertar Abdelmassih é ver suas vítimas como cifras. Seqüestrar Eichman foi ver suas vítimas como almas. As mesmas que Pierrepoint fazia questão de lavar, após a execução. Sinceramente, entre a toxicidade de uma lei gasosa e a grandeza salutar de para ela fechar os olhos em busca de justiça, incluo-me no plantel de Wiesenthal. Para fraturar o pescoço de um nazista, entre a segunda e terceira vértebras, é lícito olvidar a lei que o anistia. **
(*) Bacharel em Direito, ex Presidente da OAB/SE, ex Secretário de Estado de Governo de Sergipe e atual Conselheiro do Tribunal de Contas/SE.
(**)Texto publicado no Jornal da Cidade, Aju-SE, dom 3 e seg 4, janeiro de 2010.
ADOLF EICHMAN. Constrangedor atingir um sono tranqüilo após ler Eichman em Jerusalém, obra da cientista social judia Hannah Arendt. Baseado em recortes biográficos que possuía acerca do oficial do terceiro reich, supus, durante algum tempo, tratar-se de uma fera assustadora, brutal, medonha, violenta. Via-o enquanto um sangüinário, capaz de, com as próprias mãos, extrair escalpos das vítimas. Tal noção, por si só, já o tornava um demônio de fisionomia desgastante para olhos mais sensíveis. Hannah Arendt, porém, extirpou de mim o mito, apavorando-me com a existência de algo capaz de extrapolar o arquétipo de leviatã que projetei para o nazista. Eichman não passava de um burocrata. Espantoso. Por que, então, outorgar a um artífice do carimbo, do clipe e do grampeador a honorável distinção emblemática de o .executor-chefe. do Estado alemão? O impasse resolve-se na esfera psicológica. Psicológica? Mas por que não moral? É possível trabalhar com as duas estruturas na condução do caso. Psicologicamente, a engenharia mental de Eichman estava mapeada segundo ângulos que se projetavam para a direção de um terreno singularmente demarcado: a psicopatia. Psicopatas não são doentes mentais. Tampouco, deficientes mentais. Doença mental é o distúrbio que afeta o elemento psíquico .percepção., a exemplo da esquizofrenia. Esquizofrênicos enxergam coisas que não existem no mundo real. Já a deficiência mental é a enfermidade que alcança o psiquismo no âmbito da .inteligência.. Por exemplo, a tríade oligofrênica: debilidade, imbecilidade e idiotia. Psicopatia, entretanto, não é nem doença, nem deficiência. É uma condição, inata e irreversível. Ser psicopata equipara-se a ser branco, negro ou índio. Assim como um índio nasceu e morrerá índio, um psicopata nasce e morre psicopata.
PIERREPOINT. Essas reflexões me impelem a traçar um paralelo entre Eichman e outro psicopata, semelhantemente sedutor, o inglês Pierrepoint. Com efeito, ambos foram artesãos na escrituração da morte. Segundo consignado pela historiografia, Eichman não estava preocupado com a justiça ou com a injustiça da execução em massa dos judeus. Sua irresignação moral partia do seguinte princípio: liquidar judeus era uma política do Estado ao qual servia. Portanto, operacionalizar o extermínio desse povo implicava tão-somente mais uma etapa da cadeia engrenada por fases matematicamente estabelecidas, a exemplo de fazer a triagem dos que iriam morrer, levá-los aos trens que os transportariam até a zona de execução, cumprir
rigorosamente horários de saída e de chegada das locomotivas, conduzir os condenados a câmaras de gás e, por fim, matá-los. Na mente de Eichman, nada disso consubstanciava crime. A logística da denominada .solução final. assumia cores semelhantes às que permeiam os armários de um escritório de contabilidade. Judeus mortos eram apenas números, vistos sem índice moral. Nesse sentido, Eichman banalizou o mal, transformando a fattispecie numa atividade instrumental. Aniquilar judeus, para Eichman, não era algo mau e, tampouco, bom, mas só uma instância, dentro do processo de sedimentação da filosofia nacional-socialista, de cuja implementação a manutenção de seu status dependia. Da mesma maneira que um comerciante de livros precisava vender mais compêndios para garantir o emprego, Eichman se notabilizou
como workaholic na matança de judeus para ascender na escala de respeitabilidade do establishment nazista. A essa postura, desprovida de sentimento ou valoração, vazia de compaixão, piedade ou até mesmo de raiva, Hannah Arendt chamou .banalização do mal. Alguém, cuja pulsação sangüínea coordene-se pela moralidade afeta à noção de bem e mal, sabe que a ação nazista foi perversa. Essa assertiva não se subordina a digressões para encontrar pálio de validade. Ali onde, todavia, burocratas vêem a trucidação de humanos com indiferença, conferindo-lhes a envergadura de códigos de barra, o mal passa a ser corriqueiro,
trivial, como resolver uma equação de álgebra. Na Grã-Bretanha, Pierrepoint, o legendário carrasco dos 608 enforcados, pouco se importava se matava culpados ou inocentes (vítimas de erros judiciários). Catalogava seu cemitério pessoal meticulosamente num caderno. A função que o Estado lhe deu foi a de levar delinqüentes ao cadafalso. Queria cumprir seu múnus com extremo profissionalismo, procurando ser, inclusive, o mais rápido dentre os colegas de trabalho. Igualmente, banalizou a morte, disfarçando-a atrás da performance institucional.
SIMON WIESENTHAL. O ultimato ao qual pretendemos chegar é lúdico: há os psicopatas, como Eichman e Pierrepoint, para os quais pouco importa se o que fazem é bom ou mau, pois o mal é uma banalidade. Cumprir a formalidade do sistema está acima de aferir o tônus de justiça. Existiu, por outro lado, Simon Wiesenthal. Judeu. Sobrevivente do campo de Mauthausen. Finda a guerra, atribuiu-se a missão de caçar nazistas foragidos. Capturou 1100. Dentre esses, Eichman, em 1960, que estava escondido na Argentina, vivendo sob o nome Ricardo Klement. Wiesenthal passou por cima da lei. Chefiando o Mossad, entrou clandestinamente na Argentina e seqüestrou Eichman, que, levado a Jerusalém, foi julgado, condenado à morte e executado, ainda que, em Israel, não se admitisse a pena capital. Acontece que executar Eichman era bom e justo. Isso distingue psicopatas formalistas dos homens de honra. Triste. Ao preço de banalizar o mal, libertaram Abdelmassih, facínora que abusou de dezenas de pacientes. Afinal de contas, a formalidade da lei o autorizava. Libertar Abdelmassih é ver suas vítimas como cifras. Seqüestrar Eichman foi ver suas vítimas como almas. As mesmas que Pierrepoint fazia questão de lavar, após a execução. Sinceramente, entre a toxicidade de uma lei gasosa e a grandeza salutar de para ela fechar os olhos em busca de justiça, incluo-me no plantel de Wiesenthal. Para fraturar o pescoço de um nazista, entre a segunda e terceira vértebras, é lícito olvidar a lei que o anistia. **
(*) Bacharel em Direito, ex Presidente da OAB/SE, ex Secretário de Estado de Governo de Sergipe e atual Conselheiro do Tribunal de Contas/SE.
(**)Texto publicado no Jornal da Cidade, Aju-SE, dom 3 e seg 4, janeiro de 2010.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
O sagrado e a Rede Globo
Marcos Vinicius Gomes*
A Rede Globo tem veiculado ultimamente alguns vídeos institucionais intitulados 'O Sagrado'. Nestes vídeos são abordados temas que com frequência vêm ao foco em debates sobre a condição humana atual. Um destes vídeos desta série, trata do excessivo zelo em busca do corpo perfeito, prática contemporânea inclusive difundida e estimulada pelos meios de comunicação. Nesta propaganda, o locutor propõe a reflexão do assunto enfocando que atualmente as pessoas estão buscando apenas o aprimoramento estético e deixando a procura por valores mais duradores e transcendentais (transcendental é tudo aquilo que antecede ou ultrapassa qualquer experiência). Enquanto o locutor fala, são mostradas cenas de pessoas fazendo exercícios em academias, ou então buscando serviços estéticos variados. Por fim aparece um representante da Igreja Católica reiterando a fala do locutor sobre o tema abordado, num discurso assumidamente religioso. Nas outras propagandas da série 'O Sagrado' outros religiosos de diversas crenças colaboram com seus pontos de vista sobre a temática abordada, sempre com uma perspectiva de resgate de valores morais em falta nos dias atuais, evidentemente embasados, em seus comentários, nos dogmas das religiões que professam. No final de cada vídeo aparece a trindade global em seus logotipos - Rede Globo, Fundação Roberto Marinho e canal Futura.
Soa estranho uma emissora como a Rede Globo vir a público com estas investidas metafísicas (metafísica aqui pode ser classificada como 'ramo da filosofia que busca explicar a essência do ser', ou então 'qualquer especulação filosófica em geral'). Isso porque sabe-se que a emissora sempre foi criticada - tanto pelo lado conservador quanto pelo progressivo , passando pelo moderado de nossa sociedade - de ser 'veículo desvirtuador' desta mesma sociedade juntamente com seus valores.
Não quero associar a expressão 'veículo desvirtuador' sob a conotação religiosa, apesar de ter sido uma propaganda com conotação religiosa o motivador deste texto. Excessos existiram na história da televisão e a Globo teve sua contribuição neste quesito. Porém, a contribuição para os 'desvirtuamentos' desta sociedade, vai além de estereótipos ou de preconceitos de vários tipos presenciados na programação da emissora carioca. Assim a contribuição social negativa da Rede Globo ultrapassa o discurso distorcido das novelas das oito dos anos noventa, onde as personagens femininas nordestinas eram assumidamente 'assanhadas', ultrapassa os ícones globais como Xuxa e sua 'filha de proveta multimídia' Sacha, que teve seu nascimento mostrado em rede nacional e vai muito além dos seriados juvenis com adolescentes que tem como dilema máximo de suas vidas não saber qual garota escolher para namorar. A Globo pode ser desvirtuadora em alguns aspectos sim, mas o é com prioridade no campo político e institucional.
Isso porque a Rede Globo, no quesito político apoiou o regime militar criado em 1964 até o fim, tirando grande proveito da permanência dos militares no poder. Manipulou em 1982 a divulgação dos resultados das eleições para governador do Rio de Janeiro, numa clara tentativa de prejudicar Leonel Brizola. A emissora deu uma 'força' na trajetória de Fernando Collor de Mello, tendo antes de sua eleição manipulado a edição de um debate para presidência em 1989 a favor de Collor em detrimento ao candidato Lula. Também há o caso da Nec, empresa comprada por Roberto Marinho nos anos oitenta a 'preço de banana' após uma jogada política patrocinada pelo amigo e então Ministro das Comunicações Antônio Carlos Magalhães.
