segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

*Autoridade e Poder

Pedro Estadão*

...Mahatma Ghandi, nunca teve qualquer espécie de poder, no entanto, a demonstração da sua autoridade moral e política era de tal forma elevada que levou 800 milhões de indianos a seguirem incontestavelmente a sua liderança.

Há uma diferença essencial entre os conceitos de autoridade e poder, é que o poder é factual enquanto que a autoridade é relativa, todos temos certo grau de autoridade, que podemos exercer, enquanto que o poder é exclusivo de quem tenha uma determinada posição que prevalece sobre as demais. O poder é capacidade de fazer, enquanto que autoridade é capacidade de fazer crescer. De fato, a autoridade é a capacidade de autor e o autor é aquele que faz crescer, defende-se que a autoridade é o valor que se reconhece a uma pessoa que é capaz de nos fazer crescer num dado aspecto, um exemplo deste conceito é fácil de apresentar: Um Professor de qualquer disciplina é, para nós, uma autoridade nessa área enquanto nos possa ensinar algo, depois disso, deixamos de lhe reconhecer autoridade.

A autoridade tem de ser reconhecida pelo outro, enquanto o poder, não. Autoridade* e poder não são sinônimos. Autoridade vem do Latim “autoritas”, que se traduz livremente como “capacidade de autor”. Poder tem origem no latim “potestas”. Em política, “autoridade” é frequentemente confundida com “poder”, no direito Romano, “auctoritas” é usado em oposição a “potestas” ou a “imperium”. Um Senador, na política romana, não era um magistrado, trabalhava somente ao nível da influência pessoal, detendo autoridade sem deter poder. O significado de “autoridade” difere do significado de poder, por este último significar a capacidade de atingir certos fins e a primeira, a legitimidade, justificação e o direito de atingí-los. Temos, neste caso o exemplo de Mohandas Ghandi, que nunca teve qualquer espécie de poder, no entanto, a demonstração da sua autoridade moral e política era de tal forma elevada que levou 800 milhões de indianos a seguirem incontestavelmente a sua liderança.

Paradoxalmente, costumamos referir-nos aos Policiais como agentes da autoridade, o que, de fato, não são, o que são é agentes do poder, tornam-se agentes de autoridade somente quando são capazes de nos fazer perceber, por meio da sua autoridade pessoal e não pelo poder que lhes está conferido, que certa ou determinada atitude ou ação não é moralmente correta. O poder está ligado à Lei e a autoridade está ligada à legitimidade. Um agente de polícia nunca pode abusar da autoridade, somente pode abusar do poder.

Max Webber, na sua obra “Conceitos Básicos de Sociologia”, afirma, “Por poder entende-se cada oportunidade ou possibilidade existente numa relação social que permite a um indivíduo cumprir a sua própria vontade”.

Grande parte do debate sociológico recente sobre o “poder”, gira em torno do problema de definir a sua natureza como permissiva ou restritiva. Nestes termos, o “poder” pode ser visto como um conjunto de maneiras de restringir a ação humana, mas também como aquilo que permite que a ação seja possível, pelo menos dentro de certa medida. Grande parte desta discussão está relacionada com os trabalhos de Foucault que, na sequência de Maquiavel, vê o “poder” como “uma complexa situação estratégica numa determinada sociedade”. Sendo meramente estrutural, o conceito de Foucault engloba tanto as características restritivas como as permissivas.

A imposição não requer necessariamente da coação (força ou ameaça de força). Assim, o “poder”, no sentido sociológico, inclui tanto o poder físico como o poder político, a par de muitos outros tipos de poder existentes.

Poder-se-ia definir o “poder” como a maior ou menor capacidade unilateral (real ou percebida) ou potencial de produzir mudanças significativas, tipicamente, sobre as vidas de outras pessoas, através das ações realizadas pelo próprio ou através de terceiros.