Qual a relação então entre as propagandas institucionais 'O Sagrado' com a trajetória da Rede Globo de escândalos, manipulações, uso indevido dos veículos que é dona para forjar tendências? Tem uma forte relação, porque como emissora representante do conservadorismo, usa todos os meios disponíveis para atender os interesses do establishment ('grupo dominante'). Após quinhentos anos no poder, as forças conservadoras temem por ter que esperar mais um período de ostracismo para uma eventual volta. Enquanto não conseguem, apelam para todo tipo de argumentos - válidos e não válidos - para difundir suas idéias. E aqui entra o discurso religioso-transcendental, estratégia comum já vista na história recente do país. Basta recordarmos que no período pré-golpe de 64, grupos religiosos liderados por 'senhoras de família' da sociedade paulistana saíram pelas ruas de São Paulo na 'Marcha da Família com Deus pela Liberdade', carregando faixas com frases do tipo 'Senhora Aparecida iluminai os reacionários'. O tom religioso associado à política era a regra e tal marcha foi, para os militares e seus aliados, a 'autorização popular' para o regime que viria trazendo junto o atraso político, social e econômico.
Esta abordagem religiosa de temas contemporâneos com seus problemas e desafios soa como uma tentativa renovada de 'distinção política' aos olhos da opinião pública como vista no pré-golpe de 1964. Ao mostrar zelo comunitário, apontando as não-virtudes da sociedade contemporânea num enfoque religioso, a Rede Globo quer mesmo desmembrar-se de sua parcela de responsabilidades para com esta mesma sociedade a qual critica. Focando para o lado transcendental, a emissora esvazia-se dos vícios por ela patrocinados nestes anos todos, esperando que a sociedade veja neste ato a sublimação de uma parcela da elite histórica a qual ela representa. Uma elite que, apesar de mudados os sistemas políticos e econômicos nacionais, continua sua articulação para manter o Brasil a seu serviço, nem que isso custe o retorno ao atraso. Atraso contra o qual lutamos tanto e continuamos lutando dia e noite para apagá-lo de nossas trajetórias.
*Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa, em São Paulo.
A Rede Globo tem veiculado ultimamente alguns vídeos institucionais intitulados 'O Sagrado'. Nestes vídeos são abordados temas que com frequência vêm ao foco em debates sobre a condição humana atual. Um destes vídeos desta série, trata do excessivo zelo em busca do corpo perfeito, prática contemporânea inclusive difundida e estimulada pelos meios de comunicação. Nesta propaganda, o locutor propõe a reflexão do assunto enfocando que atualmente as pessoas estão buscando apenas o aprimoramento estético e deixando a procura por valores mais duradores e transcendentais (transcendental é tudo aquilo que antecede ou ultrapassa qualquer experiência). Enquanto o locutor fala, são mostradas cenas de pessoas fazendo exercícios em academias, ou então buscando serviços estéticos variados. Por fim aparece um representante da Igreja Católica reiterando a fala do locutor sobre o tema abordado, num discurso assumidamente religioso. Nas outras propagandas da série 'O Sagrado' outros religiosos de diversas crenças colaboram com seus pontos de vista sobre a temática abordada, sempre com uma perspectiva de resgate de valores morais em falta nos dias atuais, evidentemente embasados, em seus comentários, nos dogmas das religiões que professam. No final de cada vídeo aparece a trindade global em seus logotipos - Rede Globo, Fundação Roberto Marinho e canal Futura.
Soa estranho uma emissora como a Rede Globo vir a público com estas investidas metafísicas (metafísica aqui pode ser classificada como 'ramo da filosofia que busca explicar a essência do ser', ou então 'qualquer especulação filosófica em geral'). Isso porque sabe-se que a emissora sempre foi criticada - tanto pelo lado conservador quanto pelo progressivo , passando pelo moderado de nossa sociedade - de ser 'veículo desvirtuador' desta mesma sociedade juntamente com seus valores.
Não quero associar a expressão 'veículo desvirtuador' sob a conotação religiosa, apesar de ter sido uma propaganda com conotação religiosa o motivador deste texto. Excessos existiram na história da televisão e a Globo teve sua contribuição neste quesito. Porém, a contribuição para os 'desvirtuamentos' desta sociedade, vai além de estereótipos ou de preconceitos de vários tipos presenciados na programação da emissora carioca. Assim a contribuição social negativa da Rede Globo ultrapassa o discurso distorcido das novelas das oito dos anos noventa, onde as personagens femininas nordestinas eram assumidamente 'assanhadas', ultrapassa os ícones globais como Xuxa e sua 'filha de proveta multimídia' Sacha, que teve seu nascimento mostrado em rede nacional e vai muito além dos seriados juvenis com adolescentes que tem como dilema máximo de suas vidas não saber qual garota escolher para namorar. A Globo pode ser desvirtuadora em alguns aspectos sim, mas o é com prioridade no campo político e institucional.
Isso porque a Rede Globo, no quesito político apoiou o regime militar criado em 1964 até o fim, tirando grande proveito da permanência dos militares no poder. Manipulou em 1982 a divulgação dos resultados das eleições para governador do Rio de Janeiro, numa clara tentativa de prejudicar Leonel Brizola. A emissora deu uma 'força' na trajetória de Fernando Collor de Mello, tendo antes de sua eleição manipulado a edição de um debate para presidência em 1989 a favor de Collor em detrimento ao candidato Lula. Também há o caso da Nec, empresa comprada por Roberto Marinho nos anos oitenta a 'preço de banana' após uma jogada política patrocinada pelo amigo e então Ministro das Comunicações Antônio Carlos Magalhães.
Qual a relação então entre as propagandas institucionais 'O Sagrado' com a trajetória da Rede Globo de escândalos, manipulações, uso indevido dos veículos que é dona para forjar tendências? Tem uma forte relação, porque como emissora representante do conservadorismo, usa todos os meios disponíveis para atender os interesses do establishment ('grupo dominante'). Após quinhentos anos no poder, as forças conservadoras temem por ter que esperar mais um período de ostracismo para uma eventual volta. Enquanto não conseguem, apelam para todo tipo de argumentos - válidos e não válidos - para difundir suas idéias. E aqui entra o discurso religioso-transcendental, estratégia comum já vista na história recente do país. Basta recordarmos que no período pré-golpe de 64, grupos religiosos liderados por 'senhoras de família' da sociedade paulistana saíram pelas ruas de São Paulo na 'Marcha da Família com Deus pela Liberdade', carregando faixas com frases do tipo 'Senhora Aparecida iluminai os reacionários'. O tom religioso associado à política era a regra e tal marcha foi, para os militares e seus aliados, a 'autorização popular' para o regime que viria trazendo junto o atraso político, social e econômico.
Esta abordagem religiosa de temas contemporâneos com seus problemas e desafios soa como uma tentativa renovada de 'distinção política' aos olhos da opinião pública como vista no pré-golpe de 1964. Ao mostrar zelo comunitário, apontando as não-virtudes da sociedade contemporânea num enfoque religioso, a Rede Globo quer mesmo desmembrar-se de sua parcela de responsabilidades para com esta mesma sociedade a qual critica. Focando para o lado transcendental, a emissora esvazia-se dos vícios por ela patrocinados nestes anos todos, esperando que a sociedade veja neste ato a sublimação de uma parcela da elite histórica a qual ela representa. Uma elite que, apesar de mudados os sistemas políticos e econômicos nacionais, continua sua articulação para manter o Brasil a seu serviço, nem que isso custe o retorno ao atraso. Atraso contra o qual lutamos tanto e continuamos lutando dia e noite para apagá-lo de nossas trajetórias.
*Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa, em São Paulo.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Os Juízes vão editar os jornais em lugar dos Jornalistas?
Por Eugênio Bucci em 17/12/2009
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 17/12/2009; intertítulos do OI
Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou inadequado e arquivou o pedido do Estado de S.Paulo para que fosse extinta a censura prévia que sobre o jornal se vem abatendo há vários meses. Os fundamentos da decisão apontam para razões formais, processuais, mas seu efeito de mérito é inequívoco: O Estado de S.Paulo segue impedido de publicar notícias sobre a Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, que investiga atividades do empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney.
Estamos diante de uma ironia trágica. O jornal foi castigado não por ter agido com irresponsabilidade, mas por ter cumprido o seu dever. O excelente trabalho dos repórteres Rosa Costa, Leandro Colon e Rodrigo Rangel, que, no primeiro semestre, revelou os atos secretos do Senado, entre outras irregularidades, recebeu, no início de dezembro, o Prêmio Esso de 2009, mas antes, no dia 31 de julho, mereceu outro tipo de reconhecimento, este macabro: a censura prévia por via judicial. Na prática, a despeito de justificativas processuais, foi essa violência que o Supremo corroborou.
De repente, a sociedade viu-se atirada a um constrangimento quase indescritível. Durante o julgamento do pedido do Estado, o presidente do STF, Gilmar Mendes, comparou o caso ao episódio da Escola Base, de 1994, quando uma pequena escola, do bairro da Aclimação, em São Paulo, foi vítima de um inquérito policial conduzido de forma espalhafatosa pelo delegado encarregado, gerando uma avalanche de notícias sensacionalistas que arruinaram a reputação dos donos da instituição.
"Desvio bárbaro"
Em sua edição de 11 de dezembro, este jornal reproduziu as palavras de Mendes:
"Se tivesse havido naquele caso uma intervenção judicial, infelizmente não houve, que tivesse impedido aquele delegado, mancomunado com órgão de imprensa, de divulgar aquele fato, aquela estrutura toda escolar e familiar teria sido preservada. E não foi."
A analogia é perversa. Ela vem sugerir que o mal da imprensa no Brasil é a falta de tutela; estivessem os juízes mobilizados para impor censuras prévias a granel e os erros jornalísticos não mais aconteceriam.
Poucas vezes uma inversão de valores foi tão longe na nossa Corte Suprema. Esqueceu-se o presidente do STF de que, durante a ditadura militar, as arbitrariedades praticadas pelas autoridades policiais não eram sequer noticiadas, e nem por isso famílias deixaram de ser destroçadas pela truculência. Não foi por excesso de reportagens, mas exatamente por escassez, que a tirania encontrou espaços para se impor sobre o país. A imprensa não agrava, mas previne o arbítrio, ainda que cometa erros – como efetivamente cometeu no caso da Escola Base.
Agora, estamos à mercê da mentalidade equivocada que foi expressa por Gilmar Mendes. Se generalizada, ela pode nos abrir um cenário sufocante, como bem alertou, em artigo publicado ontem nesta mesma página, Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Estado (ver "Todos seremos melhores com a imprensa livre"):
"Instituições de diversas naturezas demandarão o Judiciário para impedir a realização de reportagens que julguem, por mera presunção, incômodas – e a sociedade jamais poderá comprovar. Corruptores e corrompidos, governantes que não cumprem metas, organizações que desrespeitam a lei, o meio ambiente e os consumidores: todos terão a chance de encontrar no Judiciário o escudo para esconder da fiscalização do público o que poderia vir a ser de elevado interesse para todos. E quem poderá dizer em que casos a cautela antecipada não se transformará em impunidade pré-adquirida? Os juizados se verão abarrotados de demandas baseadas na imaginação do que pode vir a acontecer, e não em fatos concretos. A edição final passará pelos juízes, um desvio bárbaro no método e no tempo. Ruim para as duas atividades, péssimo para as mínimas chances de transparência e debate públicos."
Princípios democráticos
Para complicar o cenário, alguns, em apoio à intromissão de juízes nos afazeres da imprensa, alegam que a investigação sobre as operações de Fernando Sarney tramitam em sigilo de Justiça e, por isso, não podem ser objeto do noticiário. Nada mais enganoso. A sociedade não pode ficar refém daquilo que os Poderes de Estado consideram ou não consideram sigiloso. Bem ao contrário, a democracia precisa da imprensa justamente porque ela é a única instituição capaz de tornar públicas as decisões que o poder gostaria de tomar às escondidas. Pense bem o leitor: para que uma sociedade precisa de jornais livres senão para revelar segredos? O que é uma notícia senão um segredo revelado? Eis aí o núcleo da missão da imprensa: investigar e fiscalizar o poder, informando o cidadão. Sem isso não há segurança democrática.
Guardar o sigilo de Justiça é função dos juízes. A função da imprensa é descobri-lo e, a partir daí, considerar a necessidade de publicá-lo. Em liberdade. A posteriori, e apenas a posteriori, ela poderá ser responsabilizada, aí sim, na Justiça, pelos excessos em que vier a incorrer.
Não custa lembrar que em momento algum as reportagens do Estado "premiadas" com a mordaça invadiram a intimidade familiar de quem quer que fosse. Elas apenas trataram de assuntos de clamoroso interesse público, apenas levaram ao cidadão aquilo que é seu direito conhecer. A prevalecer a decisão que se vem mantendo até aqui, o Judiciário não está protegendo privacidades. Talvez de forma inadvertida, está simplesmente amparando interesses privados que guardam vínculos mal explicados com o poder público.
Agora, resta torcer para que, nos lances do processo que ainda estão por vir, os princípios democráticos sejam repostos. Assim como jornalistas, juízes também erram. Assim como jornalistas, que saibam se corrigir.
Fonte: observatoriodaimprensa.com.br
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 17/12/2009; intertítulos do OI
Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou inadequado e arquivou o pedido do Estado de S.Paulo para que fosse extinta a censura prévia que sobre o jornal se vem abatendo há vários meses. Os fundamentos da decisão apontam para razões formais, processuais, mas seu efeito de mérito é inequívoco: O Estado de S.Paulo segue impedido de publicar notícias sobre a Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, que investiga atividades do empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney.
Estamos diante de uma ironia trágica. O jornal foi castigado não por ter agido com irresponsabilidade, mas por ter cumprido o seu dever. O excelente trabalho dos repórteres Rosa Costa, Leandro Colon e Rodrigo Rangel, que, no primeiro semestre, revelou os atos secretos do Senado, entre outras irregularidades, recebeu, no início de dezembro, o Prêmio Esso de 2009, mas antes, no dia 31 de julho, mereceu outro tipo de reconhecimento, este macabro: a censura prévia por via judicial. Na prática, a despeito de justificativas processuais, foi essa violência que o Supremo corroborou.
De repente, a sociedade viu-se atirada a um constrangimento quase indescritível. Durante o julgamento do pedido do Estado, o presidente do STF, Gilmar Mendes, comparou o caso ao episódio da Escola Base, de 1994, quando uma pequena escola, do bairro da Aclimação, em São Paulo, foi vítima de um inquérito policial conduzido de forma espalhafatosa pelo delegado encarregado, gerando uma avalanche de notícias sensacionalistas que arruinaram a reputação dos donos da instituição.
"Desvio bárbaro"
Em sua edição de 11 de dezembro, este jornal reproduziu as palavras de Mendes:
"Se tivesse havido naquele caso uma intervenção judicial, infelizmente não houve, que tivesse impedido aquele delegado, mancomunado com órgão de imprensa, de divulgar aquele fato, aquela estrutura toda escolar e familiar teria sido preservada. E não foi."
A analogia é perversa. Ela vem sugerir que o mal da imprensa no Brasil é a falta de tutela; estivessem os juízes mobilizados para impor censuras prévias a granel e os erros jornalísticos não mais aconteceriam.
Poucas vezes uma inversão de valores foi tão longe na nossa Corte Suprema. Esqueceu-se o presidente do STF de que, durante a ditadura militar, as arbitrariedades praticadas pelas autoridades policiais não eram sequer noticiadas, e nem por isso famílias deixaram de ser destroçadas pela truculência. Não foi por excesso de reportagens, mas exatamente por escassez, que a tirania encontrou espaços para se impor sobre o país. A imprensa não agrava, mas previne o arbítrio, ainda que cometa erros – como efetivamente cometeu no caso da Escola Base.
Agora, estamos à mercê da mentalidade equivocada que foi expressa por Gilmar Mendes. Se generalizada, ela pode nos abrir um cenário sufocante, como bem alertou, em artigo publicado ontem nesta mesma página, Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Estado (ver "Todos seremos melhores com a imprensa livre"):
"Instituições de diversas naturezas demandarão o Judiciário para impedir a realização de reportagens que julguem, por mera presunção, incômodas – e a sociedade jamais poderá comprovar. Corruptores e corrompidos, governantes que não cumprem metas, organizações que desrespeitam a lei, o meio ambiente e os consumidores: todos terão a chance de encontrar no Judiciário o escudo para esconder da fiscalização do público o que poderia vir a ser de elevado interesse para todos. E quem poderá dizer em que casos a cautela antecipada não se transformará em impunidade pré-adquirida? Os juizados se verão abarrotados de demandas baseadas na imaginação do que pode vir a acontecer, e não em fatos concretos. A edição final passará pelos juízes, um desvio bárbaro no método e no tempo. Ruim para as duas atividades, péssimo para as mínimas chances de transparência e debate públicos."
Princípios democráticos
Para complicar o cenário, alguns, em apoio à intromissão de juízes nos afazeres da imprensa, alegam que a investigação sobre as operações de Fernando Sarney tramitam em sigilo de Justiça e, por isso, não podem ser objeto do noticiário. Nada mais enganoso. A sociedade não pode ficar refém daquilo que os Poderes de Estado consideram ou não consideram sigiloso. Bem ao contrário, a democracia precisa da imprensa justamente porque ela é a única instituição capaz de tornar públicas as decisões que o poder gostaria de tomar às escondidas. Pense bem o leitor: para que uma sociedade precisa de jornais livres senão para revelar segredos? O que é uma notícia senão um segredo revelado? Eis aí o núcleo da missão da imprensa: investigar e fiscalizar o poder, informando o cidadão. Sem isso não há segurança democrática.
Guardar o sigilo de Justiça é função dos juízes. A função da imprensa é descobri-lo e, a partir daí, considerar a necessidade de publicá-lo. Em liberdade. A posteriori, e apenas a posteriori, ela poderá ser responsabilizada, aí sim, na Justiça, pelos excessos em que vier a incorrer.
Não custa lembrar que em momento algum as reportagens do Estado "premiadas" com a mordaça invadiram a intimidade familiar de quem quer que fosse. Elas apenas trataram de assuntos de clamoroso interesse público, apenas levaram ao cidadão aquilo que é seu direito conhecer. A prevalecer a decisão que se vem mantendo até aqui, o Judiciário não está protegendo privacidades. Talvez de forma inadvertida, está simplesmente amparando interesses privados que guardam vínculos mal explicados com o poder público.
Agora, resta torcer para que, nos lances do processo que ainda estão por vir, os princípios democráticos sejam repostos. Assim como jornalistas, juízes também erram. Assim como jornalistas, que saibam se corrigir.
Fonte: observatoriodaimprensa.com.br
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
* Robin Williams e a 'Síndrome do Amigo Universal'
Por Marcos Vinicius Gomes*
O ator americano Robin Williams em entrevista ao 'Late Show' de David Letterman fez uma piada relacionada à conquista das Olimpíadas de 2016 pelo Rio de Janeiro - o Rio desbancou fortes cidades concorrentes como Madri, Praga e Tóquio, além de Chicago. Williams disse que a cidade de Chicago enviou Oprah Winfrey e Michelle Obama nas disputa, mas o Rio de Janeiro tinha mandado 50 strippers e meio quilo de cocaína (e segundo ele isso foi uma competição injusta). A entrevista está no Youtube com inúmeros acessos e vários comentários criticando a piada do humorista.
Não é a primeira vez que os brasileiros se sentem incomodados com estereótipos que os estrangeiros associam a nós. Essas declarações, como a de Williams, são feitas por personalidades, políticos ou são então colocadas em obras de ficção, referindo-se ao Brasil ora como um lugar corrupto ou violento, ora sexualmente paradisíaco. Um episódio notável e que pode ser relacionado aos comentários equivocados de Williams é o da série animada Os Simpsons, onde a família que dá nome ao seriado vem ao Rio passear e encontra apenas uma cidade selvagem, habitada por cobras e macacos enfim, uma cidade violenta, degradada e lasciva.
Foi-se o tempo em que o brasileiro era excessivamente complexado. O jornalista e escritor Nelson Rodrigues até analisou nosso complexo de inferioridade, nossa pouca auto-estima classificando-a como 'complexo de cachorro vira-lata'. Hoje o brasileiro parece mais confiante em si e no país, mesmo com os incontáveis problemas sociais e estruturais que impedem nosso pleno desenvolvimento.
Entretanto o brasileiro ainda precisa, no geral, de indicadores externos que alavanquem sua autoconfiança numa leitura de si mesmo. Vejamos uma situação onde o sentimento de nação é mais notado - no esporte. É comum em transmissões de eventos esportivos internacionais um ufanismo nacionalista misturado com uma miopia sobre a visão que o brasileiro tem de si. Se o complexo de vira-latas é coisa do passado, agora o que reina é uma espécie de 'Síndrome do Amigo Universal'. A 'Síndrome do Amigo Universal' é o sentimento coletivo de que somos boa gente, amado por todos. Enquanto outros povos aniquilam-se em conflitos, questões territoriais, em xenofobias, massacres nós, brasileiros, vivemos harmoniosamente, cordialmente e fazemos questão de que os estrangeiros vejam estas virtudes em nós. E ficamos orgulhosos quando os outros tem esta mesma percepção. É o mito do 'homem cordial' versão globalizada, exportada para vários países.
Lembro-me de uma transmissão de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 onde o narrador Galvão Bueno comentava a boa recepção da delegação brasileira no Estádio Olímpico no dia da inauguração dos jogos. Ele asociou a relativa ovação dos atletas brasileiros pelas torcidas rivais ao 'sentimento de simpatia' que o brasileiro desperta no imaginário estrangeiro. Algo que é nato a todos nós, aquela coisa meio 'o mundo nos ama, vejam só!'. Este sentimento que Galvão quis exaltar na ocasião parece-se mais com o antigo complexo de vira-lata, mas só que repaginado: nós somos bons no que fazemos (em algumas coisas), somos amistosos, simpáticos, cordiais. É a imagem de que eles tem de nós é essa. Gostamos disso e isso nos basta.
Se quisermos amadurecer como povo e nação, esta visão distorcida - a 'Síndrome do Amigo Universal' - que encobre problemas seculares enraizados em nosso país precisa ser substituída por algo mais consistente e que traga benefícios efetivos a todo o nosso país. Para começar, poderíamos prestar mais atenção ao que escreveu Stanislaw Ponte Preta em uma de suas crônicas onde afirmava: "O brasileiro precisa parar de achar que é mais esperto que os outros". É disso que precisamos. Robin Williams não é culpado por toda a tragédia social que é o tráfico de drogas no Brasil, juntamente com a cultura da exploração sexual e violência contra mulheres. Estes problemas estão aí, apenas encobertos pela nuvem do ufanismo, do auto-engano que não nos deixa planejarmos alternativas e buscarmos saídas para estas questões. Precisamos parar de sermos os 'espertos' que apenas buscam paliativos, evitando ao máximo procurar o problema na raiz, não querendo correr os riscos e as consequências que esta atitude possa ocasionar. Enquanto não aprendermos a buscar nossos problemas a fundo, continuaremos reféns dos melindres a todos os comentários que cheguem até nós mostrando nossas feridas mais latentes, algumas abertas há séculos e ainda não totalmente cicatrizadas.
*Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa, em São Paulo.
O ator americano Robin Williams em entrevista ao 'Late Show' de David Letterman fez uma piada relacionada à conquista das Olimpíadas de 2016 pelo Rio de Janeiro - o Rio desbancou fortes cidades concorrentes como Madri, Praga e Tóquio, além de Chicago. Williams disse que a cidade de Chicago enviou Oprah Winfrey e Michelle Obama nas disputa, mas o Rio de Janeiro tinha mandado 50 strippers e meio quilo de cocaína (e segundo ele isso foi uma competição injusta). A entrevista está no Youtube com inúmeros acessos e vários comentários criticando a piada do humorista.
Não é a primeira vez que os brasileiros se sentem incomodados com estereótipos que os estrangeiros associam a nós. Essas declarações, como a de Williams, são feitas por personalidades, políticos ou são então colocadas em obras de ficção, referindo-se ao Brasil ora como um lugar corrupto ou violento, ora sexualmente paradisíaco. Um episódio notável e que pode ser relacionado aos comentários equivocados de Williams é o da série animada Os Simpsons, onde a família que dá nome ao seriado vem ao Rio passear e encontra apenas uma cidade selvagem, habitada por cobras e macacos enfim, uma cidade violenta, degradada e lasciva.
Foi-se o tempo em que o brasileiro era excessivamente complexado. O jornalista e escritor Nelson Rodrigues até analisou nosso complexo de inferioridade, nossa pouca auto-estima classificando-a como 'complexo de cachorro vira-lata'. Hoje o brasileiro parece mais confiante em si e no país, mesmo com os incontáveis problemas sociais e estruturais que impedem nosso pleno desenvolvimento.
Entretanto o brasileiro ainda precisa, no geral, de indicadores externos que alavanquem sua autoconfiança numa leitura de si mesmo. Vejamos uma situação onde o sentimento de nação é mais notado - no esporte. É comum em transmissões de eventos esportivos internacionais um ufanismo nacionalista misturado com uma miopia sobre a visão que o brasileiro tem de si. Se o complexo de vira-latas é coisa do passado, agora o que reina é uma espécie de 'Síndrome do Amigo Universal'. A 'Síndrome do Amigo Universal' é o sentimento coletivo de que somos boa gente, amado por todos. Enquanto outros povos aniquilam-se em conflitos, questões territoriais, em xenofobias, massacres nós, brasileiros, vivemos harmoniosamente, cordialmente e fazemos questão de que os estrangeiros vejam estas virtudes em nós. E ficamos orgulhosos quando os outros tem esta mesma percepção. É o mito do 'homem cordial' versão globalizada, exportada para vários países.
Lembro-me de uma transmissão de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 onde o narrador Galvão Bueno comentava a boa recepção da delegação brasileira no Estádio Olímpico no dia da inauguração dos jogos. Ele asociou a relativa ovação dos atletas brasileiros pelas torcidas rivais ao 'sentimento de simpatia' que o brasileiro desperta no imaginário estrangeiro. Algo que é nato a todos nós, aquela coisa meio 'o mundo nos ama, vejam só!'. Este sentimento que Galvão quis exaltar na ocasião parece-se mais com o antigo complexo de vira-lata, mas só que repaginado: nós somos bons no que fazemos (em algumas coisas), somos amistosos, simpáticos, cordiais. É a imagem de que eles tem de nós é essa. Gostamos disso e isso nos basta.
Se quisermos amadurecer como povo e nação, esta visão distorcida - a 'Síndrome do Amigo Universal' - que encobre problemas seculares enraizados em nosso país precisa ser substituída por algo mais consistente e que traga benefícios efetivos a todo o nosso país. Para começar, poderíamos prestar mais atenção ao que escreveu Stanislaw Ponte Preta em uma de suas crônicas onde afirmava: "O brasileiro precisa parar de achar que é mais esperto que os outros". É disso que precisamos. Robin Williams não é culpado por toda a tragédia social que é o tráfico de drogas no Brasil, juntamente com a cultura da exploração sexual e violência contra mulheres. Estes problemas estão aí, apenas encobertos pela nuvem do ufanismo, do auto-engano que não nos deixa planejarmos alternativas e buscarmos saídas para estas questões. Precisamos parar de sermos os 'espertos' que apenas buscam paliativos, evitando ao máximo procurar o problema na raiz, não querendo correr os riscos e as consequências que esta atitude possa ocasionar. Enquanto não aprendermos a buscar nossos problemas a fundo, continuaremos reféns dos melindres a todos os comentários que cheguem até nós mostrando nossas feridas mais latentes, algumas abertas há séculos e ainda não totalmente cicatrizadas.
*Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa, em São Paulo.
* Data da posse dos Desembargadores de Sergipe
• Desembargadora Clara Leite de Rezende (nov/1984)
• Desembargadora Marilza Maynard Salgado de Carvalho (nov/1997)
• Desembargador Roberto Eugênio da Fonseca Porto (dez/2000)
• Desembargador José Alves Neto (mar/2002)
• Desembargador Cláudio Dinart Déda Chagas (ago/2003)
• Desembargadora Célia Pinheiro Silva Menezes (out/2004)
• Desembargador Luiz Antônio Araújo Mendonça (jun/2005)
• Desembargador Cezário Siqueira Neto (dez/2005)
• Desembargadora Maria Aparecida Santos Gama da Silva (dez/2007)
• Desembargador Osório de Araújo Ramos Filho (jan/2008)
• Desembargador Netônio Bezerra Machado (mar/2008)
• Desembargador Edson Ulisses de Melo (abr/2008)
• Desembargadora Suzana Maria C. Oliveira (ago/2008)
Os nomes grifados já assumiram a presidência do TJ, o próximo Presidente será o Dr. José Alves Neto e o seguinte será o Dr. Cláudio Déda. Segue-se a ordem de nomeação no cargo. A Dra. Célia Pinheiro – na qualidade de Vice Presidente – assumiu a presidência, em profícua gestão, em razão da aposentadoria compulsória do Dr. Artêmio Barreto, então Presidente do TJ.
Alberto Magalhães
• Desembargadora Marilza Maynard Salgado de Carvalho (nov/1997)
• Desembargador Roberto Eugênio da Fonseca Porto (dez/2000)
• Desembargador José Alves Neto (mar/2002)
• Desembargador Cláudio Dinart Déda Chagas (ago/2003)
• Desembargadora Célia Pinheiro Silva Menezes (out/2004)
• Desembargador Luiz Antônio Araújo Mendonça (jun/2005)
• Desembargador Cezário Siqueira Neto (dez/2005)
• Desembargadora Maria Aparecida Santos Gama da Silva (dez/2007)
• Desembargador Osório de Araújo Ramos Filho (jan/2008)
• Desembargador Netônio Bezerra Machado (mar/2008)
• Desembargador Edson Ulisses de Melo (abr/2008)
• Desembargadora Suzana Maria C. Oliveira (ago/2008)
Os nomes grifados já assumiram a presidência do TJ, o próximo Presidente será o Dr. José Alves Neto e o seguinte será o Dr. Cláudio Déda. Segue-se a ordem de nomeação no cargo. A Dra. Célia Pinheiro – na qualidade de Vice Presidente – assumiu a presidência, em profícua gestão, em razão da aposentadoria compulsória do Dr. Artêmio Barreto, então Presidente do TJ.
Alberto Magalhães
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
* A mulher
Por Isabelle Anchieta
A cultura de meritocracia
(...) Os concursos para escolher a próxima top model multiplicam-se; as revistas insistem em ranquear a mais sexy, a mais popular, a mais bem vestida; os programas de TV selecionam "feias" e "mal-vestidas" para transformar sua estética e, supostamente, sua vida. A magreza, a juventude e a moda embalam e alimentam essa cultura social que promove uma competição destrutiva entre as mulheres. Uma competição emburrecedora, na medida em que é alicerçada em um pilar extremamente limitador para a emancipação feminina: a beleza (enquanto única alternativa de ascensão social).
Criou-se no país, assim como é o futebol para os meninos, a idéia de que a única via do feminino é a beleza – ora através de uma carreira como manequim, ora através de um marido afortunado. É por essa razão que a beleza alheia incomoda, ameaça, na medida em que retira da concorrente a sua suposta "única" alternativa de ter seu lugar ao sol. Nesse sentido, Geisy* foi julgada por um falso moralismo que traveste uma outra questão fundamental: a competição feminina.
Ser bela continua a ser a maior obrigação feminina, patrocinada agora pelas campanhas publicitárias, pela moda e pelo consumo. Uma busca pelo corpo impecável, pela bolsa invejável, pelo cabelo que brilha mais que o das outras. Um sistema que cria, via beleza, mecanismos de controle e competição extremamente limitadores da experiência humana da mulher, enquanto ser humano capaz de múltiplas experiências e transcendências. Não que eu faça aqui um discurso anticapitalista, pois foi ele o único sistema que avançou efetivamente na ruptura do feminino com suas antigas coerções (religiosas e patriarcais) através dos valores laicos e pela consolidação do imaginário social igualitário-democrático que preza pela cultura da meritocracia (ou seja, se você for bom, não importa o sexo, a cor e a etnia, você pode ascender socialmente).
Crueldade feminina volta-se contra a mulher
Claro que não chegamos a um nível de igualdade minimamente aceitável. Segundo dados da revista Exame (2009), das 100 maiores empresas no país nenhuma possui mulheres na presidência. Mas é fato também que avançamos, tanto que a mídia cumpriu, no caso de Geisy, um importante papel ao posicionar-se contra a violência sofrida pela estudante – independente do encantamento ou não de Geisy por sua visibilidade midiática. Isso não desqualifica o ato e a violência, isso não a desqualifica, como querem alguns poucos, na medida em que o acontecimento transcende uma discussão particularizada e revela os atrasos na emancipação feminina no Brasil.
Desejo, por fim, fazer com que essa reflexão não seja apenas um "puxão de orelha" para as mulheres, mas um chamado à sua consciência. Essa delicada e difícil auto-reflexão que nos leva a desvendar tanto os nossos monstros e limites, quanto a nossa cumplicidade com o sistema cultural alienante a que nosso momento histórico nos condiciona. Pois não podemos nos furtar de não considerar que somos co-responsáveis por alimentar esse sistema, e que podemos, sempre, não compactuar com ele. Não somos seres determinados, alienados, dada a nossa capacidade humana, sempre renovada, de desviar o olhar, de não se tornar objeto, de nos emanciparmos e recriarmos a nossa cultura. Pois essa crueldade feminina reverte-se, mais cedo ou mais tarde, contra cada uma de nós.
(*estudante da UNIBAN, agredida por trajar um vestido curto)
Fonte: observatóriodaimprensa.com.br
A cultura de meritocracia
(...) Os concursos para escolher a próxima top model multiplicam-se; as revistas insistem em ranquear a mais sexy, a mais popular, a mais bem vestida; os programas de TV selecionam "feias" e "mal-vestidas" para transformar sua estética e, supostamente, sua vida. A magreza, a juventude e a moda embalam e alimentam essa cultura social que promove uma competição destrutiva entre as mulheres. Uma competição emburrecedora, na medida em que é alicerçada em um pilar extremamente limitador para a emancipação feminina: a beleza (enquanto única alternativa de ascensão social).