A utilização do poder com base numa interpretação evolucionista aplicada aos indivíduos está relacionada com a finalidade de permitir a uma pessoa desenvolver-se até ao mais elevado nível de conforto que possa alcançar dentro da sua esfera social.                            

Depois de percebermos isto, acrescenta-se que o poder está relacionado com o verbo ter, ou se tem ou não se tem poder. A autoridade está relacionada com o verbo ser, ou se é ou não se é uma autoridade. Apesar do exercício do poder ser endêmico nas comunidades humanas, é efetivamente a autoridade que provoca as mudanças, pois trabalha ao nível do ser e não ao nível do ter, o que se tem, pode ser retirado, enquanto que o que se é apenas pode ser transformado. Afirma-se, por isso, que a liderança exercida no campo da autoridade é sempre melhor recebida que quando é exercida no campo do poder, e isso faz toda a diferença quando o papel do líder é entendido com um objetivo de transformação da realidade.

*Pedro Estadão
Barreiro, Portugal.

Comentário:

*Penso que a autoridade acima descrita trata-se de uma autoridade informal naturalmente adquirida, por meio da índole e de outros recursos inerentes a determinada pessoa - exemplo de pais, professores, patrões, já a formal designação de Autoridade é decorrente do poder que o investido em cargo administrativo, judicial, policial ou político exerce por determinado tempo. Ou seja; a autoridade que o poder institucional – público, lhe outorga, delega. Essa autoridade é específica, restrita a um âmbito do poder, limitada e sob controle da lei. Dentre os que exercem uma autoridade natural, muitos depois se revelam maquiavélicos e com intenções questionáveis e são, também naturalmente, afastados dos seus postos. Isso acontece principalmente nos líderes emergentes nas comunidades carentes, nos sindicatos...

Alberto Magalhães

2 comentários:

Marcos Vinicius Gomes disse...

Alberto,


É bem tenue a linha que separa estes dois conceitos. Mesmo que a imagem de Gandhi seja destituída da força institucional/pessoal associada ao poder , ele não conseguiria seus intentos e libertar o povo sem ter algum tipo de poder. Em inglês poder ("power") tem raiz latina 'posse' - que significa 'ser capaz', 'estar capacitado', o que sem sombra de dúvida, Gandhi estaria capacitado para liderar sua revolução pacífica. Essa etimologia (estudo da origem das palavras) da palavra poder -'power' em inglês é imprecisa, mas mesmo assim é a que mais se aproxima do poder 'capacitado'para algo ou alguma atividade em diversas áreas. É bem comum esses termos se confundirem. Um especialista é 'autoridade' em algum assunto, entretanto essa autoridade vem com o poder de persuassão, de sintese, de´análise, que o habilitaram para ser chamado como tal. A medição do nível de autoridade de alguém ou alguma instituição é como pesquisa de opinião sobre desempenhos governamentais, muda de uma hora para outra, numa maneira muito mais dinâmica do que quando acontece com o poder-veja no caso de Bush, um poder sem autoridade.
PS a fonte da citação é o Webster New World Dictionary, 1972

Cozinheiro Preguiçoso disse...

Encontrei por acaso este site na web e confesso que me senti vaidoso por ver um dos meus textos chegar ao Brasil e ser discutido pelos meus irmãos Brasileiros, que ainda se deram ao trabalho de tranformar o Português de Portugal em que escrevi o texto, em Português do Brasil como aqui aparece.

Não quero, no entanto, deixar de passar sem vos enviar as minhas saudações deste país irmão e colocar-me à vossa disposição para o aprofundamento deste debate ou qualquer esclarecimento sobre este meu escrito.

O endereço que coloco à vossa disposição para esse propósito é pestadao@yahoo.com . Não deixarei, no entanto de seguir o debate que aqui se desenrola e adicionar este blog às minhas visitas habituais.

Para vós, um grande bem hajam,

Pedro Estadão

Barreiro, Portugal