Criou-se no país, assim como é o futebol para os meninos, a idéia de que a única via do feminino é a beleza – ora através de uma carreira como manequim, ora através de um marido afortunado. É por essa razão que a beleza alheia incomoda, ameaça, na medida em que retira da concorrente a sua suposta "única" alternativa de ter seu lugar ao sol. Nesse sentido, Geisy* foi julgada por um falso moralismo que traveste uma outra questão fundamental: a competição feminina.
Ser bela continua a ser a maior obrigação feminina, patrocinada agora pelas campanhas publicitárias, pela moda e pelo consumo. Uma busca pelo corpo impecável, pela bolsa invejável, pelo cabelo que brilha mais que o das outras. Um sistema que cria, via beleza, mecanismos de controle e competição extremamente limitadores da experiência humana da mulher, enquanto ser humano capaz de múltiplas experiências e transcendências. Não que eu faça aqui um discurso anticapitalista, pois foi ele o único sistema que avançou efetivamente na ruptura do feminino com suas antigas coerções (religiosas e patriarcais) através dos valores laicos e pela consolidação do imaginário social igualitário-democrático que preza pela cultura da meritocracia (ou seja, se você for bom, não importa o sexo, a cor e a etnia, você pode ascender socialmente).
Crueldade feminina volta-se contra a mulher
Claro que não chegamos a um nível de igualdade minimamente aceitável. Segundo dados da revista Exame (2009), das 100 maiores empresas no país nenhuma possui mulheres na presidência. Mas é fato também que avançamos, tanto que a mídia cumpriu, no caso de Geisy, um importante papel ao posicionar-se contra a violência sofrida pela estudante – independente do encantamento ou não de Geisy por sua visibilidade midiática. Isso não desqualifica o ato e a violência, isso não a desqualifica, como querem alguns poucos, na medida em que o acontecimento transcende uma discussão particularizada e revela os atrasos na emancipação feminina no Brasil.
Desejo, por fim, fazer com que essa reflexão não seja apenas um "puxão de orelha" para as mulheres, mas um chamado à sua consciência. Essa delicada e difícil auto-reflexão que nos leva a desvendar tanto os nossos monstros e limites, quanto a nossa cumplicidade com o sistema cultural alienante a que nosso momento histórico nos condiciona. Pois não podemos nos furtar de não considerar que somos co-responsáveis por alimentar esse sistema, e que podemos, sempre, não compactuar com ele. Não somos seres determinados, alienados, dada a nossa capacidade humana, sempre renovada, de desviar o olhar, de não se tornar objeto, de nos emanciparmos e recriarmos a nossa cultura. Pois essa crueldade feminina reverte-se, mais cedo ou mais tarde, contra cada uma de nós.
(*estudante da UNIBAN, agredida por trajar um vestido curto)
Fonte: observatóriodaimprensa.com.br
domingo, 15 de novembro de 2009
* Educação, bananas e Veja
Por Marcos Vinicius Gomes*
"É o estado que está fazendo porcaria, não o mercado. O que não quer dizer que não haja mercadistas nessa história, que ganhariam dinheiro vendendo educação ou bananas. Não tenho nada contra, uma vez que há quem queira comprar bananas e há quem queira comprar educação. Mas o estado não pode subsidiar uma banana ruim. Assim como não pode subsidiar uma educação ruim. Aliás, o estado não tem de subsidiar nem banana boa!"
Reinaldo Azevedo em seu blog, 14/11/2009
Com esta análise mercadológico-educacional, Reinaldo Azevedo comenta em seu blog questões sobre ensino. A bola foi levantada por uma aluna de uma universidade que enviou em e-mail para o jornalista, criticando a mídia por desqualificar estudantes de instituições particulares de ensino superior.
Reinaldo responde à aluna, dizendo que com seu texto 'levaria pau' quando ele era professor de português. Mas ele não é mais professor de português e agora dedica-se a ensinar a classe média e a comentar sobre a realidade brasileira sob uma ótica ultra-direitista e radical, mostrando um certo preconceito de classe. Ele continua sua 'análise educacional', evidentemente com seu jeito, digamos, 'aguerrido'. Critica o governo atual, pautado, segundo ele, por um 'petismo vagabundo' que estaria desvirtuando o ensino superior distribuindo bolsas do ProUni a 'garçons, taxistas e manicures'. Continua seus arroubos dizendo que "está se oferecendo uma universidade que não oferece vida universitária", diz que "em vez de se abrir um novo horizonte a pessoas vindas de ambientes um tanto acanhados intelectualmente (parece-me que aqui ele está se referindo aos leitores incondicionais de Veja) há instituições por aí que estão apenas referendando esse acanhamento. E a esquerda aplaude — ou parte dela ao menos."
Por fim , Tio Rei, como é conhecido entre seu fiel público, fecha esse 'tratado educacional' com o seguinte impropério:
"O dinheiro que sustenta essa farra não estaria sendo aplicado com mais eficiência num ensino técnico de qualidade, por exemplo? Posso apostar que sim. Nem quero aqui ficar fazendo aquela oposição clássica — ou que já virou um clichê — entre quantidade e qualidade. Já nem se trata mais disso. (...)"
Fiquemos por aqui. Parece que após Otávio Frias Filho endossar em seu periódioco Folha a afirmação que no Brasil houve uma ditadura branda (ou ditabranda), Reinaldo volta ao passado nebuloso dos anos de chumbo, espalhando pelos quatro cantos do Brasil uma mentalidade, uma ideologia educacional obtusa e segregacionista que diz o seguinte :"Ensino superior apenas para a elite, para o proletariado cursos técnicos para uma rápida insersão no mercado de trabalho". Afinal, para que a ralé precisa de conhecimento - digo conhecimento no sentido estrito do terno, conhecimento transformador da realidade, embasado em ideais humanistas - se com apenas um curso técnico ou então , com muita boa vontade, um curso superior tecnólogo no Cefet ou na Fatec paulista, os filhos 'do povo' estarão bem qualificados e ganhando bem no mercado de trabalho cada vez mais competitivo? Para que ter um ensino crítico (notório que existem cursos superiores ruins que devem ser fiscalizados por estarem oferecendo um ensino sofrível) se temos formadores de opinião tão qualificados, intelectuais tão notórios como Demétrio Magnoli ("A escravidão no Brasil foi democrática"), como Jô Soares( 'a vaca sagrada da classe média brasileira') ou então jornalistas como Ali Kamel ("Não somos racistas"), Mainardi e o próprio Reinaldo Azevedo que, com sua 'perspicácia' e 'análises lúcidas' formam o time de 'vestais do pensamento nacional' do qual não temos do que nos envergonhar? Eles bastam para que estejamos bem equipados em questões reflexivas e despendam um pouco de tempo e raciocínio.
O utilitarismo educacional de Reinaldo Azevedo é pautado na ideologia educacional reinante na época da ditadura militar. Ali a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) nº 5692/71 foi embasada na crença de que 'os meios , planejados, controlados adequadamente são suficientes para resultados eficientes'.Essa LDB sugeria um ensino taylorista, direcionado com vistas à 'otimização e eficiência' (termos tão recorrentes ultimamente e associados ao meio corporativo). É um ensino reprodutor do establishment , bancário (conceito de Paulo Freire, educador desprezado por Veja), que incentiva a verticalização social, onde apenas os que conseguissem vencer 'pelos méritos próprios' teriam direito ao ensino de qualidade, fosse técnico ou superior. A LDB 5692/71 foi substituida pela LDB nº 9394/96, já na era democrática, regida por ideais democráticos.
Reinaldo Azevedo e parte da direita, raivosa com os avanços sociais alcançados nos últimos anos, descontente com a melhor distribuição de renda, indignada com o crescimento do país liderado pelo 'presidente inculto', parecem estar desesperados ao evocar, mesmo que de forma indireta, a ideologia que formatou a LDB dos tempos militares. Isso mostra o quanto a mentalidade de nossa elite pode criar quando está perdendo o jogo. Para o ilustre jornalista, nem bananas (deixo a critério da imaginação dos leitores para decifrar o termo) devem ser servidas pelo Estado ao cidadão.
Qual o próximo passo? Editoriais clamando a expansão de vagas no Cefet , na Fatec ou da USP-Leste, com seus cursos 'para pobres', para que o proletariado fique satisfeito com empregos técnicos bem remunerados em multinacionais e pare de exigir o direito ao ensino público de qualidade? Ou quem sabe talvez reproduzir em Veja o pensamento educacional de José Goldenberg, ex-ministro da educação que refutava o EJA (Ensino de Jovens e Adultos) por considerar que ensino para adultos referia-se a 'analfabetos' e que pessoas nessa condição ('analfabetos') já tinham construído um bom lugar na sociedade, sendo de pouca valia investir neles para reverter a situação de penúria educacional. Tradiuzindo , para Goldenberg , o analfabetismo seria eliminado com investimento na educação dos filhos dos analfabetos e com a eliminação natural do analfabetismo no Brasil, a saber, com o deaparecimento cronológico dos analfabetos...Se um Ministro pode ter tal concepção distorcida de ensino, porque então nos espantarmos com o pensamento retrógado de um jornalista a serviço da direita que parece ter perdido o foco?
* Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa, em São Paulo.
"É o estado que está fazendo porcaria, não o mercado. O que não quer dizer que não haja mercadistas nessa história, que ganhariam dinheiro vendendo educação ou bananas. Não tenho nada contra, uma vez que há quem queira comprar bananas e há quem queira comprar educação. Mas o estado não pode subsidiar uma banana ruim. Assim como não pode subsidiar uma educação ruim. Aliás, o estado não tem de subsidiar nem banana boa!"
Reinaldo Azevedo em seu blog, 14/11/2009
Com esta análise mercadológico-educacional, Reinaldo Azevedo comenta em seu blog questões sobre ensino. A bola foi levantada por uma aluna de uma universidade que enviou em e-mail para o jornalista, criticando a mídia por desqualificar estudantes de instituições particulares de ensino superior.
Reinaldo responde à aluna, dizendo que com seu texto 'levaria pau' quando ele era professor de português. Mas ele não é mais professor de português e agora dedica-se a ensinar a classe média e a comentar sobre a realidade brasileira sob uma ótica ultra-direitista e radical, mostrando um certo preconceito de classe. Ele continua sua 'análise educacional', evidentemente com seu jeito, digamos, 'aguerrido'. Critica o governo atual, pautado, segundo ele, por um 'petismo vagabundo' que estaria desvirtuando o ensino superior distribuindo bolsas do ProUni a 'garçons, taxistas e manicures'. Continua seus arroubos dizendo que "está se oferecendo uma universidade que não oferece vida universitária", diz que "em vez de se abrir um novo horizonte a pessoas vindas de ambientes um tanto acanhados intelectualmente (parece-me que aqui ele está se referindo aos leitores incondicionais de Veja) há instituições por aí que estão apenas referendando esse acanhamento. E a esquerda aplaude — ou parte dela ao menos."
Por fim , Tio Rei, como é conhecido entre seu fiel público, fecha esse 'tratado educacional' com o seguinte impropério:
"O dinheiro que sustenta essa farra não estaria sendo aplicado com mais eficiência num ensino técnico de qualidade, por exemplo? Posso apostar que sim. Nem quero aqui ficar fazendo aquela oposição clássica — ou que já virou um clichê — entre quantidade e qualidade. Já nem se trata mais disso. (...)"
Fiquemos por aqui. Parece que após Otávio Frias Filho endossar em seu periódioco Folha a afirmação que no Brasil houve uma ditadura branda (ou ditabranda), Reinaldo volta ao passado nebuloso dos anos de chumbo, espalhando pelos quatro cantos do Brasil uma mentalidade, uma ideologia educacional obtusa e segregacionista que diz o seguinte :"Ensino superior apenas para a elite, para o proletariado cursos técnicos para uma rápida insersão no mercado de trabalho". Afinal, para que a ralé precisa de conhecimento - digo conhecimento no sentido estrito do terno, conhecimento transformador da realidade, embasado em ideais humanistas - se com apenas um curso técnico ou então , com muita boa vontade, um curso superior tecnólogo no Cefet ou na Fatec paulista, os filhos 'do povo' estarão bem qualificados e ganhando bem no mercado de trabalho cada vez mais competitivo? Para que ter um ensino crítico (notório que existem cursos superiores ruins que devem ser fiscalizados por estarem oferecendo um ensino sofrível) se temos formadores de opinião tão qualificados, intelectuais tão notórios como Demétrio Magnoli ("A escravidão no Brasil foi democrática"), como Jô Soares( 'a vaca sagrada da classe média brasileira') ou então jornalistas como Ali Kamel ("Não somos racistas"), Mainardi e o próprio Reinaldo Azevedo que, com sua 'perspicácia' e 'análises lúcidas' formam o time de 'vestais do pensamento nacional' do qual não temos do que nos envergonhar? Eles bastam para que estejamos bem equipados em questões reflexivas e despendam um pouco de tempo e raciocínio.
O utilitarismo educacional de Reinaldo Azevedo é pautado na ideologia educacional reinante na época da ditadura militar. Ali a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) nº 5692/71 foi embasada na crença de que 'os meios , planejados, controlados adequadamente são suficientes para resultados eficientes'.Essa LDB sugeria um ensino taylorista, direcionado com vistas à 'otimização e eficiência' (termos tão recorrentes ultimamente e associados ao meio corporativo). É um ensino reprodutor do establishment , bancário (conceito de Paulo Freire, educador desprezado por Veja), que incentiva a verticalização social, onde apenas os que conseguissem vencer 'pelos méritos próprios' teriam direito ao ensino de qualidade, fosse técnico ou superior. A LDB 5692/71 foi substituida pela LDB nº 9394/96, já na era democrática, regida por ideais democráticos.
Reinaldo Azevedo e parte da direita, raivosa com os avanços sociais alcançados nos últimos anos, descontente com a melhor distribuição de renda, indignada com o crescimento do país liderado pelo 'presidente inculto', parecem estar desesperados ao evocar, mesmo que de forma indireta, a ideologia que formatou a LDB dos tempos militares. Isso mostra o quanto a mentalidade de nossa elite pode criar quando está perdendo o jogo. Para o ilustre jornalista, nem bananas (deixo a critério da imaginação dos leitores para decifrar o termo) devem ser servidas pelo Estado ao cidadão.
Qual o próximo passo? Editoriais clamando a expansão de vagas no Cefet , na Fatec ou da USP-Leste, com seus cursos 'para pobres', para que o proletariado fique satisfeito com empregos técnicos bem remunerados em multinacionais e pare de exigir o direito ao ensino público de qualidade? Ou quem sabe talvez reproduzir em Veja o pensamento educacional de José Goldenberg, ex-ministro da educação que refutava o EJA (Ensino de Jovens e Adultos) por considerar que ensino para adultos referia-se a 'analfabetos' e que pessoas nessa condição ('analfabetos') já tinham construído um bom lugar na sociedade, sendo de pouca valia investir neles para reverter a situação de penúria educacional. Tradiuzindo , para Goldenberg , o analfabetismo seria eliminado com investimento na educação dos filhos dos analfabetos e com a eliminação natural do analfabetismo no Brasil, a saber, com o deaparecimento cronológico dos analfabetos...Se um Ministro pode ter tal concepção distorcida de ensino, porque então nos espantarmos com o pensamento retrógado de um jornalista a serviço da direita que parece ter perdido o foco?
* Marcos Vinicius Gomes é Professor de Língua portuguesa e inglesa, em São Paulo.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
* Liberdade de Imprensa? ANJ e jornais aderem à “Declaração de Hamburgo” em assembléia da SIP
11/11/2009
A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) realizou em Buenos Aires, de 6 a 10 de novembro, sua 65ª assembleia geral. Nela a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Folha de São Paulo e O Globo aderiram à "Declaração de Hamburgo", que pleiteia o respeito à propriedade intelectual para textos jornalísticos reproduzidos na internet. Parlamentares, sindicalistas e intelectuais que participaram do Primeiro Encontro Internacional de Meios e Democracia na América Latina criticaram o evento patronal.
Na 65ª assembleia da SIP, repleta de posições contrárias aos governos de esquerda da América Latina e focada em leis que afetam os meios de comunicação, foram combatidas medidas como a recente aprovação da Lei de Mídia argentina, que restringe a atuação dos grupos de comunicação no país e uma legislação sobre comunicação em trâmite no Equador. A mesma SIP tentou influenciar, há aproximadamente dois meses, o processo de construção da I Conferência Nacional de Comunicação brasileira.
A voz do dono
Mereceu destaque, na cobertura jornalística do evento, uma leitura comparativa do “ranking da liberdade de imprensa” da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), de 2002 a 2009. No relatório da ONG, que é apontada por seus críticos como fiel escudeira dos interesses das principais potenciais econômicas européias e dos Estados Unidos, no continente americano quem se destacou nos ataques contra a liberdade de imprensa foram a Venezuela, Honduras, Bolívia, Equador e Argentina. Ainda segundo tal relatório, neste período – relembrando, “de 2002 a 2009” – o Brasil caiu da 54ª para a 71ª posição no ranking internacional.
Eles se preocupam com o Brasil
Diversos veículos divulgaram a “preocupação” da SIP com o Brasil. Segundo matéria veiculada no site Comunique-se, tal preocupação refere-se ao “aumento de casos de censura e de ações judiciais contra meios de comunicação no Brasil”. A matéria informa, também, que “Segundo Sidnei Basile, da Abril, que apresentou o relatório sobre a situação brasileira, além do caso de censura ao Estadão, o fim da exigência de diploma de jornalismo para o exercício da profissão também causa preocupação”.
Direitos autorais de quem?
Já na Folha de São Paulo, editada pela empresa Folha da Manhã, cuja diretora-superintendente, Judith Brito, é também presidente da ANJ, um dos destaques da cobertura à assembléia da SIP foi quanto à "Declaração de Hamburgo", lançada em junho, “após encontro do Conselho Europeu de Publishers e da Associação Mundial de Jornais” e que agora conta com a adesão da Folha, ANJ e O Globo. Curiosamente, tal matéria foi “reproduzida” em diversos veículos e sites de todo o país.
A crítica do alemão Florian Nehm, representante do Conselho Europeu de Publishers (EPC), ao fato de a maioria dos países ainda não ter adaptado suas legislações à “necessidade de proteger a propriedade intelectual na internet” teve grande divulgação. Segundo ele, "a independência econômica é condição prévia para o jornalismo independente". O reclame é em defesa da "necessidade de uma distribuição justa e equitativa dos ganhos gerados pela distribuição de conteúdo de empresas jornalísticas por agregadores de notícias, como o Google News". E não faltou o argumento de que a “conseqüência imediata” da “ausência de ganhos pela distribuição do conteúdo jornalístico na internet” é a demissão de pessoal.
Diante de tal cobertura, e do fato de muitas empresas utilizarem em diversos veículos o material produzido pelos jornalistas, o presidente da FENAJ, Sérgio Murillo de Andrade, reagiu. “Cabe perguntar se a preocupação empresarial vai se estender para o pagamento de direitos autorais dos jornalistas e se a prática da superexploração do trabalho vai ser superada, inclusive com o fim das pressões por flexiblização da legislação trabalhista e das práticas de precarização”, disse.
Outro lado
A ofensiva da mídia conservadora teve, no dia 9 de novembro, uma contra-ofensiva. O Primeiro Encontro Internacional de Meios e Democracia na América Latina - proposto pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez - discutiu "a situação dos meios na América Latina" e "os monopólios midiáticos e a uniformização da opinião pública".
O encontro paralelo ao da SIP teve a participação de legisladores, sindicalistas e acadêmicos da Argentina, Uruguai, Brasil, Venezuela, Colômbia e Honduras. Na avaliação dos participantes, a SIP ajuda a promover ações autoritárias nos meios de comunicação da região.
Fonte: Fenaj.org.br
Com informações do Comunique-se, FSP e Agência ADITAL.
A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) realizou em Buenos Aires, de 6 a 10 de novembro, sua 65ª assembleia geral. Nela a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Folha de São Paulo e O Globo aderiram à "Declaração de Hamburgo", que pleiteia o respeito à propriedade intelectual para textos jornalísticos reproduzidos na internet. Parlamentares, sindicalistas e intelectuais que participaram do Primeiro Encontro Internacional de Meios e Democracia na América Latina criticaram o evento patronal.
Na 65ª assembleia da SIP, repleta de posições contrárias aos governos de esquerda da América Latina e focada em leis que afetam os meios de comunicação, foram combatidas medidas como a recente aprovação da Lei de Mídia argentina, que restringe a atuação dos grupos de comunicação no país e uma legislação sobre comunicação em trâmite no Equador. A mesma SIP tentou influenciar, há aproximadamente dois meses, o processo de construção da I Conferência Nacional de Comunicação brasileira.
A voz do dono
Mereceu destaque, na cobertura jornalística do evento, uma leitura comparativa do “ranking da liberdade de imprensa” da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), de 2002 a 2009. No relatório da ONG, que é apontada por seus críticos como fiel escudeira dos interesses das principais potenciais econômicas européias e dos Estados Unidos, no continente americano quem se destacou nos ataques contra a liberdade de imprensa foram a Venezuela, Honduras, Bolívia, Equador e Argentina. Ainda segundo tal relatório, neste período – relembrando, “de 2002 a 2009” – o Brasil caiu da 54ª para a 71ª posição no ranking internacional.
Eles se preocupam com o Brasil
Diversos veículos divulgaram a “preocupação” da SIP com o Brasil. Segundo matéria veiculada no site Comunique-se, tal preocupação refere-se ao “aumento de casos de censura e de ações judiciais contra meios de comunicação no Brasil”. A matéria informa, também, que “Segundo Sidnei Basile, da Abril, que apresentou o relatório sobre a situação brasileira, além do caso de censura ao Estadão, o fim da exigência de diploma de jornalismo para o exercício da profissão também causa preocupação”.
Direitos autorais de quem?
Já na Folha de São Paulo, editada pela empresa Folha da Manhã, cuja diretora-superintendente, Judith Brito, é também presidente da ANJ, um dos destaques da cobertura à assembléia da SIP foi quanto à "Declaração de Hamburgo", lançada em junho, “após encontro do Conselho Europeu de Publishers e da Associação Mundial de Jornais” e que agora conta com a adesão da Folha, ANJ e O Globo. Curiosamente, tal matéria foi “reproduzida” em diversos veículos e sites de todo o país.
A crítica do alemão Florian Nehm, representante do Conselho Europeu de Publishers (EPC), ao fato de a maioria dos países ainda não ter adaptado suas legislações à “necessidade de proteger a propriedade intelectual na internet” teve grande divulgação. Segundo ele, "a independência econômica é condição prévia para o jornalismo independente". O reclame é em defesa da "necessidade de uma distribuição justa e equitativa dos ganhos gerados pela distribuição de conteúdo de empresas jornalísticas por agregadores de notícias, como o Google News". E não faltou o argumento de que a “conseqüência imediata” da “ausência de ganhos pela distribuição do conteúdo jornalístico na internet” é a demissão de pessoal.
Diante de tal cobertura, e do fato de muitas empresas utilizarem em diversos veículos o material produzido pelos jornalistas, o presidente da FENAJ, Sérgio Murillo de Andrade, reagiu. “Cabe perguntar se a preocupação empresarial vai se estender para o pagamento de direitos autorais dos jornalistas e se a prática da superexploração do trabalho vai ser superada, inclusive com o fim das pressões por flexiblização da legislação trabalhista e das práticas de precarização”, disse.
Outro lado
A ofensiva da mídia conservadora teve, no dia 9 de novembro, uma contra-ofensiva. O Primeiro Encontro Internacional de Meios e Democracia na América Latina - proposto pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez - discutiu "a situação dos meios na América Latina" e "os monopólios midiáticos e a uniformização da opinião pública".
O encontro paralelo ao da SIP teve a participação de legisladores, sindicalistas e acadêmicos da Argentina, Uruguai, Brasil, Venezuela, Colômbia e Honduras. Na avaliação dos participantes, a SIP ajuda a promover ações autoritárias nos meios de comunicação da região.
Fonte: Fenaj.org.br
Com informações do Comunique-se, FSP e Agência ADITAL.
* A internet cria uma nova unidade básica no jornalismo contemporâneo
Por Carlos Castilho
Durante décadas, a unidade básica ou o padrão de referência para o jornalismo, era o jornal, uma instituição física. Depois, já no final do século XIX, a unidade passou a ser a notícia. Na metade do século XX, o jornalista profissional tornou-se o ponto de referência e agora, no início da era digital, o pilar do jornalismo passou a ser o tema.
Noutras palavras: nos primórdios do jornalismo, você comprava o jornal, um bem físico definido pelo seu título, pelo seu dono e seus vínculos sociais e econômicos. Havia uma fidelidade a uma instituição. Quando a notícia tornou-se a referência, os leitores passaram a comprar jornais em função da atualidade. O “furo jornalístico” classificava quem era o melhor jornal.
O advento da televisão e da rádio reduziu em muito a capacidade dos jornais produzirem furos que o colocavam em vantagem sobre os concorrentes. Por isto, a autoria transformou-se no maior diferencial na venda de conteúdos informativos. Foi a época em que surgiram as grandes grifes jornalísticas e os jornais se esforçavam ao máximo para ter o maior número possível de assinaturas prestigiadas.
Mas ai veio e internet provocando uma nova mudança nos parâmetros definidores do patrimônio mais valorizado de uma empresa jornalística. A nova tendência começou a definir-se muito recentemente quando ficou claro que os leitores vão atrás de temas e não mais de autores, notícias ou instituições.
Uma pesquisa recente do jornal The New York Times mostrou que é cada vez maior o número de leitores que acessam diretamente as páginas de blogs especializados, que de alguma forma poderiam ser equiparados às seções ou editorias nas redações convencionais. A diferença é que as editorias sempre foram decididas pela chefia de redação enquanto no caso das publicações online, a definição fica por conta da demanda do público.
Com isto as páginas de abertura, estilo portal, e caracterizadas por uma vitrine do conteúdo global do site, perdem muito de sua relevância pois deixam de ser uma passagem obrigatória ou o chamariz para temas internos. A instituição (página) deixou de ser o destino final pois os índices de visitação passaram a ser definidos mais em função do fim da linha (blogs especializados).
Cada leitor cria uma espécie de cardápio individual de referências informativas em função de suas preferências. Este menu noticioso pode ser extremamente flexível e mutável, ao contrario dos padrões anteriores, caracterizados por fidelidades e hábitos estáveis.
A opção por temas na hora de eleger as instituições onde buscará elementos para seu cardápio informativo evidentemente incorpora padrões anteriores. A instituição jornal ainda é uma das mais valorizadas na escolha de uma fonte informativa, da mesma forma que a atualidade, originalidade e contextualização da notícia continuam sendo fatores que entram na composição das opções informativas do público. O mesmo acontece com as grifes jornalísticas, que seguem sendo uma referência importante na aferição de credibilidades.
Todos estes fatores convergem agora para a seleção de temas, cuja variedade caracteriza o norte-americano Chris Anderson classificou de “nichos informativos”, ou seja, segmentos do público com interesses altamente específicos. Os nichos noticiosos se especializaram na busca, processamento e publicação de temas que jamais entrariam na consideração do editor chefe de um jornal médio. Duzentas pessoas viabilizam um nicho noticioso na Web, mas dificilmente justificariam a criação de uma área especializada num jornal.
A existência de tantos nichos informativos baseados em temas obriga as instituições produtoras de conteúdos a trabalhar com colaboradores , ou, para usar o economês, conteúdos “terceirizados”. É inviável financeiramente diversificar conteúdos com base em produção própria, porque ela sempre sairá mais cara que a produzida pelo aficionado.
É claro que algumas empresas acham que o conteúdo próprio é um ativo valorizado porque ainda acreditam que as pessoas consomem notícias em função apenas da marca (título) ou da assinatura. Mas a realidade está se encarregando de mostrar o equívoco desta concepção. A tendência é os conteúdos serem produzidos cada vez mais pelos nichos cabendo às instituições, no caso jornais, rádios, televisões ou portais online preocupar-se majoritariamente com a formação da rede de usuários e com o suporte técnico.
Fonte: portal ig
Durante décadas, a unidade básica ou o padrão de referência para o jornalismo, era o jornal, uma instituição física. Depois, já no final do século XIX, a unidade passou a ser a notícia. Na metade do século XX, o jornalista profissional tornou-se o ponto de referência e agora, no início da era digital, o pilar do jornalismo passou a ser o tema.
Noutras palavras: nos primórdios do jornalismo, você comprava o jornal, um bem físico definido pelo seu título, pelo seu dono e seus vínculos sociais e econômicos. Havia uma fidelidade a uma instituição. Quando a notícia tornou-se a referência, os leitores passaram a comprar jornais em função da atualidade. O “furo jornalístico” classificava quem era o melhor jornal.
O advento da televisão e da rádio reduziu em muito a capacidade dos jornais produzirem furos que o colocavam em vantagem sobre os concorrentes. Por isto, a autoria transformou-se no maior diferencial na venda de conteúdos informativos. Foi a época em que surgiram as grandes grifes jornalísticas e os jornais se esforçavam ao máximo para ter o maior número possível de assinaturas prestigiadas.
Mas ai veio e internet provocando uma nova mudança nos parâmetros definidores do patrimônio mais valorizado de uma empresa jornalística. A nova tendência começou a definir-se muito recentemente quando ficou claro que os leitores vão atrás de temas e não mais de autores, notícias ou instituições.
Uma pesquisa recente do jornal The New York Times mostrou que é cada vez maior o número de leitores que acessam diretamente as páginas de blogs especializados, que de alguma forma poderiam ser equiparados às seções ou editorias nas redações convencionais. A diferença é que as editorias sempre foram decididas pela chefia de redação enquanto no caso das publicações online, a definição fica por conta da demanda do público.
Com isto as páginas de abertura, estilo portal, e caracterizadas por uma vitrine do conteúdo global do site, perdem muito de sua relevância pois deixam de ser uma passagem obrigatória ou o chamariz para temas internos. A instituição (página) deixou de ser o destino final pois os índices de visitação passaram a ser definidos mais em função do fim da linha (blogs especializados).
Cada leitor cria uma espécie de cardápio individual de referências informativas em função de suas preferências. Este menu noticioso pode ser extremamente flexível e mutável, ao contrario dos padrões anteriores, caracterizados por fidelidades e hábitos estáveis.
A opção por temas na hora de eleger as instituições onde buscará elementos para seu cardápio informativo evidentemente incorpora padrões anteriores. A instituição jornal ainda é uma das mais valorizadas na escolha de uma fonte informativa, da mesma forma que a atualidade, originalidade e contextualização da notícia continuam sendo fatores que entram na composição das opções informativas do público. O mesmo acontece com as grifes jornalísticas, que seguem sendo uma referência importante na aferição de credibilidades.
Todos estes fatores convergem agora para a seleção de temas, cuja variedade caracteriza o norte-americano Chris Anderson classificou de “nichos informativos”, ou seja, segmentos do público com interesses altamente específicos. Os nichos noticiosos se especializaram na busca, processamento e publicação de temas que jamais entrariam na consideração do editor chefe de um jornal médio. Duzentas pessoas viabilizam um nicho noticioso na Web, mas dificilmente justificariam a criação de uma área especializada num jornal.
A existência de tantos nichos informativos baseados em temas obriga as instituições produtoras de conteúdos a trabalhar com colaboradores , ou, para usar o economês, conteúdos “terceirizados”. É inviável financeiramente diversificar conteúdos com base em produção própria, porque ela sempre sairá mais cara que a produzida pelo aficionado.
É claro que algumas empresas acham que o conteúdo próprio é um ativo valorizado porque ainda acreditam que as pessoas consomem notícias em função apenas da marca (título) ou da assinatura. Mas a realidade está se encarregando de mostrar o equívoco desta concepção. A tendência é os conteúdos serem produzidos cada vez mais pelos nichos cabendo às instituições, no caso jornais, rádios, televisões ou portais online preocupar-se majoritariamente com a formação da rede de usuários e com o suporte técnico.
Fonte: portal ig
sábado, 7 de novembro de 2009
* A Aristocracia do poder paralelo
Por Marcos Vinicius Gomes
É consenso que a criminalidade do Rio de Janeiro associada ao tráfico de drogas cresceu demasiado durante os anos oitenta, inicialmente durante o governo de Leonel Brizola. Atribui-se a ele o desleixo e a conivência que resultaram no aumento do controle dos morros por traficantes que assumiram funções inicialmente atribuídas ao Estado. Mas relacionar o enraizamento da criminalidade carioca diretamente unicamente à administração Brizola no meu entender é precipitado.
O texto de Marques (autor do texto postado abaixo*) associa algumas vezes os traficantes à aristocracia - os traficantes seriam os reis dos morros, ocupando um lugar deixado pelo Estado. Mas nessa ‘aristocracia’ existe um componente que parece estar ligado à idéia de cidade estado, bem anterior aos anos mais recentes. O Rio foi capital do Brasil durante cento e cinqüenta anos, criou-se ali uma sociedade verticalizada com aristocratas, uma pequena burguesia, burocratas, homens livres e escravos.
Com o fim do império e da escravidão já um ano antes, a cidade transformou-se em metrópole na virada do século com obras de infra-estrutura, saneamento. Com o Estado Novo de Vargas ainda prevalecia um ar aristocrático na cidade, não esta aristocracia formal que conhecemos e que teoricamente acabou no Brasil, mas algo que tem a ver com a mentalidade da população da cidade em si. Além disso, é notório ter sido o Rio o celeiro cultural mais latente do país. O escritor que quisesse fazer sucesso teria que estar no Rio, assim como um cantor, um ator que não fosse nativo dali. O Rio era (e ainda é a porta de entrada nacional, cartão postal ao mundo).
O carioca é orgulhoso de sua cidade, o que não poderia deixar de ser, mas como em outras partes do Brasil o orgulho pode se tornar ufanismo utópico, talvez catastrófico, algo que já vem desde tempos de Cabral e da carta de Pero Vaz de Caminha. Deste ufanismo vem certo cinismo que é notado de tempos em tempos em atitudes que deveriam envergonhar qualquer um. Peguemos as passeatas “classe média alta’ pela paz em Copacabana (ou então na Avenida Paulista em São Paulo) com seus integrantes vestindo branco e soltando balões, muitos deles usuários ‘sociais de drogas que mascaram seus atos de alienação com intenções sublimes e altruístas. São neo-aristocratas da sociedade verticalizada, da carteirada, do argumento ‘sabe com quem está falando? ‘, da cultura do ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
Um outro referencial ‘aristocrático’ do Rio de Janeiro é o carnaval, muitas das vezes maculado com parcerias obscuras de dirigentes de escolas de samba bicheiros e outros contraventores numa harmonia invejável que aglutinam o sonho, a fantasia, a criminalidade e a omissão num só pacote. Carnaval este que para Roberto da Mata carrega algo de catarse, purificador, libertador para aqueles que estavam debaixo da pirâmide aristocrática opressora, verticalizada e escravista da capital da República em tempos antigos.
Quando da mudança da capital para Brasília em 1960, o Rio tem tentado manter a aura de glamour aristocrático que cingiu a cidade desde a chegada de D.João VI no início do século 19. Mas a capital antiga já não conseguiria manter-se no patamar de antes, os burocratas mudaram-se de endereço (que fariam parte de uma ‘aristocracia moderna’), os recursos rarearam, a cidade empobreceu e sem referencial industrial e de prestação de serviços entrou em certo declínio, dependendo apenas do turismo interno e externo, além de sua grande indústria do entretenimento/turismo conhecida como carnaval carioca.
Há indicadores aristocráticos até na polícia do Rio de Janeiro. O exemplo mais notório é o BOPE – batalhão de elite que carrega a pretensão de formar guerreiros urbanos, armados fortemente para defender a sociedade de criminosos perigosos. É mais um dentre outros tantos grupos de elite policial que, numa democracia, reforçam o fator exclusivista da segurança pública, segregacionista, injusta, onde poucos podem usufruir de seu serviço, visto que é de elite. Os recursos para o batalhão são superiores aos grupos policiais ‘comuns’. E onde há exclusão, há a disseminação da política do compadrio, do desrespeito ao mérito e evidente da corrupção.
Voltando ao principal tema, o da violência e de seus atores, tomemos mais uma vez o traficante. Herói de um chão sem lei (sem Estado) arroga e evoca para si o papel de defensor da causa miserável, prestando serviços aos moradores desassistidos destes locais onde impera a lei do mais forte. Autoproclamado líder, assume poderes de déspota, impondo a censura, o terror, a ‘justiça’ paralela. Como príncipes, vivem como sultões num chão de impiedade, às vezes têm laços com políticos, representantes da justiça brasileira, empresários, artistas. Como disse o texto de Marques, são reis nas comunidades, reverenciados por aqueles esquecidos pelo Estado que por sua vez se esqueceu que sua razão de ser é servir o cidadão, independente do quanto de influencia e poder este possa ter.
Evidentemente que na luta contra o tráfico deve-se combatê-lo com as mais eficientes estratégias na busca da extinção da chaga que o comércio de drogas representa à sociedade. A logística, o uso de inteligência são essenciais para o combate aos ‘barões do pó’. Mas, também há que se pensar de modo estrutural, observando-se os vetores que alavancaram este triste capítulo na história do Rio de Janeiro (e também na de outras capitais e cidades brasileiras) sob um olhar crítico histórico-social. Não é pretensão de beletrismo, perfumaria sociológica, mas a análise profunda dos problemas que necessitam ser estudados e combatidos com mais afinco e competência numa cidade (e num país) que irá sediar um evento mundial importante como as Olimpíadas de 2016, evento que necessita de estruturas de segurança bem organizadas. Para isso o Rio precisa se modernizar, a começar pela mentalidade aristocrática que ainda ronda a cidade maravilhosa e seus habitantes cariocas.
*nota do blog
É consenso que a criminalidade do Rio de Janeiro associada ao tráfico de drogas cresceu demasiado durante os anos oitenta, inicialmente durante o governo de Leonel Brizola. Atribui-se a ele o desleixo e a conivência que resultaram no aumento do controle dos morros por traficantes que assumiram funções inicialmente atribuídas ao Estado. Mas relacionar o enraizamento da criminalidade carioca diretamente unicamente à administração Brizola no meu entender é precipitado.
O texto de Marques (autor do texto postado abaixo*) associa algumas vezes os traficantes à aristocracia - os traficantes seriam os reis dos morros, ocupando um lugar deixado pelo Estado. Mas nessa ‘aristocracia’ existe um componente que parece estar ligado à idéia de cidade estado, bem anterior aos anos mais recentes. O Rio foi capital do Brasil durante cento e cinqüenta anos, criou-se ali uma sociedade verticalizada com aristocratas, uma pequena burguesia, burocratas, homens livres e escravos.
Com o fim do império e da escravidão já um ano antes, a cidade transformou-se em metrópole na virada do século com obras de infra-estrutura, saneamento. Com o Estado Novo de Vargas ainda prevalecia um ar aristocrático na cidade, não esta aristocracia formal que conhecemos e que teoricamente acabou no Brasil, mas algo que tem a ver com a mentalidade da população da cidade em si. Além disso, é notório ter sido o Rio o celeiro cultural mais latente do país. O escritor que quisesse fazer sucesso teria que estar no Rio, assim como um cantor, um ator que não fosse nativo dali. O Rio era (e ainda é a porta de entrada nacional, cartão postal ao mundo).
O carioca é orgulhoso de sua cidade, o que não poderia deixar de ser, mas como em outras partes do Brasil o orgulho pode se tornar ufanismo utópico, talvez catastrófico, algo que já vem desde tempos de Cabral e da carta de Pero Vaz de Caminha. Deste ufanismo vem certo cinismo que é notado de tempos em tempos em atitudes que deveriam envergonhar qualquer um. Peguemos as passeatas “classe média alta’ pela paz em Copacabana (ou então na Avenida Paulista em São Paulo) com seus integrantes vestindo branco e soltando balões, muitos deles usuários ‘sociais de drogas que mascaram seus atos de alienação com intenções sublimes e altruístas. São neo-aristocratas da sociedade verticalizada, da carteirada, do argumento ‘sabe com quem está falando? ‘, da cultura do ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
Um outro referencial ‘aristocrático’ do Rio de Janeiro é o carnaval, muitas das vezes maculado com parcerias obscuras de dirigentes de escolas de samba bicheiros e outros contraventores numa harmonia invejável que aglutinam o sonho, a fantasia, a criminalidade e a omissão num só pacote. Carnaval este que para Roberto da Mata carrega algo de catarse, purificador, libertador para aqueles que estavam debaixo da pirâmide aristocrática opressora, verticalizada e escravista da capital da República em tempos antigos.
Quando da mudança da capital para Brasília em 1960, o Rio tem tentado manter a aura de glamour aristocrático que cingiu a cidade desde a chegada de D.João VI no início do século 19. Mas a capital antiga já não conseguiria manter-se no patamar de antes, os burocratas mudaram-se de endereço (que fariam parte de uma ‘aristocracia moderna’), os recursos rarearam, a cidade empobreceu e sem referencial industrial e de prestação de serviços entrou em certo declínio, dependendo apenas do turismo interno e externo, além de sua grande indústria do entretenimento/turismo conhecida como carnaval carioca.
Há indicadores aristocráticos até na polícia do Rio de Janeiro. O exemplo mais notório é o BOPE – batalhão de elite que carrega a pretensão de formar guerreiros urbanos, armados fortemente para defender a sociedade de criminosos perigosos. É mais um dentre outros tantos grupos de elite policial que, numa democracia, reforçam o fator exclusivista da segurança pública, segregacionista, injusta, onde poucos podem usufruir de seu serviço, visto que é de elite. Os recursos para o batalhão são superiores aos grupos policiais ‘comuns’. E onde há exclusão, há a disseminação da política do compadrio, do desrespeito ao mérito e evidente da corrupção.
Voltando ao principal tema, o da violência e de seus atores, tomemos mais uma vez o traficante. Herói de um chão sem lei (sem Estado) arroga e evoca para si o papel de defensor da causa miserável, prestando serviços aos moradores desassistidos destes locais onde impera a lei do mais forte. Autoproclamado líder, assume poderes de déspota, impondo a censura, o terror, a ‘justiça’ paralela. Como príncipes, vivem como sultões num chão de impiedade, às vezes têm laços com políticos, representantes da justiça brasileira, empresários, artistas. Como disse o texto de Marques, são reis nas comunidades, reverenciados por aqueles esquecidos pelo Estado que por sua vez se esqueceu que sua razão de ser é servir o cidadão, independente do quanto de influencia e poder este possa ter.
Evidentemente que na luta contra o tráfico deve-se combatê-lo com as mais eficientes estratégias na busca da extinção da chaga que o comércio de drogas representa à sociedade. A logística, o uso de inteligência são essenciais para o combate aos ‘barões do pó’. Mas, também há que se pensar de modo estrutural, observando-se os vetores que alavancaram este triste capítulo na história do Rio de Janeiro (e também na de outras capitais e cidades brasileiras) sob um olhar crítico histórico-social. Não é pretensão de beletrismo, perfumaria sociológica, mas a análise profunda dos problemas que necessitam ser estudados e combatidos com mais afinco e competência numa cidade (e num país) que irá sediar um evento mundial importante como as Olimpíadas de 2016, evento que necessita de estruturas de segurança bem organizadas. Para isso o Rio precisa se modernizar, a começar pela mentalidade aristocrática que ainda ronda a cidade maravilhosa e seus habitantes cariocas.
*nota do blog
Assinar:
Postagens (Atom)
Lula, Trump, Bolsonaro e o STF
wordpress Milhões de pessoas a favor de Lula e do STF, contra Bolsonaro. Milhões de pessoas a favor de Bolsonaro, contra o STF e contra Lula...
-
wordpress Milhões de pessoas a favor de Lula e do STF, contra Bolsonaro. Milhões de pessoas a favor de Bolsonaro, contra o STF e contra Lula...
-
(Mensagem recomenda voto somente a candidatos contrários à descriminalização do aborto - Postada no site do jornal Folha de S.Paulo, nesta t...
-
Já foi dito que o Brasil não pode crescer se valendo, principalmente, dos recursos naturais disponíveis no país que, a médio e longo prazo...